Esta pesquisa se caracteriza como um estudo de caso de uma escola particular do Distrito Federal e teve como objetivo investigar os prováveis efeitos da antecipação da pluridocência para a quarta série. Objetivou também identificar se esta antecipação ameniza uma das maiores dificuldades encontradas na transição para a quinta série, que é o trabalho com um número maior de professores. Através dos dados coletados foi possível identificar fatos relevantes que contribuíram para o entendimento do fenômeno.
Os dados coletados deixam claro que os alunos participam naturalmente das atividades e não demonstram dificuldades em lidar com as diferentes dinâmicas de aulas desenvolvidas pelos professores. Os dados possibilitaram identificar que a ansiedade apresentada pelos alunos no inicio do ano é decorrente da necessidade de aprovação pelo grupo, e é uma das características comuns a esses alunos e a alunos de outras séries. Os dados também deixam claro que a dificuldade de organização dos materiais por ocasião da troca de professores, identificada no início do ano letivo, é gradativamente superada pela capacidade de adaptação dos alunos e pela orientação das professoras.
De acordo com os depoimentos, as professoras da quarta série não vêem dificuldade em atuarem com a pluridocência, e consideram que esta forma de organização também não é problema para os alunos. Para as professoras a quarta série é uma turma tranqüila cujos alunos são maduros, abertos a novas propostas e têm facilidade de assimilação dos conteúdos.
A boa qualidade do relacionamento interpessoal na quarta série, em especial entre o professor e aluno, foi questão decisiva para que a antecipação da pluridocência ocorresse de forma mais suave. Este fato decorreu de uma postura mais afetiva que os professores mantinham com os alunos e do desenvolvimento de uma dinâmica curricular adequada à idade dos alunos.
A afetividade foi declarada presente em todos os momentos da aprendizagem na quarta série, desde o acolhimento dos alunos no inicio do ano até os momentos que finalizavam o ano letivo. Vale destacar que a afetividade foi considerada um dos pontos relevantes em todos os momentos da pesquisa.
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Fundamentado nos estudos discutidos na revisão de literatura e nos relatos dos professores participantes da pesquisa foi possível perceber, que os alunos não encontram obstáculos para que a pluridocência seja antecipada para a quarta série. Isso se configura, tendo em vista que o aluno nesta fase ainda não sofre com a expectativa dos pais e professores, nem com a pressão social sofrida pela quinta série, considerada como uma série de passagem , plena de mudanças didático-pedagógicos, no período conturbado e instável que caracteriza a adolescência.
Os depoimentos dos alunos da quinta série egressos da quarta série pluridocente ressaltaram os reflexos positivos que a antecipação da pluridocência proporcionou aos mesmos. Os respondentes deixam claro em suas colocações que contato antecipado com vários professores ajudou muito na adaptação à nova série. Os alunos ressaltam ainda que toda vivência com o currículo pluridocente da quarta série os proporcionou mais segurança, organização, independência e tranqüilidade ao se relacionarem com diferentes professores.
Os professores desta turma de quinta série se colocaram na mesma perspectiva dos alunos. Apontam que os alunos oriundos da quarta série pluridocente se diferenciam dos alunos que não tiveram contato anterior com muitos professores, demonstrando mais autonomia, agilidade, organização e maturidade em suas colocações, além de melhor entrosamento com os professores.
A antecipação da pluridocência da forma como se desenvolve na escola estudada foi considerada benéfica pelos respondentes. Entretanto, a pesquisa constatou que apesar desta antecipação ser vista como positiva, não elimina totalmente os impactos causados no aluno pela transição para a quinta série.
Era esperado que os alunos que tiveram contato com a pluridocência na quarta série não deveriam ter dificuldade com a pluridocência na quinta série. Porém, foi possível perceber pelos relatos dos alunos e professores que, mesmo tendo a experiência de antecipação com a pluridocência, estes alunos ainda encontraram dificuldades.
Os alunos, ao ingressarem na quinta série, encontram um panorama bem diferente do da quarta série. Segundo os respondentes os professores de quinta série são muito exigentes e cobram uma postura independente imediata, diferente dos professores da quarta série
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pluridocente, que lhes davam atenção e eram mais amigos. A forma como as professoras de quarta série pluridocente estruturam a dinâmica de aula proporciona uma relação mais próxima e afetiva entre os professores, alunos e colegas.
Na quinta séria os professores mantêm a dinâmica de aula extremamente objetiva e voltada para o cumprimento do conteúdo, ocasionando um distanciamento afetivo entre os mesmos e os alunos. O atendimento é generalizado, não havendo preocupação real com as características individuais e os níveis de compreensão do aluno. Os depoimentos de alguns professores demonstram que consideram inadequado estabelecer um relacionamento mais próximo do aluno, uma vez que acreditam que esta postura não condiz com professores de quinta série, e é própria das tias das séries iniciais.
Esta postura demonstra despreparo do professor de quinta série, no sentido de adequar a sua prática pedagógica às possibilidades de desenvolvimento e de aprendizagem dos seus educandos. Demonstra também o desconhecimento da importância da afetividade para a aprendizagem, questão relevante destacada por estudiosos como Wallon (1989) e Goleman (1996), além de outros.
A pesquisa assinalou que, para o sucesso da antecipação da pluridocência, não basta preparar apenas o aluno. É também extremamente relevante preparar o professor para lidar com o aluno oriundo da quarta série pluridocênte que ingressa na quinta série. O professor tem um papel determinante nesta passagem, seja estimulando o aluno na quarta série ao possibilitar o desempenho da sua autonomia, seja exercendo uma postura mais afetiva na quinta série. Percebe-se que o professor das séries finais do ensino fundamental não está preparado para trabalhar com os diferentes graus de maturidade dos alunos e com a afetividade necessária não só na quinta série, mas também em todos os níveis de ensino.
