Desde as primeiras ocupações de terra do MST, no final dos anos 70, iniciaram-se as experiências em educação envolvendo crianças, jovens e adultos. As principais reflexões dessa época referiam-se ao direito à educação e à construção de escolas alternativas com pedagogias diferenciadas (Paludo, 2006).
Nos anos seguintes (1984-1994), com o avanço da organização dos assentamentos e acampamentos de reforma agrária, evidenciou-se a necessidade de as escolas do MST serem pensadas na sua relação com um projeto de vida no campo. Um período marcado por grande avanço no desenvolvimento de novas experiências com educação e nas formulações didático- pedagógicas. Foi nesse período que se fundou o setor nacional de educação, como uma estrutura orgânica do Movimento (Paludo, 2006).
Já o período seguinte (1995-2005) foi marcado por uma forte articulação de organizações sociais do campo em torno do que se denominou de “Movimento Por uma Educação Básica do Campo”. Nesse movimento articularam-se pequenos agricultores, assentados pela reforma agrária, reassentados, quilombolas, populações ribeirinhas, para citar alguns. A luta pela sobrevivência no campo levou-os a lutarem por uma educação do campo. Não uma educação rural, pragmática, que desconsidera a trajetória e a cultura dos povos do campo, mas uma educação do campo que preserve seu trabalho e suas formas de luta e sobrevivência no campo. É também uma luta por uma nova forma de sociedade e por uma nova forma de relação com a natureza (DALMAGRO, s/d).
Dessa forma, a educação do campo, enquanto conceito e prática foi construída pela dinâmica histórica dos povos do campo, como nos mostra Vendramini (2007, p. 123):
É preciso compreender que a educação do campo não emerge no vazio e nem é iniciativa das políticas públicas, mas emerge de um movimento social, da mobilização de trabalhadores do campo, da luta social. É fruto da organização coletiva dos trabalhadores diante do desemprego, da precarização e da ausência das condições materiais de sobrevivência para todos.
Entre as diversas experiências com educação no MST, podemos citar: as escolas itinerantes; as escolas de ensino básico nos assentamentos e acampamentos; as cirandas infantis; educação de jovens e adultos (EJA); ensino profissionalizante, de nível técnico e superior; e cursos de pós-graduação. Sem falar nos cursos específicos de formação de militantes - desenvolvidos pelos centros de formação do Movimento e pela Escola Nacional Florestan Fernandes25 - e nas próprias práticas educativas desenvolvidas nos assentamentos e acampamentos.
Esse é um elemento importante para se compreender as ações envolvendo saúde e ambiente nas escolas dos acampamentos e assentamentos, que, embora abordadas na sua
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A Escola Nacional Florestan Fernandes foi fundada no ano de 2005, em Guararema, SP, com o objetivo de ser uma escola de formação de militantes e dirigentes do MST e de outros movimentos sociais oriundos de diversos países.
interface com a saúde e o ambiente, merecem serem compreendidas a partir do referencial e histórico da educação do campo.
Embora o assentamento 1° de Junho seja referência em experiências agroecológicas na região, ao visitá-lo, fomos surpreendidos pela Escola do Assentamento e suas ações de educação em saúde e meio ambiente. Por meio de visitas à Escola, pudemos vivenciar o trabalho das professoras e a organização e o desenvolvimento de uma feira de ciências. Conversamos e entrevistamos Helenira, atual diretora da Escola e responsável por coordenar as atividades sobre saúde e meio ambiente.
Já a Escola do Acampamento Juscelino dos Santos foi pesquisada por ser indicada pelo Setor Regional de Saúde como referência de experiência envolvendo saúde em uma escola. Por meio de visita ao acampamento, conhecemos o trabalho de Iara, professora de ciências e responsável por essas ações. Nessa visita, observamos seu trabalho e realizamos uma entrevista.
Na visita ao assentamento Oziel, em conversa com integrante do Setor de Educação Regional, foi citado o desenvolvimento de uma experiência na escola do assentamento que se denomina ‘Chá com poesia’, que ocorre aos finais de semana e conta com a participação da comunidade do assentamento. Para o desenvolvimento desta pesquisa, optamos por não incluir essa experiência entre as investigadas.
