O. – É uma porta hospitalar avançada. Eu posso ter a minha porta avançada em três pontos. Com isso, eu vou trazer para aqui , aquilo que realmente é necessário de cuidados. E aqui eu teria uma central de regulação no sistema, que vai me referenciar, e uma central de regulação aqui na porta. Porque, aquela demanda que tem o pessoal, vamos dizer, cultural, de procurar a emergência, ela cai ser feita uma triagem aqui na porta: se for urgência, entra, se não for, vai para uma unidade não-hospitalar. Essas unidades trabalhariam, no meu projeto, com pessoas da própria unidade, que é um sistema só. Eu teria um laboratório central, que daria suporte às três unidades, de onde eu passo o resultado por e-mail e faço a coleta do material, esse material vem algumas vezes por dia, porque são situações de emergência limitada. Correto?
Então, essa proposta ficava na minha cabeça, associada com a discussão com a comunidade, associada a alguns projetos importantes. Quais deles? Primeiro, era o seguinte: uma preocupação que a gente tem com a remuneração do profissional. Então, a minha proposta era que, no momento em que eu criar um sistema, as pessoas que integram o sistema, passariam...
[INTERRUPÇÃO DE FITA]
O. – Bom, o problema salarial. Há uma... A gente sabe da dificuldade, mas a minha idéia era o seguinte. A partir do momento em que nós montamos um sistema e o profissional foi inserido no sistema, ele teria uma remuneração justa. Só que parte dessa remuneração seria vinculada a indicadores do controle social. O que é uma situação, vamos dizer assim, nova dentro da saúde. Porque a gente... Na realidade, eu penso assim: a gente quer controle externo de tudo, mas às vezes, quando chega para a gente, a gente não quer. E eu acho que a gente tem que mudar esse pensamento. Porque eu, por exemplo, não vou me intimidar com nenhum colega que fale assim: “Ah, você é diretor. Amanhã você está aqui...” Não tem problema nenhum. Eu vou trabalhar exatamente o que me determinarem, eu sou uma pessoa, assim, muito organizada. Agora, eu não concordo é com o seguinte: uma população, vamos dizer assim, carente que dá sua contribuição e, em um momento, vem um colega e fala assim – igual a gente vê sempre: “Eu já atendi dez, não vou atender mais ninguém.” Então, eu acho que esse indivíduo não pode ser premiado no sistema. Acho que, se ele está para cumprir uma carga horária, ele tem que atender dignamente a população, de uma maneira educada, ninguém está ali para ser maltratado... E ele tem que dar o melhor de si.
Então, acho que o sistema tem que ter um certo controle. Esse controle, eu colocaria como um controle social. Por que eu tenho evidência disso? O Conselho Distrital aqui, eu permito que eles tenham um agente, aqui dentro do hospital, de controle social, o que é uma coisa insipiente. E são pessoas simples, voluntárias. Olha, toda vez que eles vêm me trazer alguma queixa, eu já tenho certeza que é procedente,
C.A. – É uma ouvidoria da comunidade?
O. – É uma da ouvidoria comunidade. Eu estou até criando uma ouvidoria padrão aqui, dentro de todas as normas de ouvidoria. Porque eu acho que é um instrumento importantíssimo na direção de qualquer unidade; você tem que ouvir o outro lado, você não
pode ficar isolado aqui dentro. E não adianta... Muitas pessoas chegam para você para te falar o que é bom: “Pó, seu hospital está legal, está bonito, está isso e aquilo.” Mas eu quero ouvir é o lado do usuário. Então, tem que ter um sistema de ouvidoria. Eu acho que esse controle social funciona muito bem e ele tem que ser prestigiado, porque faz parte da lei do SUS e nunca foi, assim, ativado plenamente.
C.A. – Mas você pensa esse tipo de controle, por ouvidoria comunitária, para dar elementos para a avaliação do profissional, é isso?
O. – Eu acho que tem que ter. Você tem... A comunidade tem que saber o que é bom para ela, porque não adianta você ter aqui... Porque, várias vezes, vamos dizer assim, o pessoal vem trazer queixa de um profissional e eu sei que ele realmente trata mal o usuário. Então, eu acho que isso é importante. Lógico que você não vai... Você tem que avaliar o que chega, mas, em grande parte, é procedente. Então, eu penso que esse controle é fundamental: ele vai premiar quem merece e não premiar quem não merece. Eu acho que isso é importante. A comunidade, não que... Vai decidir: “Esse médico aqui, chega aqui, vai embora, faz isso...” Não pode. Está entendendo? Então, eu acho que o sistema tem que mudar com controle social.
C.A. – Como é que essa sua proposta é compreendida em nível da Secretaria?
O. – Ela ainda, vamos dizer assim, é incipiente. Nesse sentido, eu vou chegar até onde você quer... Até onde eu consegui caminhar.
C.A. – Sei.
O. – Bom, outra coisa, assim... Digo, isso aqui é uma novidade em sistema de administração, você ter um controle externo, que é um negócio que todo mundo tem um certo medo. Outro fato importante, para mim, é a criação do chamado Internato Social. O que seria esse Internato Social? É o seguinte: as escolas médicas, de enfermagem tem uma dificuldade de campo de estágio. Então, outra coisa que é fundamental é a gente não ter mão-de-obra especializada dentro do SUS. Por que eu não tenho? Eu não posso gostar de uma coisa que eu não conheço. Eu uso sempre uma frase do Alquimista Paracelso, que dizia o seguinte: “Só se ama o que se conhece. Quem nada conhece, nada ama. Aquele que pensa que todos os frutos amadurecem ao mesmo tempo, nada sabe a respeito das uvas.” Isso é uma verdade em medicina. Eu tenho, por exemplo, na minha época, que tinha o Projeto Rondon, eu tive colegas que se contaminaram com a idéia e hoje estão no Amazonas trabalhando. Quer dizer, como você vai pegar um médico que tem residência médica no Hospital J na zona sul e colocar ele para fazer projeto de saúde da família nessa região; ele não vai, nunca, entender aquilo. Tão logo o consultório dele comece a dar dinheiro, ele larga, mesmo que ele esteja ganhando bem no projeto. Mas ele não viveu aquilo. Aquilo não é... não faz parte do dia... Se eu pegar o aluno do quinto e sexto ano e colocar ele dentro da comunidade, é possível que ele desperte para um outro lado da vida e comece a ver aquilo de outra forma e encontre ali uma razão dele trabalhar e fazer o seu sustento, fazendo um projeto socialmente importante.
O. – Saúde da Família. Eu colocaria esse internato... Na minha proposta, ele começaria: Saúde da Família, Assistência Primária, Emergência Não-hospitalar e Emergência Hospitalar. Ele passaria pelos quatro níveis, ao final de dois anos. Essa proposta, o Ministério da Saúde está gostando dessa idéia. Porque, para chegar onde a gente está, hoje... O QualiSUS. O pessoal que está gerindo o QualiSUS, eu passei essa coisa e eles acham que isso é uma idéia...
[FINAL DA FITA 1-A]
O. – ...é muito bem aplicado, o PBL, que é aquele projeto de aprendizado baseado no problema. O aluno vai até a comunidade, começa a conviver com o problema e traz para a Academia, a ser discutido, aquele problema. Então, eu acho que o PBL é uma coisa que bate muito bem, dentro deste sistema.