KAPITTEL 6 TOLKNING OG TROVERDIGHET 87
6.4 Forskerrollen
Em 1916, Freud escreveu o artigo Criminosos em Consequência de um Sentimento de Culpa. Nesse texto, ele, a partir dos inúmeros comentários feitos por seus pacientes em análise, os quais declaravam que haviam cometido os mais diversos delitos (como furtos, fraudes e incêndios), assevera que tais ações eram praticadas justamente pelo fato de serem proibidas e que essas ações geravam no autor do delito uma sensação de alívio. O que acometia esses sujeitos antes de terem praticado o ato delituoso era um opressivo sentimento de culpa. Logo, Freud propôs uma inversão daquilo que ainda é o senso comum em nossa sociedade: o sentimento de culpa é aquilo que dá origem ao delito e não o contrário. A partir desse entendimento, Freud atribui o sentimento de culpa pré-existente aos desejos inconscientes ligados ao parricídio e ao incesto que, quando ligados a um fato
concreto, como o delito cometido posteriormente, proporcionava a referida sensação de alívio.
Porém, ainda no mesmo artigo, Freud faz uma diferenciação importante para a finalidade desta pesquisa: que esse entendimento do crime não abrange os criminosos que realizam crimes sem vivenciarem qualquer sentimento de culpa. Exclui também aqueles que não desenvolveram um senso de moralidade que os leva a vivenciar inibições perante seus desejos, assim como aqueles criminosos que sempre entendem suas ações como justificadas devido ao conflito que apresentam na sociedade.
Essas premissas apresentadas por Freud nos arremessam, então, ao entendimento de que existem aqueles criminosos que sentem uma culpa prévia ao crime e que realizam o ato criminoso para se aliviarem desse sentimento, que tem suas origens no complexo de Édipo. E existem também aqueles criminosos que praticam crimes, mas que não sentem culpa nem antes, nem depois da realização dos atos criminosos.
Essa impossibilidade para identificar as origens do sentimento de culpa é oriunda dos mecanismos de defesa do ego, que agem mais fortemente quanto mais primitiva for sua tendência existente no indivíduo. Logo, é pela ação do superego – que para Freud é formado por volta dos cinco anos de idade –, responsável pela censura em relação àquilo que pode ou não permanecer na consciência, é que os desejos ligados ao complexo de Édipo são afastados da percepção do indivíduo.
Porém, Melanie Klein (1927) assevera que é possível identificar a ação do superego em crianças de dois anos de idade. Esse entendimento parte da observação de que, nessa idade, a criança já vivenciou as fantasias ligadas à fase oral, caracterizadas predominantemente por tendências canibalescas. Além disso,
Melanie Klein entende que os anseios das crianças no primeiro ano de vida são em grande medida ligados ao ímpeto para o domínio e posse em relação ao objeto, aspectos esses envoltos de sadismo anal.
De modo semelhante a Freud, Klein entende que o desenvolvimento de valores morais está diretamente relacionado ao complexo de Édipo, e é pelo modo como o indivíduo lida com as fantasias ligadas a esse complexo que determinará o seu caráter. Esse espectro varia desde manifestações neuróticas brandas até o desrespeito completo às leis socialmente instituídas.
Para Klein, as tendências sádico-orais e sádico-anais existentes ligam-se às tendências edipianas, que ela reconhece iniciarem no final do primeiro ano de vida. Essas tendências sádicas, por sua vez, ligam-se aos pais, objetos junto aos quais se desenvolve o complexo de Édipo. O menino odeia seu pai (ódio esse permeado pelas fantasias sádicas mencionadas anteriormente) e deseja matá-lo por reconhecê-lo como um adversário em relação ao amor que sente pela sua mãe. A menina rivaliza com sua mãe e anseia tomar seu lugar no amor do pai. Assim como o menino, ela lança mão das fantasias sádicas características nessa época do desenvolvimento, que se mostram por meio do intuito de roubar-lhe a beleza, mutilar e se apropriar de seu corpo e rosto.
Essas fantasias geram um poderoso sentimento de culpa que acentua a fixação da menina em sua mãe. Como forma de defesa contra a ansiedade gerada por essas fantasias destrutivas, a menina lança mão de suas tendências homossexuais, que reforçam mais ainda a fixação dela em sua mãe. Diante da impossibilidade para manter essa situação, a menina acaba se distanciando tanto da mãe quanto do pai, movimento que Melanie Klein identifica como a base para o surgimento da personalidade antissocial. O fato de que os objetos odiados são os
mesmos que a criança ama faz com que o ego frágil da criança fique extremamente sobrecarregado e, para amenizar um pouco o conflito, reprime as tendências destrutivas.
O fato de existirem sentimentos negativos não apenas em relação ao genitor do mesmo sexo, mas também contra o genitor do sexo oposto devido às frustrações que esse lhe impinge, complica ainda mais a situação em que a criança se encontra, pois isso a leva, também, a transformar seu amor em repulsa, fato que desencadeia no afastamento do seu pai. Esse movimento é permeado pela formulação de diversas teorias sexuais, tais como aquelas em que a criança fantasia castrar o pai, muito característica na relação homossexual.
