A interação universidade-empresa vem sendo estimulada nas políticas públicas para nanotecnologia, desde o início, como uma tentativa para garantir que o conhecimento gerado nas universidades seja captado pelo setor produtivo, transformando-o em produto a ser comercializado. É o chamado modelo ofertista linear145, já discutido anteriormente.
Os editais de criação das redes tinham como objetivos apoiar tanto a pesquisa básica quanto a pesquisa aplicada; no entanto, o que tem prevalecido é a intensa interação entre as redes e o setor produtivo. Das 37 redes analisadas, 31 declararam interagir com empresas, nominando-as, e seis declararam haver interesse de empresas em seus resultados, mas não as nominaram.
Para respeitar o sigilo empresarial, não serão nominadas as empresas com as quais as redes interagiram, mas apenas o setor de atuação e a nacionalidade. O setor produtivo é representado nesta análise por: a) empresas privadas nacionais – empresas com sede no Brasil, podendo ou não possuir filiais no exterior; b) empresas privadas estrangeiras – empresas com sede no exterior e sem filiais no Brasil; c) empresas multinacionais – empresas com sede no exterior e filial no Brasil; d) empresas públicas – empresas brasileiras constituídas 100% com capital estatal; e) sociedades de economias mista – empresas brasileiras constituídas com capital privado e estatal, sob controle acionário do Estado; e f) indeterminado – empresas das quais não foi possível identificar a nacionalidade, nem a personalidade jurídica.
Com as 80 empresas nacionais privadas declaradas e identificadas nas propostas das redes, foram constituídas 96 interações, nos mais diversos setores. O setor farmacêutico foi o que teve maior número de parcerias, 20 ao todo. Em seguida, o setor de metalurgia/mineração/siderurgia, com sete interações; cosméticos e petroquímica, com seis interações cada um; eletrônica e sensores, com cinco colaborações cada um; biomedicina/biotecnologia, com quatro, e o setor de produtos ortodônticos, com três interações. Outros setores considerados de interesse para a sociedade, como agronegócio, alimentos e energia estabeleceram juntos apenas cinco interações com as redes.
A FIGURA 13 mostra o número de interações feitas entre as redes e o setor produtivo.
Figura 13 - Número de interações entre as redes e o setor produtivo. Fonte: Projetos de pesquisa das redes. Elaborado pelo autor
Com as sociedades de economia mista, as redes estabeleceram 11 cooperações nos setores petroquímico (oito) e energia (três). Já com as empresas públicas, foram declaradas dez interações, sendo nove no setor de agronegócio e uma no setor de eletrônica.
Com as empresas multinacionais, foram declaradas, nas propostas das redes,
23 cooperações com 21 empresas diferentes com sede em oito países, sendo duas sedes indeterminadas – Estados Unidos da América do Norte, com 12 interações; Alemanha e Suíça, duas interações com cada país; México, Reino Unido-Holanda, França, Japão e Holanda, cada país com uma cooperação (FIGURA 14). Sendo os principais setores em cooperação o de alimentos/agronegócio e farmacêutico, com nove e cinco interações, respectivamente.
0 20 40 60 80 100 120 Empresas privadas nacionais Empresas multinacionais Sociedade de Economia Mista Empresas públicas Empresas privadas estrangeiras Indeterminado Núm er o de inte ra çõ es do s et or pro du tiv o co m a s r edes Setor produtivo
Figura 14 - Número de interações entre as empresas multinacionais, de acordo com o país-sede, e as redes. Fonte: Projetos de pesquisa das redes. Elaborado pelo autor
Por último, as redes declararam ter estabelecido nove interações com empresas estrangeiras sediadas nos Estados Unidos, na Argentina, Alemanha, França, Canadá, Coreia do Sul, Áustria e em Israel, sendo nove no setor de eletrônica; duas, no setor farmacêutico; uma, no setor químico de síntese de nanomateriais; e uma interação no setor de tecnologias da informação e comunicação.
