3. Previous research and theoretical perspectives
3.6 Fishing in a colonial aspect – Fishing and the caring of fish in two differ- differ-ent dimensions
A maneira como Flaherty entendia sua abordagem dos temas exigia longos períodos de imersão nos locais onde filmava. Este é o aspecto participante que Rouch elogiava. Tais períodos muitas vezes superavam um ano e, para Flaherty, só assim seria possível uma abordagem interessante. Isso está nos postulados de Flaherty para o documentário, por exemplo, quando ele diz que “O documentário deve recolher seu material no seu próprio lugar e chegar a conhecê-lo infinitamente para organizá-lo. Flaherty mergulha durante um ano, as vezes dois. Vive com esse povo até que o relato ‘surja dele mesmo’.”55 (GRIERSON, 1998:143) ou no exemplo das filmagens de Moana (1926), que foram feitas durante vinte meses consecutivos (GRIERSON, 1979:25).
O entendimento de que o contato com os ambientes e intervenientes filmados deve ser longo e constante é recorrente entre os documentaristas aqui analisados em suas propostas. “O cinema, arte do instante e da instantaneidade é, na minha opinião, a arte da paciência e a arte do tempo.” (ROUCH, 2011c:85). Rouch ainda disse: “A minha regra de ouro é ‘take one’, um só take por cada plano, e a rodagem por ordem cronológica.” (ROUCH, 2011c:128). Desta forma, além de preconizar os longos tempos de imersão (ROUCH, 2011b:69), Rouch defende que na filmagem não se deve repetir planos, ou seja, não se deve filmar mais de uma vez a mesma ação, pois o que interessa é o que ocorreu no momento filmado e que os planos devem seguir a ordem cronológica dos acontecimentos. Isso implica em adaptar-se ao que estiver ocorrendo. “Na maioria dos casos, na maioria das sequências que começo a filmar, nunca sei onde é que a coisa vai acabar, logo não me aborreço. Sou forçado a improvisar para o melhor e para o pior.” (ROUCH, 2011c:84). Aí encontramos uma divergência com Flaherty, que planejava muito suas filmagens e que filmava várias e várias vezes a mesma ação. Essa divergência remonta ao ponto já descrito da diferença das filmagens próximas de Rouch e das filmagens distantes de Flaherty.
55 No original: “El documental debe recoger su material en el terreno mismo y llegar a
conocerlo íntimamente para ordenarlo. Flaherty se sumerge durante un año, quizá dos. Vive con ese pueblo hasta que el relato ‘surge de sí mismo’.”
Para alguns dos documentaristas contemporâneos esses longos períodos de imersão também são necessários, mas muitos outros os dispensam. Pedro Costa ainda mantém essa prática e critica a falta dela na maioria dos trabalhos de outros cineastas. Sobre No quarto da Vanda (2000) Costa diz: “E este filme se tem alguma coisa de interessante é porque foi feito com trabalho e com paciência, coisas que o cinema perdeu...” (COSTA, 2002:79).
Sergei Dvortsevoy diz que seus filmes são 80% de preparação, que o tempo dedicado antes das filmagens é muito maior do que o tempo filmando. E esse tempo anterior é de convivência, de conhecer o ambiente e as pessoas (DVORTSEVOY, 2002:44). “Eu acredito que não apertar um botão de câmera seja mais importante do que apertá-lo. Não gastar energia no que não te interessa, ou no que é ruim, mas apenas filmar quando você tiver o intenso desejo de fazê-lo.”56 (DVORTSEVOY, 2013)
Exatamente em sentido oposto à ideia de que não apertar o botão da câmera é mais importante do que apertar, Frederick Wiseman diz que não gosta “de perder nada, e a rodagem do filme é na verdade a pesquisa, uma vez que os acontecimentos destes filmes não se repetem.” (WISEMAN, 2008:114). E neste sentido ele acredita que estar presente nos ambientes da filmagem sem apertar o botão da câmera pode ser desperdício.
Portanto, posso estar ali um dia a fazer pesquisa, e ficaria muito triste se perdesse algo verdadeiramente interessante. Prefiro não saber que aconteceu e, quando estou ali, estar ali e preparar-me para apanhar o que quer que esteja a acontecer. (WISEMAN, 2008:114)
Para Wiseman, se for necessário um período de pesquisa, para entender as dinâmicas do local, esse período será muito curto. “Normalmente só faço cerca de um dia de pesquisas no local antes de começar a filmar.” (WISEMAN, 1994:53). Já o tempo de filmagem é bem mais dilatado, pois Wiseman mantém sua ideia de recuo e com isso precisa de muito material filmado para poder montar um filme. “Comecei por rodar em quatro semanas; mais recentemente tem sido mais próximo de seis.” (WISEMAN, 1994:53)
56 No original: “I believe that not pressing the camera button is more important than
pressing it. Not wasting energy on what doesn’t interest you or is bad, but only filming when you get this intense desire from within to do so.”
Também documentaristas que se dedicam ao encontro enquanto conversa ou entrevista por vezes optam por abordagens bastante diretas, de tempos muito curtos. Errol Morris diz que procura encontrar com os intervenientes apenas no momento em que vai fazer as entrevistas. (MORRIS, 2000:13). Não os encontra antes e faz a pesquisa sem que o contato direto se estabeleça.
Essa é uma postura que objetiva uma pureza do primeiro contato, algo que pode ser perdido com longos períodos de imersão. Esta ideia é muito recorrente para documentaristas que produzem entrevistas, como o próprio Morris ou Eduardo Coutinho.
A etnografia é uma ciência. Um filme é cinema. Mas se ele tem alguma coisa ligada à etnografia é o fato de que eu faço de modo selvagem. Eu não conheço a pessoa antes da filmagem. Há um momento que dura meia hora a duas horas que é intenso e em que se dá a coisa. Depois, eu vou encontrar na pré-estreia e acaba. É o contrário do trabalho de algumas ciências. (COUTINHO, 2009:135)
Portanto, essas variações no tempo de abordagem, seja de preparação, seja de filmagem propriamente dita, vai depender muito do estilo de filme que os documentaristas procuram, ou, em outros termos, dos campos éticos (RAMOS, 2005:168) em que estão inseridos.