A Escola Estadual 1° de Junho, localizada no Assentamento 1° de Junho, atende educação infantil, 1° ao 5° ano do ensino fundamental no período diurno, e educação de jovens e adultos no período noturno. Possui uma turma multisseriada de 1° ao 5° ano na comunidade do Limeira26, que funciona como anexo. A escola recebe alunos do assentamento e demais comunidades do município. Possui boa estrutura física, com salas de aula, cantina, biblioteca com laboratório de informática, banheiros e quadra esportiva.
Identificamos nessa escola o desenvolvimento de atividades envolvendo o uso de plantas medicinais, segurança alimentar, resgate e preservação de sementes, lixo e meio ambiente. Atualmente desenvolvem ações como feira de ciências, disciplina de horticultura e visitas para desenvolver atividades práticas. Em outros momentos, desenvolveram atividades como sistematização de saberes através de cadernos de receitas e plantas medicinais, aulas práticas de plantas medicinais, experimentos de homeopatia na agricultura, pesquisa sobre estado nutricional das crianças no assentamento, produção e distribuição de mudas, e
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O Limeira é uma comunidade de famílias pertencentes ao Assentamento 1° de Junho, que optaram, desde o parcelamento do assentamento, por não construir suas moradias na agrovila e assim, aos poucos, foram se organizando em torno dessa região, conhecida como Limeira.
recuperação de nascentes do Assentamento. Estas últimas foram desenvolvidas no contexto do projeto de extensão rural em parceria com a UFV, que foi exposto na seção anterior.
[...] cada semana a gente tinha um dia pra trabalhar a questão da saúde. E tinha uma receita que ia pra esse caderno. A pomada, o xarope, e pra cada dia era uma coisa que a gente trabalhava. Como é que eu faço um chá? Então tem lá a receita de como fazer o chá. Pra que que serve isso? Eles escreviam. Então no caderno de saúde tinha receita de bolo. Então esse caderno de saúde que eles aprenderam a escrever o nome da planta, pra que que servia, é que virou as cartilhas27 depois (Helenira).
As feiras de ciências ocorrem uma a duas vezes por ano, e envolvem todos os discentes e docentes da escola. Geralmente, as atividades de preparação são desenvolvidas nos dias antecedentes, a feira dura uma tarde ou uma noite e a comunidade do assentamento e familiares são convidados a participar. De acordo com Helenira, a disciplina de horticultura e jardinagem é oferecida regularmente como disciplina dentro do currículo, participando alunos do 1° ao 5° ano. Já as visitas foram feitas ao viveiro de mudas da prefeitura, às experiências de Francisco em seu lote produtivo e às nascentes do assentamento.
A Escola João Paulo, que se localizava no Acampamento Juscelino dos Santos. Conforme mencionado na seção 2.2.2, o Acampamento Juscelino dos Santos foi extinto no final de 2011, a escola, fechada, e as famílias acampadas foram destinadas a outras áreas da região. A escola funcionou como anexo da Escola Estadual Fernão Dias, do município vizinho de São José de Safira, a 54 km de estrada de chão do acampamento. Atendia a uma turma multisseriada do 1° ao 5° ano e aos anos subsequentes do ensino fundamental, do qual participavam alunos do acampamento e comunidades vizinhas. A escola não contava com instalações de alvenaria, e suas estruturas haviam sido construídas a partir de mutirão, com a contribuição das famílias do acampamento e de comunidades vizinhas (SILVA, 2010). A Figura 3 ilustra a Escola do Acampamento Juscelino dos Santos.
Nessa Escola identificamos ações educativas envolvendo plantas medicinais, horticultura e alimentação saudável. Tais ações são desenvolvidas principalmente por Iara, através das aulas de ciências, artes e ensino religioso com os alunos do 6° ao 8° ano do ensino fundamental. Também foram identificadas ações de prevenção e promoção em saúde relacionadas à sexualidade e doenças sexualmente transmissíveis, ações essas desenvolvidas com os jovens da escola.
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As cartilhas referidas por Helenira consistem no trabalho de sistematização – das receitas e plantas medicinais utilizadas no assentamento – realizado pelos alunos das escolas junto às suas famílias. Contaram com o apoio da UFV, que diagramou, ilustrou e imprimiu.
Há um tempo, familiares, alunos e professoras dessa Escola enfrentavam a ameaça do seu fechamento por falta de alunos. Ao final do ano de 2011, presenciou-se a saída do acampamento da fazenda e a maioria das professoras foram para a escola municipal construída no Assentamento Ulisses de Oliveira, em Jampruca.
Figura 3 - Escola do Acampamento Juscelino dos Santos
(Fonte: Acervo Pessoal)