Tomamos de Horkheimer e Adorno (1986) a ideia de uma educação para a adaptação ao discutir a formação cultural em nossa sociedade, que é permeada e, até mesmo, determinada pela Indústria Cultural, que, por sua vez, se encarrega de levar para o âmbito da cultura toda a racionalidade e estrutura do trabalho, e, o tempo livre que permitiria que o indivíduo tivesse acesso a processos formativos, se transforma em uma extensão do trabalho. “(...) a Indústria Cultural se propõe a ocupar os sentidos dos homens da saída da fábrica à noitinha, até a chegada ao relógio d ponto na manhã seguinte” (HORKHEIMER e ADORNO, 1986, p. 123).
A cultura tende a se converter em mercadoria e, com isso, a ser adquirida como valor de troca, com seu uso atrelado à adaptação, ao que é exigido pela autoconservação. Desta forma, o que ocorre no cotidiano escolar não pode ser pensado isoladamente, sem referência ao que está ocorrendo na sociedade e na cultura e, numa sociedade estruturada pela racionalidade tecnológica e em uma cultura determinada pela Indústria Cultural, não é
necessária a formação intelectual e cultural, mas aquela que dê conta da racionalidade técnica, que é um pensamento que relaciona meios e fins, sem pensar nestes últimos. Assim, os indivíduos se formam para aumentar seu valor no mercado, por exemplo, e não para se diferenciarem, para compreenderem a sociedade e auxiliar em sua modificação, com o objetivo de torná-la mais justa e propiciadora da felicidade e da liberdade individuais. Segundo Adorno (1986):
No clima da semiformação, os conteúdos objetivo, coisificados e com caráter de mercadoria da formação cultural, perduram à custa de seu conteúdo de verdade e de suas relações vivas com o sujeito vivo, o qual, de certo modo, corresponde à sua definição. (...) A Indústria cultural, em sua dimensão mais ampla, perpetua essa situação, explorando-a, e se assumindo como cultura em consonância com a integração, o que, se for mesmo uma, não será outra. Seu espírito é a semicultura, a identificação (ADORNO, 1986, p. 5).
É sob a perspectiva da semiformação e, consequentemente, da adaptação e da identificação, que verificamos nos resumos o papel da escola para a adaptação. Para ilustrar essa análise, apontaremos para alguns dos sete trabalhos selecionados e, os segmentos de seus resumos, em que essa tarefa da escola se explicita mais expressivamente.
i. Cotrim (2002, PUC – GO): a pesquisa concluiu que não há resistência por parte do professor em relação à inserção da informática na escola, pelo contrário, ele demonstra entender a necessidade de a escola preparar seu aluno para se inserir na Sociedade da Informação.
ii. Teixeira (2001, UPF): Este estudo teve como objetivo analisar a importância da democratização do conhecimento na Sociedade da Informação e as potencialidades educacionais das tecnologias da informação como elemento fundamental neste processo.
iii. Almeida (2006, UNIJUÍ): na atual configuração da sociedade, a escola precisa derrubar seus muros e tabus com relação aos meios de comunicação e às tecnologias de informação/comunicação e acolhê-los em sala de aula.
iv. Teixeira (2007, CEFET – MG): Vive-se a época do surgimento de uma sociedade informacional apoiada nas tecnologias da informação e comunicação. Tais tecnologias apresentam grande flexibilidade e vêm impactando definitivamente o processo de conhecimento humano. Nesse contexto, a educação deve se beneficiar dessas tecnologias.
v. Loureiro (2002, USP): A necessidade de uma reconfiguração do papel do professor, do aluno, da sala de aula e das TICs constitui o principal parâmetro cibernético de governabilidade da educação na Era Digital. A escola é o novo ambiente de aprendizagem que se apresenta aos educadores com as novas características do atual estágio da Sociedade da Informação.
vi. Oliveira (2001, UFPR): Justificamos a necessidade deste estudo, para responder às constantes transformações e mudanças sociais introduzidas pela evolução tecnológica, tendo em vista a necessidade de a escola integra-se e interagir em seu meio apoiando-se em novas tecnologias.
vii. Oliveira (2003, UNISO): Espera-se que no movimento das transformações tecnológicas do momento atual, a educação tenha incorporado que no século XXI não serão mais aceitas pela sociedade atitudes que não se encaixem à era cibernética. Ousar e atrever faz parte da renovação dessa era. Essas farão dos alunos, profissionais mais qualificados.
viii. Passero (2003, UNOESTE): Nos últimos anos a sociedade vem presenciando e experimentando a rápida e irreversível evolução tecnológica em todos os campos, particularmente no campo da comunicações e da computação. Destaca-se a importância dos meios computacionais na formação escolar do indivíduo a fim de prepará-lo para a inclusão no mercado de trabalho cada vez mais exigente e competitivo, onde aqueles que detém o conhecimentos tecnológicos destacam-se dentre os demais.
Como dissemos, detectamos neste grupo de trabalhos duas justificativas de adaptação da escola às TICs: a da Sociedade da Informação e o preparo para o mercado de trabalho que também é determinado e estruturado pelas TICs.
De acordo com a fundamentação que realizamos no Capítulo I sobre a configuração da sociedade atual, não há uma nova sociedade constituída pela tecnologia da informação e comunicação, o que temos é uma “repaginação” da mesma estrutura social de classes, regida pela ideologia da racionalidade tecnológica e pela supremacia da técnica.
Adorno (2010) no texto Educação - para quê? Caracterizava a educação/formação como a produção de uma consciência verdadeira e que, para isso, há dois momentos que se tencionavam entre si, a autonomia e a adaptação. Contudo, o autor também apontou que nas sociedades capitalistas de grande avanço tecnológico, em que a técnica carrega para diferentes âmbitos da vida a estrutura reprodutiva da força de trabalho, a realidade se torna tão poderosa ao impor-se sobre o indivíduo, desde a infância, que o processo de adaptação se realiza então de um modo quase que automático.
É neste contexto de adaptação desmedidamente forçada por todo o contexto em que os homens vivem, em que eles precisam impor a adaptação a si mesmos de um modo dorido (p.143), que a educação, seja familiar ou escolar, tem a tarefa de fazer a crítica a esse realismo supervalorizado.
Desta forma, ao observarmos os trabalhos acima citados, o que se propõe para a escola através do uso e da inserção das TICs é mais adaptação, é eliminar da educação a possibilidade da autonomia e limitá-la apenas ao processo adaptativo.