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Fjøsangerbekken

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3 Resultater og Diskusjon

3.2 Hver enkelt bekk

3.2.10 Fjøsangerbekken

Desde a década de 1930, no sentido de integrar espaços vazios e criar um mercado comum, o Estado elaborou uma série de estratégias com o objetivo de consolidar um projeto político sob o discurso desenvolvimentista nacional. Dentre eles ressaltamos, nos anos de 1940, a construção de Goiânia – a nova capital do Estado de Goiás, e a construção de Brasília e de algumas rodovias, entre elas uma de importância fundamental na formação territorial do Estado do Tocantins, a Belém-Brasília (BR-153).

De acordo com Souza (2004, p.370):

A abertura da rodovia Belém-Brasília modificou quase que completamente a estrutura socioeconômica predominante no norte goiano (atual Tocantins). Antes da sua construção, a região era quase desabitada, em parte devido à infraestrutura desse Estado, cuja principal via de comunicação era o rio Tocantins.

O projeto de desenvolvimento, articulado no governo de Juscelino Kubitscheck, tinha a pretensão de construir a capital do país em pleno cerrado brasileiro, o que fez surgir à necessidade da construção de rodovias que a ligassem a diversos pontos do território brasileiro. Tal projeto tinha a aspiração de reordenar o espaço nacional de forma a induzir uma integração das regiões Norte e Centro-Oeste, cuja economia, até

então, tinha pouca influência no mercado nacional. Essas intenções são características de um Estado que pretendia descentralizar as atividades econômicas do país e ao mesmo tempo torná-lo integrado para melhor competir e entrar no mercado externo.

Vale destacar, contudo, que apesar de ser uma obra do Governo de Juscelino Kubitschek (1956 -1961), a qual compunha o projeto de ocupação do interior do Brasil com a construção da capital federal Brasília, no planalto central brasileiro, a construção da rodovia BR-153 surgira anteriormente, em programas que estavam em curso desde o Estado Novo (AQUINO, 1996), momento em que a “Marcha para o Oeste” se apresentava como uma estratégia de ocupação dos “vazios demográficos” existentes no interior do país.

As regiões localizadas à margem da construção da Rodovia Belém-Brasília, passaram por profundas mudanças em sua estrutura interna: integração com o Brasil, criação de cidades, mudança na economia e na produção agrícola e pecuarista. A Belém- -Brasília constituiu dessa forma uma grande via de comunicação entre o então Norte Goiano e o restante do país.

Foi a partir da construção da Belém-Brasília que se iniciou um processo de ocupação acelerada na região Tocantina, sendo criadas várias cidades no seu entorno. Conforme afirmam Barbosa et al., (2005), a criação dessa rodovia foi fundamental para a nova configuração socioterritorial que se originou na região Tocantina:

No Tocantins, a BR-153 é mais que a espinha dorsal que dá sustentação e viabilidade econômica e social ao território, porque ela é a causa direta do seu desenvolvimento e crescimento urbano e até mesmo da criação do estado. Podemos afirmar sem nenhum constrangimento que o Estado do Tocantins é filho da Belém-Brasília. Sem ela, o estado não passaria hoje, de um imenso território mesopotâmico, situado em sua maior parte entre os rios Araguaia e Tocantins, isolado do Sul do país e sem saída para o Norte, a não ser por água, como antigamente. O Estado do Tocantins é uma dádiva da grande rodovia, porque praticamente não há cidade que não tinha nascido no seu ventre. (BARBOSA, et al, 2005, p.79).

A afirmação dos autores demonstra a importância do papel da rodovia na reestruturação interna da Região Norte de Goiás (atual Tocantins), modificando o seu espaço e sendo determinante na criação de várias cidades em seu entorno. No bojo dessa reestruturação, é importante salientar que, ainda que de forma tímida, foram sendo processadas mudanças na base da atividade econômica, até então, essencialmente de

subsistência, para uma atividade produtiva com maior integração com outras regiões. A rodovia Belém-Brasília, tornou-se, dessa forma, um marco na formação do território norte de Goiás, constituindo um eixo de penetração e de envergadura incontestável no povoamento e urbanização da região, caracterizada pelo isolamento que delineava um território estagnado e sem qualquer perspectiva de investimentos.