Estes resultados se baseiam na ideia amplamente disseminada nos países do Norte e importada pelos países do Sul de que a interação universidade-empresa é central no processo de desenvolvimento de um país191.
Segundo Etzkowitz192, a universidade estaria na segunda revolução acadêmica. Concebida originalmente, há mais de 1000 anos, com a função de preservar e disseminar cultura, a primeira revolução teria se dado no fim do século XIX e início do século XX, em algumas universidade europeias e norte-americanas, com o advento da pesquisa, inicialmente, em filologia e depois em outras disciplinas, de inovadoras formas de ensino por meio de estudos cooperativos de textos. Prevalecia a pesquisa pura.
0 2 4 6 8 10 12 14 N ú m e ro d e in te raç õ e s d as e m p re sas m u lti n aci on ai s co m as r ed es
Na segunda revolução acadêmica, a universidade adquire funções empreendedoras, por meio da privatização do conhecimento, utilizando mecanismos de aproximação com a empresa, criação de escritórios de transferência tecnológica e de incubadoras, entre outros:
As universidades estão se tornando instituições híbridas, integrando as tarefas de pesquisa, ensino e desenvolvimento econômico, em várias combinações, com persistente tensão em relação ao balanço adequado entre elas192(p. 28, tradução nossa).
A noção de que a interação entre universidades e empresas favorece o crescimento competitivo e consequentemente, o desenvolvimento econômico e social do país baseia-se em estudos de caso feitos, principalmente, com universidades norte-americanas193.
Esse modelo de desenvolvimento científico e tecnológico aliado ao desenvolvimento econômico, via aumento da competitividade da indústria nacional, tem sido recepcionado pelas políticas científicas e tecnológicas e, consequentemente, pelas políticas para nanotecnologia. Basta lembrar as diretrizes que regem as políticas públicas para nanotecnologia, a começar pelo Documento- base, elaborado em 2003:
O objetivo do Programa é criar e desenvolver novos produtos e processos em Nanotecnologia, implementando-os para aumentar a competitividade da indústria nacional e capacitando pessoal para o aproveitamento das
oportunidades econômicas, tecnológicas e científicas da
Nanotecnologia109(p. 8).
A mais recente política para nanotecnologia, elaborada 10 anos após a primeira, manteve a ênfase na competitividade industrial do país:
Tendo-se em vista a necessidade de aumentar competitividade da indústria brasileira e o desenvolvimento nacional, a implementação de ações com o objetivo de transformar nanotecnologias em produtos é essencial164(p. 16).
De maneira geral, as políticas científicas e tecnológicas nacionais “comprometem” a ciência e a tecnologia com as demandas empresariais, como forma de elevar o desenvolvimento social do país. A ENCTI, por exemplo, expressa:
Nessa nova fase do processo de fortalecimento da base científica nacional e de capacitação tecnológica das empresas brasileiras, visando preparar o País para os enormes desafios que se colocam ao seu desenvolvimento neste início de século, queremos avançar em cinco frentes, buscando consolidar nossa segurança e nossa soberania nas esferas econômica, energética, alimentar e sanitária134(p. 13).
Pode-se pensar, em princípio, que a interação das redes com as empresas fosse uma condicionante política (policy, referente às políticas públicas e politics, referente ao jogo de poder na arena política partidária) para que suas propostas fossem selecionadas para receberem recursos públicos. Em parte, isto é verdadeiro, como se vê nas citações acima e nas diretrizes dos editais, que incentivavam essas interações.
Afora estas diretrizes políticas, percebeu-se também o interesse autônomo das redes em interagir com o setor produtivo, como forma de atrair investimentos privados para suas pesquisas e desenvolver em larga escala os resultados de suas pesquisas. O inverso, interesse das empresas nos resultados das pesquisa das redes, também é verdadeiro, como forma de “inovar” em suas linhas de produção e, assim, tornarem-se mais competitivas no mercado nacional e internacional.