Como abordado anteriormente, os computadores e a Internet tiveram um grande impacto na maneira com que os seres humanos se relacionam socialmente. Buscando formar redes sociais virtuais, os usuários transportaram costumes, ideias, informações de suas redes de convivência presencial para serem disponibilizadas virtualmente, como dito por Lévy (1999, p. 22) “é impossível separar o humano de seu ambiente material, assim como dos signos e das imagens por meio dos quais ele atribuiu sentido à vida e ao mundo”. Interessante salientar que, ao pensar nesse espaço virtual como suporte para relações pessoais, culturais e econômicas, o senso comum muitas vezes demonstra que esse local ganha um caráter distante e imaterial, podendo até se tornar imaginário na ideia de muitos usuários, mas que na realidade está presente na vida e nas relações de todos aqueles que estão conectados à rede mundial de computadores. Considerando esse contexto, surge uma questão importante: O que é virtual de fato é real? Lévy (1999, p. 48) diz que “o virtual existe sem estar presente”. Dessa forma, essa ideia se liga ao virtual de modo direto e indireto. De maneira direta, essa virtualização está conectada aos recursos de máquina: códigos de programas que são armazenados, compartilhados, modificados, disponibilizados para Download. Se trata de uma ferramenta existente e usual, porém, intocável, e mesmo ocupando um espaço físico em um disco rígido de um computador ou armazenado em um mainframe, não pode ser materializada. Essa ideia também é combinada ao recurso da Realidade Virtual.
Prosseguindo nessa ideia, a ligação indireta se refere não a informação propriamente dita presente nas linhas de código, mas ao que advém dela. Essa ligação parte de uma forma de comunicação interativa, sendo “a comunicação contínua, com o digital, um movimento de virtualização iniciado há muito tempo pelas técnicas antigas (…) ” (LÉVY, 1999, p. 49). Essa visão indireta impacta no cotidiano não apenas dos usuários, mas também das organizações que se apropriam das ferramentas da Internet para se manterem ativas. Essa virtualização vai além das práticas presenciais nos horários de trabalho, de forma que as organizações continuam suas operações em um espaço virtual. Essas empresas se tornam presentes nas propagandas de marcas vinculadas nas redes sociais virtuais e nos espaços de
socialização da Internet. Sendo assim, como dito por Lévy (1999, p. 49) “a extensão do ciberespaço acompanha e acelera uma virtualização geral da economia e da sociedade. ”.
Tendo por base que o espaço virtual é associado com o termo ciberespaço, que embora atualmente seja utilizado e discutido em pautas relacionadas com as tecnologias digitais, esta referência é antiga e foi desenvolvida para denominar um ambiente artificial que abriga usuários e suas relações e reações acerca dos dados que trafegam pelo meio virtual. O termo Ciberespaço fora cunhado em 1982 pelo escritor norte-americano William Gibson e publicado em 1984 com seu livro de ficção científica “Neuromancer”. Livro este que deu inspiração aos filmes de ficção científica Matrix e Ghost in the Shell (sendo exibido no Brasil como O Fantasma do Futuro). Segundo o próprio autor, a ideia de ciberespaço está numa alucinação vivenciada de modo consensual por bilhões de operadores de máquinas, na qual todos estão aprendendo os mesmos conceitos e informações que trafegam na rede, formando uma representação de dados dos computadores em forma humana (GIBSON, 2008, p. 25).
Atualmente, o termo ciberespaço passou a ser empregado de duas formas. Na primeira, busca a ideia de um suporte para circulação de dados entre computadores conectados na rede mundial de dados, já que segundo Lévy (1999, p. 93) “uma das principais funções do ciberespaço é o acesso à distância aos diversos recursos de um computador”. Vale a pena abordar que o ciberespaço desobriga que os usuários tenham um computador de ponta para realizar operações e serviços complexos, de modo que essas tarefas podem ser enviadas para computadores remotos que sejam capazes de realizar serviços específicos, enviando, posteriormente, apenas os resultados. Essa ideia ajudou a otimizar o desenvolvimento de muitos produtos de softwares, já que qualquer programador pode sempre contar com várias ferramentas específicas que não dispõe no seu local de trabalho. Esse desenvolvedor se apropria de serviços ofertados por quem possui a tecnologia adequada ou apenas procura por partes do código aberto nas redes online de colaboração de desenvolvimento. Dessa maneira, Lévy (1999, p. 111) reitera que o ciberespaço:
Trata-se de um universo indeterminado e que tende a manter sua indeterminação, pois cada nó da rede de redes em expansão constante pode tornar-se produtor ou emissor de novas informações, imprevisíveis, e reorganizar uma parte da conectividade global por sua conta própria.
Entende-se que para ter a comunicação entre os computadores, se torna necessária uma estrutura física que inclui o computador em si e seus periféricos, assim como a estrutura da Internet que inclui a necessidade da conexão com a operadora provedora e as redes
telemáticas, bem como todos os outros computadores conectados, especialmente aqueles que oferecem serviços específicos aos usuários finais. Como dito por Rodrigues (2010, p. 06):
Não obstante, não devemos resumir o ciberespaço à Internet, pois este abrange muito mais que a rede que liga os computadores de todo o mundo e que liga, agora, outros dispositivos móveis.
Dito isto, a partir desse ambiente físico é possível se conectar e utilizar aos vários serviços da Internet podendo vivenciar uma diferente maneira de relacionamento social. Sendo assim, a segunda forma de entender o termo ciberespaço pode ser visualizado na perspectiva da Realidade Virtual. Nessa ideia, essa virtualidade do espaço faz-se extensão, e simultaneamente simulação do mundo real, porém, ao mesmo tempo que esse espaço não é papável, não deixa de estar conectado ao mundo físico, reproduzindo costumes e relações na qual o ser humano vivencia. Assim, como dito por Lemos (2004, p. 32):
O ciberespaço é uma dimensão da sociedade em rede, onde os fluxos definem novas formas de relações sociais. […] Ao mergulhar no ambiente do ciberespaço, o usuário experimenta uma sensação de “abolição do espaço” e circula em um território transnacional, desterritorializado […].
Quando o termo começou a ser utilizado nas discussões a respeito da relação entre o homem e a máquina e seus impactos, passou a ser relacionado com o termo rede, referindo-se as redes de comunicação que compõe a Internet. Lévy (1999 LÉVY, p. 17) diz:
O ciberespaço […] é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo especifica não apenas a infra-estrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo.
Partindo então dessas definições, o ciberespaço se torna esse meio de comunicação através da interconexão das redes de computadores, na qual a Internet atua como provedor de comunicação. Todavia, o autor deixa a entender que a Internet é tanto o meio de comunicação como parte física e lógica dessas tecnologias, salientando ainda que:
As grandes tecnologias digitais surgiram, então, como a infraestrutura do ciberespaço, novo espaço de comunicação, de sociabilidade, de organização e de transação, mas também novo mercado de informação e do conhecimento. (LÉVY, 1999, p. 32).
Concluindo essa visão, Santos (2003, p. 22) utiliza uma definição breve para o termo, dizendo que ciberespaço se trata de “um espaço de construção de sentidos”.