Todavia, apesar de impulsionar o desenvolvimento e o processo de urbanização ao longo de seu eixo, a implantação da rodovia foi também emblemática no seu efeito perverso, provocando a especulação e grilagem das terras, pela perspectiva de valorização àquela época (AQUINO, 1996).

Foi nesse contexto que, na década de 1970, na região do Bico do Papagaio, no extremo norte do então Estado de Goiás, eclodiu uma série de conflitos de luta pela terra. De um lado encontravam-se os trabalhadores rurais da região noroeste do país que chegaram a partir da década de 1950 em busca de terras devolutas, e de outro os fazendeiros e investidores da região centro sul do país, motivados pelos incentivos fiscais oferecidos pelo governo federal como forma de promover a ocupação da Amazônia. Durante esse período, a grilagem, a expropriação violenta das famílias, as perseguições e assassinatos dos posseiros foram práticas correntes.

A região ficou conhecida por ter sido palco de um sangrento conflito, entre camponeses organizados pelo Partido Comunista do Brasil, conhecido como a “Guerrilha do Araguaia” e latifundiários e polícia militar, de outro. A cidade de Xambioá foi um dos pontos de apoio do exército para o combate a Guerrilha5. Essa

região, diferentemente do restante do Estado, viveu um intenso processo de interferência estatal ao longo dos anos 1970 e 1980, que se acentuou com a criação do

5Sob a ditadura militar implantada em 1964, diversas organizações e partidos de esquerda buscavam

maneiras de resistir à violência do regime. A perseguição nas cidades e a necessidade de se arregimentar um contingente disposto a lutar pela democracia e pela igualdade levaram dezenas de militantes do PCdoB às matas da região do Araguaia. Nascia assim, no começo dos anos 1970, a principal resistência guerrilheira ao autoritarismo, somente derrotado depois de as Forças Armadas deslocarem para a selva o seu maior efetivo desde a Segunda Guerra Mundial. A Guerrilha tinha por objetivo fomentar uma revolução socialista, a ser iniciada no campo, baseada nas experiências vitoriosas da Revolução Cubana e da Revolução Chinesa. Combatida pelas Forças Armadas a partir de 1972, quando vários de seus integrantes já haviam se estabelecido na região há pelo menos seis anos, o palco das operações de combate entre a guerrilha e os militares se deu onde os estados de Goiás, Pará e Maranhão faziam divisa. Seu nome vem do fato de se localizar às margens do rio Araguaia, próximo às cidades de São Geraldo do Araguaia e Marabá no Pará e de Xambioá, no norte de Goiás (região onde atualmente se situa o norte do Estado do Tocantins), também denominada como “ Bico do Papagaio”. O Governo Militar extinguiu a Guerrilha, enviando dez mil soldados para combater 70 guerrilheiros, que resistiram por três meses. (FILHO, 2012)

Grupo Executivo de Terras Araguaia-Tocantins (GETAT) que atuou na região até a criação do Estado.

Assim, investindo no processo de agravamento de concentração da terra, os governos ditatoriais gerenciaram a questão fundiária reprimindo brutalmente as lutas por terra. Para os militares era fundamental desmobilizar toda e qualquer forma de organização política dos trabalhadores rurais, criando, desse modo, um vazio político necessário para viabilizar o seu projeto de reforma no campo.

A esse respeito, Lira (2011, p. 143), coloca:

´A Amazônia Legal´ bem como a ´Amazônia Tocantinense´ são territórios ideológicos criados dentro de uma geopolítica de ocupação da Amazônia, onde uma das ideias era também combater o “comunismo”, como os militares batizaram as pequenas tentativas de avanço social na questão da terra naquela região do Brasil.

Acrescenta ainda, esse autor:

Essa estratégia se torna visível no território tocantinense, quando é dizimada a Guerrilha do Araguaia, imediatamente os militares criaram o GETAT para atuar naquela região. Outro exemplo, são os posseiros do São João, município de Porto Nacional, que conquistaram suas terras através de luta armada com pistoleiros, o INCRA interviu e abafou o sentimento revolucionário que começara a surgir na região. Portanto, insistimos, que a ‘Amazônia Tocantinense’ e/ou ‘Amazônia Legal’ é um instrumento bélico e ideológico que os governos militares usaram para punir os avanços sociais na Amazônia e através da aliança com o grande capital nacional e internacional, conseguiu evitar qualquer tentativa de reforma agrária nas terras pertencentes, hoje, ao Estado do Tocantins. (LIRA, 2011, p. 144)

Dessa forma, em 1972/73, com a liquidação da guerrilha, o governo militar trocou algumas pessoas favoráveis à medida de reforma agrária que ocupavam cargos em ministérios, por pessoas contrárias à reforma e a favor da implantação da grande empresa no campo.

