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A síntese sobre a qual Huizinga medita não é uma “lei” a priori; é um evento que se deu no mundo e que foi percebido na consciência do historiador como

representativo de uma ordem na História. Mas esta ordem (ordo) nunca será um sentido (eidos)29, pela simples razão que este último é visto como um norte que puxa

26 Johan Huizinga (1872-1945), historiador dinamarquês, especializado em estudar o período inicial da

modernidade, com livros como O Declínio da Idade Média (1919) e Homo Ludens (1938).

27 HUIZINGA, Johan. El Concepto de la Historia. Fondo de Cultura Economica, 2002, pág.18. 28 Idem, pág. 19.

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Há uma diferença essencial em relação aos conceitos de ordem (ordo em latim, kosmos em grego) e de sentido (eidos em grego) na História nesta dissertação. Quando nos referirmos à ordem, partiremos da famosa declaração de Voegelin na abertura de seu Order and History (Lousiana University Press, 1957-1985): The order of history emerges from the history of order (“A ordem da história emerge da história da ordem”, pág. i). Segundo o próprio Voegelin em suas Reflexões Autobiográficas (É Realizações, 2008, págs. 116-117):

para si as diferentes configurações da História em uma única e imaginária linha, enquanto a ordem é o resultado de um ponto que explode e dá origem a fios emaranhados que precisam ser desenlaçados no decorrer do tempo. O sentido está em um futuro a que todos querem chegar, mas ninguém sabe se será possível; a ordem é o passado que se reflete no presente e provoca na alma do homem um movimento de abertura a um futuro que ninguém sabe como será. Quando ele tem a intuição dessa ordem, preparam-se, no tecido da História, os spiritual outbursts, os arroubos espirituais, que explicaremos em breve. O que deve ficar claro aqui é o fato de que a História é a forma espiritual em que uma cultura se rende e presta contas

ao seu passado, uma forma “que se distingue de outras formas do espírito pois projeta-se sobre o passado e somente sobre o passado”30. A tentativa do investigador, ao perceber que talvez não exista um sentido da História ou um sentido na História, pode levá-lo a um impasse epistemológico, referido por Eric Voegelin em três observações simples e que incomodam qualquer cientista preocupado seriamente com seu estudo:

“1. A História, o que parece, não existe – todas as ações do homem que supostamente tecem a fábrica da história podem ser entendidas em termos sociológicos ou psicológicos.

2. Há um drama da História – mas ele é incompleto e seu significado é, portanto, desconhecido.

3. Existem fatos da História que podem ser esclarecidos quanto aos aspectos fenomenológicos – mas a seleção e interpretação são subjetivas e, portanto, refletem apenas os juízos de valor do historiador”31.

“Por ordem entendo a estrutura da realidade tal como experimentada, bem como o ajuste entre o homem e uma ordem não fabricada por ele, isto é, a ordem cósmica”. Ordem também deve ser entendida como a experiência de uma hierarquia, mais especificamente a hierarquia do ser, que permite ao homem que a vê numa observação desapaixonada (freqüentemente confundida com contemplação) do próprio mundo. Já o sentido (eidos) se refere mais a uma essência definida e acabada, pronta, para uma sistematização da História e, por conseqüência, uma petrificação do questionamento da existência humana. Sua reação imediata é uma projeção que impulsiona uma ação que, por sua vez, pretende reformular o eidos da própria História e a própria estrutura do mundo. É de se observar que, quando for o caso, diferenciaremos o sentido de eidos da História do sentido de logos da existência humana, de acordo com os conceitos de Viktor Frankl.

30 HUIZINGA, Johan. El Concepto de la Historia. Fondo de Cultura Economica, 2002, pág. 92.

31 VOEGELIN, Eric. “What´s History”, in: What´s History and other late unpublished writings, Lousiana

A tríade acima resume perfeitamente as aporias de qualquer investigador honesto e que tenha experimentado um evento que lhe dá a intuição da ordem na História. Não é um mero exercício intelectual, uma brincadeira lúdica próxima da literatura. O que está em risco é a própria existência histórica do ser humano:

“O esforço espiritual que serve de base à forma da História tende a compreender o sentido do que aconteceu anteriormente. O espírito põe- se em tensão, possuído pela idéia do passado. O brio e o valor deste impulso espiritual e de seu produto, a História, residem na perfeita seriedade que o caracteriza. O homem sente necessidade absoluta de

chegar ao conhecimento autêntico do que verdadeiramente aconteceu, ainda que tenha consciência da pobreza dos meios de que dispõe32. A nítida divisão entre a História e a literatura reside que a primeira está fora do elemento lúdico envolvido que serve de base à literatura desde o primeiro momento e que será a sua base até o fim”33.

A existência histórica é a busca oculta do investigador honesto que, ao aceitar a tensão do seu esforço espiritual, admite que, para chegar ao conhecimento autêntico das coisas do passado, é necessário ter os olhos treinados para ver o invisível – ou, pelo menos, o que as “leis” não permitem ver. E como a sua própria investigação é um exemplo de evento que representa uma pequena parte da ordem na História, o investigador não faz isso somente pelos seus pares: faz isso também pelo conjunto do todo que ora chamamos de humanidade. Assim, a tentativa de encontrar o sentido da História só terminará nas aporias descritas por Voegelin se o investigador não admitir que existe algo além do “curso histórico” ou das “causas”; ele deve intuir aquela síntese espiritual segundo a qual a História acontece com os homens e que eles somente percebem isso quando estão envolvidos em uma sociedade; seu objeto de estudo da História não é a própria História, mas sim a humanidade concreta, representada por homens únicos e peculiares – e que esta somente tem consciência da condição histórica porque seus representantes sofreram um fato que teve sérias conseqüências tanto na sua existência como ser humano e

32 Grifo nosso. 33

como sociedade. E como toda teoria da História, desde que penetre no terreno dos princípios, é também uma teoria política, temos de analisar este fato em suas origens e em suas ramificações34.