Segundo Dagnino et al (2004, p. 17) Tecnologia Social (TS) é uma evolução do conceito que surgiu na década de 70, na Índia, conhecido por Tecnologia Apropriada ou Tecnologia Alternativa14 (TA) e se aproxima daquilo que posteriormente foi denominado inovação social15. Barros (2007) ratifica que a maior conexão entre universidades e institutos de pesquisa com as demandas reais das comunidades, somada à necessidade de uma visão mais inclusiva e emancipatória sobre os problemas que afetavam a população, contribuiu para o desenvolvimento do conceito que agregou como componentes a participação e a relevância do conhecimento construído com o envolvimento da população.
A evolução do conceito de TS, a partir daqueles acima referendados, é apresentada na FIG. 2. Foi elaborada pela Rede de Tecnologia Social e elenca, dentre outros, os seguintes elementos: movimento de crítica à TA, economia da inovação, sociologia, análise política associando cada elemento aos estudiosos que os referenciam e os conceitos que pautam.
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Segundo Brandão, 2001, p. 13 existem várias formas de expressão relacionadas ao conceito de Tecnologias Alternativas, dentre elas: "tecnologia alternativa, tecnologia utópica, tecnologia intermediária, tecnologia adequada, tecnologia socialmente apropriada, tecnologia ambientalmente apropriada, tecnologia adaptada ao meio ambiente, tecnologia correta [...] tecnologia do povo, tecnologia orientada para o povo, tecnologia orientada para a sociedade, tecnologia democrática, tecnologia comunitária, tecnologia de vila, [...] tecnologia de baixo custo, tecnologia da escassez, tecnologia adaptativa, tecnologia de sobrevivência e tecnologia poupadora de capital. Essas concepções, de alguma forma, tentam, na sua origem, diferenciar-se daquelas tecnologias consideradas de uso intensivo de capital e poupadoras de mão-de-obra, objetando-se ao processo de transferência maciço de tecnologia de grande escala, característico dos países desenvolvidos, para os países em desenvolvimento, que podem criar mais problemas do que resolvê-los." Citado em Tecnologia Social, uma Estratégia para o Desenvolvimento, Fundação Banco do Brasil, 2004, página 22.
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Inovação Social é um conceito utilizado por Dagnino e Gomes (2000) referenciando-se ao "conhecimento – intangível ou incorporado a pessoas ou equipamentos, tácito ou codificado – que tem por objetivo o aumento da efetividade dos processos, serviços e produtos relacionados à satisfação das necessidades sociais. [...] Refere-se a um distinto código de valores, estilo de desenvolvimento, 'projeto nacional' e objetivos de tipo político, social, econômico e ambiental".
Tecnologia social é entendida como o "conjunto de técnicas, metodologias transformadoras, desenvolvidas e/ou aplicadas na interação com a população e apropriadas por elas, que representam soluções para a inclusão social e melhoria das condições de vida" (FUNDAÇÃO BANCO DO BRASIL, 2004, p.130).
Nas palavras de Luiz Gushiken, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação no período de 2002 a 2005:
[...] falar em tecnologias sociais é abordar processos que, ao mesmo tempo, inserem-se na mais moderna agenda do conhecimento e na mais antiga das intenções – a superação da pobreza. É falar do resultado concreto e inovador do trabalho de pessoas que resolveram problemas inspiradas pela sabedoria popular e com o auxílio de pesquisadores. É também falar de produtos de organizações da economia solidária que se inserem num circuito econômico cada vez mais significativo. (FUNDAÇÃO BANCO DO BRASIL, 2004, p. 13).
FIGURA 2 - Contribuições ao marco analítico-conceitual de Tecnologia Social Fonte: DAGNINO et al, 2004, p. 18.
O conceito é ampliado por Caccia Bava (2004), que destaca serem as tecnologias sociais.