Para uma ação mais efetiva na busca de melhorar a adaptação dos alunos e reduzir o índice de reprovação é recomendável que as escolas estejam atentas para esta lacuna na formação do professor, buscando preparar os seus docentes oferecendo aos mesmos uma formação continuada. Recomenda-se ainda que a escola busque o professor com o perfil mais adequado para trabalhar nas turmas de quinta série. Como apontaram os próprios alunos na pesquisa realizada por Rangel (2001), afetividade, alegria, paciência e compreensão fazem parte do perfil ideal do professor de quinta série. Segundo Câmara (2003), atuam sobre o
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individuo uma complexidade de elementos internos e externos justificando a necessidade de irmos além da razão. As emoções tanto ou até mais do que a razão são necessárias para o homem construir o seu ser e fazer moral.
Quanto às séries iniciais, é imprescindível que a escola adote um currículo onde segundo Delors (1998) o aluno seja estimulado a aprender a ser, conhecer, fazer, e a conviver com os outros. Neste currículo o professor deve proporcionar ao aluno o desenvolvimento integral de suas habilidades e competências. Esta ação do professor certamente ajudará o aluno na adaptação nas séries seguintes amenizando, inclusive, o impacto decorrente da transição da quarta para a quinta série.
Nesta perspectiva Gomes (2007) sugere que um bom caminho para repensar as propostas curriculares para infância, adolescência, juventude e vida adulta poderá ser uma orientação que tenha como foco os sujeitos da educação. Gomes destaca assim como Câmara (1996) que não se trata de negar a importância do conhecimento escolar, mas abolir o equivoco histórico da escola e da educação de ter como foco prioritariamente a pista de corrida , ou seja, os conteúdos, em detrimento do corredor , os sujeitos do processo educativo, embora nem a pista nem o corredor possam ser dicotomicamente separados.
Os aspectos que emergiram da pesquisa apontam para a necessidade de uma reflexão mais ampla e profunda dos profissionais da área de educação sobre a redefinição da concepção de educação e de currículo, salientando o sentido do para quem, o quê e o como ensinar. É imprescindível que estes profissionais reconheçam a necessidade da humanização do currículo e reavaliem sua prática, indo além da objetividade , buscando a integração entre a razão e a emoção e estabelecendo o equilíbrio entre o conhecimento teórico e o desenvolvimento do ser humano seja na criança no jovem ou no adolescente.
Desta forma, com currículos adequados e profissionais preparados a antecipação da pluridocência na quarta série certamente poderá ser benéfica para ajudar na adaptação deste aluno na quinta série. Esta mudança no currículo certamente abrandará as dificuldades encontradas na transição, podendo até ser perceptível a queda das taxas de reprovação, uma vez que, como ansiava Teixeira, esta transição se dará por uma rampa suave.
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Como diz Assmann (1996, p.33), todo conhecimento tem uma inscrição corporal e se apóia numa complexa interação sensorial. O conhecimento humano nunca é pura operação mental. Toda ativação da inteligência está entretecida de emoções .
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ANEXO A - Roteiro
Entrevista Semi-estrurada Professor de Quinta série
Identificação 1. Nome:
2. Sexo: feminino ( ) masculino( )
3. CPF: IDENTIDADE: 4. Formação:
5. Tempo de Magistério:
6. Séries em que leciona no presente ano: 7. Tempo de atuação na escola:
8. Disciplina que ministra:
9. Visão sobre a quinta série (sexto ano)?
10. Na sua experiência com docência em quinta série, você identifica alguma característica especial nesta turma de quinta série que cursou a quarta série pluridocente? Cite no mínimo três características
11. Como você classifica estes alunos que vivenciaram a quarta série pluridocente em relação a:
a. Relacionamento com os professores
Muito bom ( ) bom ( ) regular ( ) insuficiente ( )
b. Relacionamento com os colegas
Muito bom ( ) bom ( ) regular ( ) insuficiente ( )
c. Aprendizagem e seu compromisso educacional
Muito bom ( ) bom ( ) regular ( ) insuficiente ( ) d. Por quê?
e. Outros, quais.
12. Como você percebe a antecipação da pluridocência para a quarta série, quais efeitos positivos e negativos você identifica. Apresente pelo menos três para cada categoria.
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ANEXO B - Roteiro
Entrevista Semi-estrurada Professor de Quarta série
Identificação 1. Nome:
2. Sexo: feminino ( ) masculino( )
3. CPF: IDENTIDADE: 4. Formação:
5. Tempo de Magistério:
6. Séries em que leciona no presente ano: 7. Tempo de atuação na escola:
8. Disciplina que ministra:
9. Visão sobre a quarta série (quinto ano)? 10. Você já trabalhou com monodocência?
11. Quais os efeitos positivos e negativos que você identifica na antecipação da pluridocência para a quarta série em relação:
a. Ao trabalho docente
b. Relacionamento professor / aluno c. Relacionamento professor / professor
d. Comunicação entre os componentes curriculares -Projetos
- Programas
e. Relacionamento aluno / aluno
f. Aprendizagem e compromisso educacional do aluno g. Outros efeitos.
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ANEXO C - Roteiro
Grupo Focal
Turma - Quarta série (quinto ano).
Identificação
1. Turma: quarta série