No contexto da formação do Estado do Tocantins, um marco mais recente ganhou destaque para a consolidação da emancipação do norte goiano. A criação da Comissão de Estudos dos Problemas do Norte Goiano (CONORTE)6, composta por

profissionais liberais da região do Tocantins, perseguia o objetivo “de diagnosticar o

6 Criada em 1981, em Brasília, por um grupo de intelectuais "nortenses" apoiados por fazendeiros. Os

objetivos da comissão eram reunir os argumentos necessários para justificar a emancipação do norte do estado, criando uma nova unidade federativa (OLIVEIRA, 1998).

potencial político e econômico da região e de mostrar à população local a importância da criação do Estado do Tocantins” (OLIVEIRA, 1998). Segundo a autora a CONORTE “inventou uma tradição” separatista para o Estado de Tocantins, a partir dos movimentos separatistas anteriores. Houve uma preocupação por parte dessa Comissão para criar uma identidade regional, baseada numa história e numa geografia consideradas suficientemente distintas do sul de Goiás para justificar a emancipação.

Apesar do discurso da identidade regional, foi a busca pela superação do atraso e do abandono o verdadeiro elo entre os movimentos emancipacionistas do século XIX e aquele da década de 1980 (OLIVEIRA, 1998). Segundo Oliveira, houve uma reedição dos argumentos que justificavam a emancipação do norte. No entanto, o movimento separatista do século XIX tinha um caráter mais econômico, enquanto o movimento da década de 1980 trouxe as questões culturais e representações simbólicas para conferir significado à própria história tocantinense e forjar uma identidade regional que marcaria intensamente as ações e o discurso emancipacionistas (OLIVEIRA, 1998).

Esses discursos, no entanto, não escondem os interesses particularistas na criação do Estado que possibilitaria a ocupação de cargos políticos importantes e estabeleceria uma estrutura de poder regional e mesmo nacional. Para compreender diretamente o discurso elaborado pela comissão, que trazia também em seu contexto o ganho que teria quanto ao progresso econômico para o centro-oeste do país bem como para a região Norte, destacamos o trecho a seguir:

Não podemos esquecer que existem dois Brazis: o do Sul e do Norte. A emancipação política do Tocantins despertará a atenção do sul para os férteis vales dos rios Araguaia e Tocantins, que têm condições de ampliar, consideravelmente, a produção de alimentos do Brasil. A criação do Estado do Tocantins abrirá perspectiva para a regularização do sistema fundiário da região, acelerará os processos discriminatórios, demarcações e divisões de terras para incrementar o processo produtivo e com isso fixar o homem ao seu próprio meio fazendo com que a propriedade rural exerça sua função social. (CONORTE, 1983 apud OLIVEIRA, 1998, p. 35).

Ficam bem claros alguns dos elementos que justificavam o movimento em prol da emancipação, como o argumento do desenvolvimento regional, a “vocação” para produção agrícola e sua importância para o desenvolvimento econômico. O movimento emancipacionista não era meramente ideológico, mas constituía uma ação política concreta que criticava a indiferença da União e a discriminação em relação à

importância econômica da região por parte do governo estadual de Goiás (OLIVEIRA, 1998). Esse contexto demonstra que havia uma organização política regional que procurou apoio popular para poder concretizar a emancipação política e administrativa de Tocantins em relação a Goiás.

Ao discutir o espaço de representação elaborado em torno do projeto de criação do Estado do Tocantins, como a mais nova unidade administrativa da Federação, RODRIGUES (2008, p. 115), evidencia que, por trás do discurso do pertencimento, havia questões econômicas e políticas. Rodrigues destaca que em 27 de junho de 1988, o jornal Folha de São Paulo publicou uma reportagem intitulada “criação do Estado do Tocantins leva UDR ao poder”. Nela, o jornal enfatizava as questões ruralistas e os conflitos agrários existentes na região.