Métodos e técnicas que permitem impulsionar processos de empoderamento das representações coletivas da cidadania para habilitá-las a disputar, nos espaços públicos, as alternativas de desenvolvimento que se originem das experiências inovadoras e que se orientem pela defesa dos interesses das maiorias e pela distribuição de renda. (CACCIA BAVA, 2004, p. 116).
Complementando o debate, os autores Dagnino, Brandão e Novaes (2004), relacionam o conceito ao espaço territorial no qual a TS se desenvolve, incorporando, nesse aspecto, o respeito às peculiaridades culturais, sociais e econômicas de cada localidade ou região: "A tecnologia social não pode ser pensada como algo que é feito num lugar e utilizado em outro, mas como um processo desenvolvido no lugar onde essa tecnologia vai ser utilizada, pelos atores que vão utilizá-la." (DAGNINO et al, 2004, p. 57).
A FIG. 3 apresenta uma estrutura de análise a partir de quatro visões sobre tecnologia social. Dividida em quatro quadrantes, o eixo vertical (da neutralidade) abarca no ponto superior a percepção de que a tecnologia social é neutra, livre da influência de valores econômicos, políticos, sociais ou morais e se contrapõe ao ponto inferior, no qual essa perspectiva é condicionada por valores. No eixo horizontal (do determinismo), o eixo esquerdo apresenta a percepção de que a tecnologia social é autônoma, enquanto o eixo direito a considera controlada pelo homem.
AUTÔNOMA
NEUTRA
CONTROLADA PELO HOMEM
CONDICIONADA POR VALORES Determinismo
Teoria da modernização: visão marxista tradicional: força motriz da história; conhecimento do mundo natural serve ao homem adaptando à natureza
Substantivismo
Meios e fins determinados pelo sistema; não é meramente instrumental, incorpora um valor substantivo, e não pode ser usada para propósitos diferentes, de indivíduos ou sociedades
Teoria Crítica
Opção por meios-fins alternativos; reconhece o substantivismo, mas vê graus de liberdade; o desafio é criar instituições apropriadas de controle
Instrumentalismo
Fé liberal no progresso; visão moderna padrão: ferramenta por meio da qual satisfazemos necessidades
FIGURA 3 – Quatro visões sobre a tecnologia Fonte: Dagnino et al., 2004, p. 48.
A combinação dos eixos, agrupados par a par, fundamentam as visões explicadas na FIG. 3: instrumentalismo, determinismo, substantivismo e teoria crítica.
A tecnologia social aplicada no desenvolvimento local e condicionada pela união de distintas organizações aproxima-se da interpretação dada pela teoria crítica, condicionada por valores e controlada pelo homem, na busca de fins alternativos para a solução dos problemas encontrados em cada comunidade. Reconhece-se o substantivismo de cada uma delas, o que possibilita que estas criem suas próprias instituições para o desenvolvimento e controle dos projetos, com plena liberdade para construção das soluções aos problemas apresentados.
Uma forma de tecnologia social que pode ser desenvolvida e estimulada é a articulação e coordenação interorganizacional, a junção de atores que atuam em áreas diferentes para a transformação de uma dada realidade. Essas iniciativas, uma vez estruturadas a partir das necessidades e demandas específicas de um determinado território eleito pelo grupo, podem ser sistematizadas em um modelo que determine uma nova arquitetura de ação social, tornando-se referências importantes para grupos que desejem implementar iniciativas semelhantes em prol da transformação das condições de seu entorno.
A abordagem do tema Tecnologia Social se fez necessária nesse referencial teórico por ser uma terminologia utilizada freqüentemente pelo grupo de organizações estudado. O Programa Arassussa é citado como sendo uma "Plataforma de Convergência de Tecnologias Sociais" em alguns documentos de trabalho e planejamento e na etapa de pesquisa de campo; observou-se a menção dessa terminologia nas reuniões de planejamento do projeto, em conversas informais com os integrantes do grupo e em algumas das entrevistas realizadas.
Em continuidade, a próxima seção será dedicada a listar os conceitos que tratam da análise de ações sociais e os impactos por elas logrados.