Lembremos que essas fantasias permeiam a vida mental de todas as crianças, mesmo aquelas que apresentam elevado nível de saúde mental. Justamente por isso é que Melanie Klein entende que nenhum tipo de atitude moral deve ser explicitada pelo analista, pois disso depende sua capacidade para auxiliar a criança a lidar com essas tendências antissociais e favorecer a redução de seu sofrimento. Quando isso ocorre, é possível depararmos com atitudes altamente amorosas da criança, além de observarmos que, quando essas tendências destrutivas resolvidas pela dissolução das fixações são iniciadas, então surgem movimentos reparatórios impulsionados pela ação sublimatória.
O superego existente nas crianças não é idêntico ao dos adultos saudáveis, diz Klein (1927). Nas crianças, ele comporta também fantasias sádicas, o que as leva a mobilizar mecanismos defensivos para atenuar o conflito, porém sem resolvê- lo. Isso ocasiona a existência de um círculo fechado no qual nem a ab-reação nem a sublimação ocorrem. Essa destrutividade é suprimida da consciência juntamente
com o sentimento de culpa que as gera. Logo, o que fica no lugar desses sentimentos e fantasias é o anseio por punição.
A magnitude dessas fixações e a época da vida em que elas ocorreram se unem às experiências de vida, ao superego, e aos recursos disponíveis na criança para lidar com a ansiedade. Isso tudo determina, então, o nível de saúde ou de doença que esta criança apresentará. Em acréscimo, a utilização da fuga da realidade permeará as peculiaridades de cada indivíduo. Caso ela, a criança, diante das decepções e ressentimentos oriundos de sua experiência, ao invés de tentar contrapor suas fantasias à realidade, tentar adaptar a realidade às suas fantasias, mostrar-se-á, logo, um distanciamento da realidade por meio da predominância de uma vida de fantasia.
Esse refúgio na vida de fantasia oferece uma espécie de consolo pelas frustrações que a realidade lhe impõe, o que dá a impressão não apenas àqueles que a observam, mas também a ela mesma que as coisas estão muito bem. Esse ‘bloqueio’ impede que as fantasias venham à tona e possam ser elaboradas e sublimadas por meio das mais variadas atividades.
Klein (1927; p. 212-3) a esse respeito afirma que
(...) a tendência criminosa não se devia a um superego menos rigoroso, mas a um superego que trabalhava em outra direção. É justamente a ansiedade e o sentimento de culpa que empurram o criminoso para a delinquência. Ao cometer seus crimes, ele também tenta fugir da situação edipiana.
Assim, quanto mais as crianças temem as retaliações que seus pais supostamente realizarão pelos ataques fantasiados que ela realizou, mais a criança tende a apresentar tendências criminosas. Logo, não é a ausência ou fraqueza do superego que impulsiona o indivíduo ao crime, mas a severidade esmagadora de seu superego sádico.
Em outro artigo que versa sobre o mesmo tema, Klein (1934) afirma que a projeção do sadismo da criança nos objetos ao redor a leva desenvolver uma imagem deturpada das pessoas com as quais se relaciona. Na medida em que os processos introjetivos estão constantemente em operação, essas imagens mentais terríficas são internalizadas dando origem, assim, ao seu superego, que a domina e amedronta.
Na medida em que a confiança é, aos poucos, estabelecida nos objetos, a criança vai desenvolvendo, de modo progressivo, recursos para restaurar os objetos anteriormente destruídos em fantasia, o que ocorre concomitantemente à atenuação do sadismo superegóico.
Caso não ocorra o favorecimento de tal situação – tanto por motivos ligados à realidade externa, quanto por fatores relacionados ao mundo interno – o que pode prevalecer é o ímpeto para destruir concretamente as pessoas ao redor, o que constitui a base para a criminalidade, ou para a psicose. Logo, para Klein, existe uma proximidade significativa entre a criminalidade e a psicose, pois ambos os quadros psicopatológicos são oriundos do mesmo processo.
A respeito desse ponto, Klein (op. cit.; p. 299) afirma que
(...) as mesmas raízes psicológicas podem se desenvolver em direção à paranóia ou à criminalidade. Certos fatores do segundo caso levarão a uma maior tendência no criminoso para suprimir as fantasias inconscientes e concretizá-las na realidade. Fantasias persecutórias são comuns nos dois casos; é porque se sente perseguido que o criminoso procura destruir os outros. É obvio que quando a criança – não só na fantasia, mas também na realidade – sofre certo grau de perseguição por parte de pais cruéis e de um ambiente miserável, as fantasias são muito reforçadas.
A partir dessa compreensão do fenômeno da criminalidade, Klein afirma que por meio da análise, na medida em que conseguimos acessar os níveis mais profundos da mente, lá encontramos não apenas o ódio, a ansiedade e a
destrutividade tão nitidamente identificados nos criminosos, mas também podemos encontrar o amor. Assim, Klein assevera que o amor existe nos criminosos, porém escondido de forma que apenas a análise pode acessá-lo. De modo semelhante ao bebê, que odeia seu objeto de amor mesmo sem saber que ambos são a mesma pessoa, o criminoso odeia seu próprio objeto amoroso, situação que se mostra intolerável e o leva a suprimir toda e qualquer lembrança de amor. Consequentemente, o mundo é visto e sentido como povoado apenas por pessoas exclusivamente más, o que, em alguma medida, justifica seus comportamentos delinquenciais para si mesmo e alivia seu sentimento de culpa.
3.6 Prisões, abrigos e refúgios: considerações sobre o narcisismo