Segundo Amaral (1988, apud Rodrigues, 2008, p. 115), a

UDR já tem uma vitrine para exibir ao país seu modelo de administração pública. Por decisão do Congresso constituinte, até o final do ano [1988], pouco mais de 350 mil eleitores de 80 municípios goianos vão oficializar, em plebiscito, a criação do Estado do Tocantins. O 24º e mais pobre Estado da Federação nasce com a marca da União Democrática Ruralista, a mais poderosa organização do território de 286.706 quilômetros quadrados acima do paralelo 13.

Amaral (1988, apud Rodrigues, 2008, p. 117) retrata que o então presidente da Federação da Agricultura de Goiás (FAEG), Aroldo Rastoldo, afirmara que “o Estado do Tocantins é a UDR no poder”. Sem rodeios, Rastoldo teria destacado na matéria a implantação de diversos sindicatos rurais no norte goiano, anunciando que a meta da organização era: eleger o governador e pelo menos 80% dos prefeitos da nova unidade da federação brasileira. O presidente da FAEG, na ocasião, afirmara ainda que só se elegia no Estado quem se identificasse com as posições políticas da organização.

Em 1º de novembro de 1988, a reportagem de Rosangela Bittar do jornal “O Estado de São Paulo”, destacou a forte presença da UDR nas eleições de 1988, traçando um panorama da eleição no então norte goiano. A UDR estaria inserida nos dois lados: tanto exercia influência sobre o candidato Siqueira Campos, do PDS, como sobre José Freire, do PMDB. A organização tinha como objetivo eleger deputados e senadores que tivessem presença em Brasília (DF), conforme orientação de Ronaldo Caiado, na época, demonstrando a articulação de escalas para a construção de uma representação política

da organização com forte poder de influência e estabelecimento de relações de poder nos níveis nacional e regional (RODRIGUES, 2008, p. 117).

Segundo Bittar (1988, apud RODRIGUES, 2008, p. 117):

a composição das duas chapas com viabilidade eleitoral revela um Estado conservador, com presença política e econômica marcante da União Democrática Ruralista (UDR), de Ronaldo Caiado. A UDR está nos dois lados. O presidente da regional de Araguaína, João Abraão Halum, 41 anos, filiado ao PMDB, afirma que a UDR vai se abster de engajamento partidário e informa que a ordem de Caiado foi clara: ‘vamos ficar com nosso bando, evitar a fragmentação e investir nos candidatos a deputado federal, estadual e senador. Precisamos do poder da tribuna, vamos levar gente nossa às assembléias e ao Congresso’.

Ainda de acordo com Rodrigues (2008, p. 119),

O jornal ‘O Globo’ também noticiou a questão dos conflitos agrários e da relação entre a UDR e a criação do Estado do Tocantins, associando a isso a pobreza latente nessa região do Brasil. Segundo o jornal, o ‘Tocantins foi o berço da UDR e se constituiu numa das regiões de maior disputa fundiária, com registro policial de mais de duas mil mortes atribuídas a pistoleiros profissionais. Há dois anos, na Praça das Nações, centro de Araguaína, a contratação de um pistoleiro poderia ser feita a partir de uma tabela de preços’ (JORNAL O GLOBO, 1988). Segundo a mesma reportagem, mesmo com a diminuição dos conflitos, o então norte de Goiás ‘[...] continua sendo uma das regiões mais pobres do Brasil’.

Evidencia-se nas citações acima a forte articulação entre as velhas oligarquias agrárias, presentadas pela UDR e o processo de criação do Estado do Tocantins.

Foi nesse contexto que a década de 1980 constitui um marco no processo de organização dos camponeses no Brasil e no Tocantins. No Estado, a luta pela posse da terra iniciou-se antes da chegada da Comissão Pastoral da Terra (CPT), mas se fortaleceu com a vinda de missionários desta entidade. Um dos símbolos desta resistência foi Pe. Josimo, que lutou ao lado dos trabalhadores rurais, num processo de conscientização em uma época de acirrados conflitos na região. Pe. Josimo foi assassinado por pistoleiros encomendados por grileiros das terras da região. Tornou-se uma marca desta resistência, de luta pela posse da terra e pelos diversos direitos sociais,

que eram até então desconhecidos pelos trabalhadores.7

Assim, nesse período foram criados vários Sindicatos dos Trabalhadores Rurais com o apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Foi nesse período também que nasceu o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, que rapidamente se expandiu pelo País.8. Os trabalhadores rurais se organizaram e articularam a implementação de

um amplo processo de reivindicação pela reforma agrária.

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