i aviser og ukeblader 1948-69
2. Grunnlaget for analysen
Se devemos questionar a obra de António Lino Neto face aos estímulos que produz na geração seguinte, não é menos pertinente indagar o que ela deve a Frederico Laranjo, seu correligionário no Partido Progressista e director do Distrito de Portalegre, onde Lino Neto dá os primeiros passos como jornalista. A inclusão de pelo menos parte do espólio de Frederico Laranjo no espólio de António Lino Neto269 sugere que a relação entre os dois professores catedráticos e autores de livros de Economia Política
266 Ana Isabel Sardinha Desvignes, António Sardinha (1887-1925)…, p. 23. 267 Ana Isabel Sardinha Desvignes, António Sardinha (1887-1925)…, p. 24. 268 Ana Isabel Sardinha Desvignes, António Sardinha (1887-1925)…, p. 25. 269 PT/UCP/CEHR/AALN/AFL.
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extravasou o campo profissional e político. Frederico Laranjo foi um pioneiro da teoria económica e história económica em Portugal e António Lino Neto, principalmente em A
Questão Agrária, de 1908, desenvolveu uma linha de pensamento económico que ele mesmo designou de «neo-fisiocrática».
Nenhum historiador do pensamento económico em Portugal identifica uma continuidade entre as ideias económicas de Frederico Laranjo e as de António Lino Neto. Carlos da Fonseca classifica Frederico Laranjo como um socialista de Estado ou de cátedra, filiando-o na mesma família de economistas de L. von Stein, Schmoller, Laveleye, Scheel e Oliveira Martins. Para este autor, António Lino Neto é um economista nacionalista, partilhando as referências de F. Lizt, Conrad e, em Portugal, Basílio Teles, Anselmo Vieira, José Pequito Rebelo, Anselmo de Andrade, Ezequiel de Campos e Oliveira Salazar270. Carlos Bastien define a posição teórica de Laranjo, como um socialismo catedrático, sendo este entendido como uma síntese entre o socialismo de Estado e o socialismo cooperativo271. Sublinha que uma das divergências de Frederico Laranjo com a geração de 70 foi não aderir à estratégia agrarista de Oliveira Martins expressa no projecto de fomento rural assinado por aquele historiador e político272. O filão agrarista do pensamento martiniano é uma das fontes do pensamento «neo- fisiocrático» de António Lino Neto.
Num tom de apreciação crítica, Carlos Bastien sublinha que «Apesar de católico, Laranjo não aceitou as soluções proto-corporativas que começavam a ecoar no meio académico donde provinha e antes procurou uma via alternativa ao individualismo e ao socialismo revolucionário num socialismo que passava pelo associativismo e pelo cooperativismo mas que em momento algum se confundia com a representação orgânica de interesses sociais»273. É uma observação estimulante para uma tese que se propõe interpretar um percurso cívico-religioso à luz da problemática da relação entre catolicismo e política perante a crise do liberalismo. Leva-nos a colocar a questão: por que é que Frederico Laranjo, «apesar de católico», não influenciou mais António Lino Neto e não deixou marcas na intervenção política de católicos ou, pelo menos, na reflexão de católicos acerca da política?
270 José Frederico Laranjo, Economistas Portugueses, Prefácio e notas de Carlos da Fonseca, Lisboa,
Guimarães & C.ª Editores, 1976, p. 15-17.
271 José Frederico Laranjo, Princípios de Economia Política, Introdução e Direcção de Edição de Carlos
Bastien, Lisboa, Banco de Portugal, 1997, p. XIII.
272 José Frederico Laranjo, Princípios de Economia…, p. XIV. 273 José Frederico Laranjo, Princípios de Economia…, p. XX.
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Uma parte da resposta poderá estar na definição e posicionamento de Frederico Laranjo como «católico». Numa carta de 1908, o deputado do Partido Progressista e professor explica à superiora das irmãs do hospital de Portalegre a sua atitude face à Igreja Católica em termos que se demarcam claramente dos diversos anti-clericalismos mas que interiorizam o processo de secularização que a militância católica de finais do século XIX e inícios do século XX combatia:
«Agradeço a V. Ex.ª o seu presente e a sua dedicatória; pode ser que eu não seja um perfeito catholico, mas forcejo por ser um bom cristão, e todos os que trabalharam e sofreram para remir a humanidade e a alliviar e consolar nas suas misérias de toda a espécie, todos os que se esforçaram para que se realize aquelle bello pedido do Padre Nosso – Venha a nós o vosso reino – são meus amigos e têm o meu culto.
Eu sou um homem do meu século, partidário da liberdade, mas sem licença e com ordem; um socialista, sedento d’uma maior justiça e d’um maior bem-estar para as classes mais numerosas e menos favorecidas ou da natureza ou da sociedade; mas não comprehendo que os que têem este ideal, que alvoreceu para a humanidade com os prophetas da Judeia, e cuja aurora esplendente foi o evangelho de Jesus, ataquem as instituições religiosas destinadas a servir a humanidade, com uma dedicação e abnegação, que só a religião pode inspirar, e que têem inspirado há muitos séculos.
Alguns leitores do meu periódico hão de se admirar de que o político que defende a liberdade e o socialismo, seja o mesmo que escreva ou mande traduzir vidas de santos, e seja profundamente respeitador e eminentemente favorável às ordens religiosas destinadas a praticarem as obras da misericórdia; respondo a esses taes que nada do que é humano me é estranho, e que tudo o que é bem, embora seja antigo, embora tenha a forma religiosa, que nada prejudica, e que em muitos casos santifica, é digno do meu respeito, tem a minha adhesão e o meu sincero applauso»274.
Este posicionamento face à Igreja Católica possui alguma proximidade com o de Oliveira Martins, que António Matos Ferreira inscreve num horizonte que designa por pós-catolicismo: «Mais do que pugnar por uma desconfessionalização, insistia na necessidade de se valorizar no plano ético uma heroicidade que, encarnando no indivíduo, devia expressar o horizonte de plenitude social; isto é, a sociedade seria regenerada pelo agir daqueles que consubstanciavam e corporizavam a Ideia, como processo de espiritualização enquanto processo encaminhador de progresso»275. Nuno Álvares Pereira seria um desses modelos de heroicidade de matriz católica. Tanto Frederico Laranjo como Oliveira Martins valorizam o catolicismo sem se afirmarem como católicos praticantes, embora os seus pontos de vista não coincidam: em Frederico Laranjo esta valorização incide sobre os valores evangélicos da Igreja; Oliveira Martins admira acima de tudo na Igreja Católica «a capacidade para fornecer organicidade e
274 PT/UCP/CEHR/AALN/D/F/166/119, fls 1-3.
275 António Matos Ferreira, O Pensamento de Oliveira Martins sobre religião, [tese complementar de
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coerência à sociedade, de que, em seu entender, o liberalismo se encontrava destituído»276.
A relação próxima entre Frederico Laranjo e António Lino Neto deveu-se menos à partilha de ideias de economia política e de fé religiosa do que a afinidades biográficas: nasceram em terras próximas (Castelo de Vide e Mação), ambos passaram pelo seminário de Portalegre e pelo curso de Direito de Coimbra, ambos tiveram uma sociabilidade católica, embora vivessem o catolicismo de modo diferente. A militância católica de António Lino Neto aproximou-o de Frederico Laranjo, deputado e par do Reino de um regime político em que o catolicismo era a religião oficial do Estado e um pensador que reconhecia à Igreja Católica um papel social e ético.
2.3. Os primeiros passos de um publicista: contra a decadência portuguesa,