5.3 Discussion
6.2.4 Final remarks
em sua maioria, à proteção da natureza.
3.6.2 Saberes das Lendas e Mitos
[...] Lenda da cobra grande: esta lenda conta que existe uma cobra grande que se estende (rabo) desde o fundo da Ilha da Pacoca até a Igreja de Nossa Senhora da Conceição (cabeça), passando pela feira, de tão grande que é. Por tal motivo, a ilha, durante muito tempo, foi desabitada; atualmente, algumas pessoas estão se encorajando para ir lá morar. Quem conseguir encontrar a cobra, cortar o seu rabo e pingar três gotas de sangue do dedo do descobridor, fará o réptil se transformar numa bela moça. Nesse dia, a igreja afundará e reaparecerá no lugar da ilha. O fato de várias vezes o cais ter sido reformado remete ao movimento da cobra, fato que ocasiona danos a esse local. A lenda da cobra grande está presente em toda Amazônia, região onde é contada de diferentes modos nos diversos lugares [...] (BARROS, 2009, p.153).
A referência a lenda da cobra grande em Abaetetuba, uma das mais contadas, em diferentes formas e locais da nossa Amazônia, como afirma Barros (2009), e demonstra o quanto os moradores de Abaetetuba, sobretudo, os do campo das ilhas, porque eles estão mais à beira da feira de Abaeté, estão conectados a um mundo de superstições, tido por alguns como irreal ou como formas de justificar alguns acontecimentos. Lendas e Mitos são evidenciados como sinônimos, que representam uma verdade e uma ―[...] explicação de fenômenos da realidade [...]‖ (OLIVEIRA, NETO E SOUZA, 2007, p.37).
Com origem etimológica diferente - lenda e mito se confundem pelas seguintes características próximas:
[...] a)Apresentam-se na forma de narrativas orais ou escritas, (b) possuem significados simbólicos; (c) estão ligados a fatos e acontecimentos históricos da vida humana; (d) dimensionam-se como distorção dos fatos reais pela imaginação criadora do ser humano, e (e) confundem-se o natural com o sobrenatural [...] (OLIVEIRA, NETO E SOUZA, 2007, p.38).
Compreender essas semelhanças é importante, porém elas devem ser diferenciadas, porque os mitos são provenientes da palavra grega mythos, estão relacionados às narrativas de fábulas, com seres que simbolizam forças da natureza e os aspectos da vida humana. As Lendas são mais poéticas e independem de setor geográfico e de temporalidade. Elas podem existir e serem narradas de outras formas e contextos, por exemplo. O que é comum em vários locais da Amazônia, como no caso citado, da cobra grande.
Também existem outras histórias, as quais permutam pelas ilhas de Abaetetuba e podem ser encontradas nos anexos: Uiara do Rio Arumanduba, O lago Encantado, A Lenda do Açaí, Matina Perera, O Curupira, Lenda do Boto, Lenda do Rio Paramajó (Mulher que deu a luz a duas cobras) e outras.
Na visão de Loureiro (2001) levar em conta essas histórias do imaginário social e mitológico dos amazônicos, é preciso para que se perceba a experiência humana acumulada, a qual está além da conquista da ciência. ―[...] Na vida na Amazônia a mitologia reaparece como a linguagem própria da fábula, que flui como produto de uma faculdade natural, levada pelos sentidos, pela imaginação e pela descoberta das coisas [...]‖ (p.13). Alguns teóricos enfatizariam essa idéia como folclore ou algo primitivo, no entanto, persiste-se que ao se tratar da cultura amazônica do caboclo ribeirinho, ela deve ser compreendida em sua história de constituição e contemporânea; como cultura original, criativa e dinâmica, que revela uma realidade e transpassa a grandeza de um homem cercado pela natureza (LOUREIRO, 2001).
Vivenciou-se na pesquisa de campo, o que alguns chamariam de sobrenatural. A história de uma senhora, ―rezadeira‖ ou ―benzedeira‖, a quem podemos chamar de Ana43.
Dona Ana, atualmente deve ter 69 anos, disse que não poderíamos gravar sua fala, pois alguns querem saber de seu segredo, que não pode ser revelado, contado, se não pode acontecer algo com ela.
Essa senhora disse que chorou na barriga da mãe, adormecia e aconteciam coisas que ela não lembrava, e desde os 03 (três) anos sentia peso nas costas, mas ―nunca sentiu medo‖ e outros marcos em sua vida, como fazer parto aos 18 anos, sem ninguém nunca ter ensinado e puxar barriga desde os 10 anos. Ela afirma: ―[...] Deus que vai curar, não sou eu, é ele [...]‖ e ensinamentos de parteira não podem ser repassados. ―[...] Sabedoria é um dom [...]‖.
Dona Ana possui outros saberes, que é de produzir remédios. Ela afirma, quando alguém requisita uma medicação, ―garrafada‖, ela vai para o mato e na feira, comprar o material, e tem que ficar com a pessoa no pensamento, sendo que cada pessoa há um único remédio.
Ela avisa que Curupira existe, e é um bicho traidor, faz a pessoa que está no mato se perder, e para clarear o caminho de volta tem que saber fazer um nó, numa corda, e jogar por cima do ombro. Como ser lendário, a Iara tem cabelos que parecem ouro. ―[...] Se alguém pisar no rabo da Iara e puxar o cabelo dela, para não contar o segredo dela, ela dá uma varinha de condão [...]‖.
No momento em que estávamos conversando, num barracão, no centro tinha um espaço só dos santos, ela destaca que as crianças não batizadas não podem ficar perto dos santos, caso contrário, o santo leva, isto é, a criança morre.
Na história dessa ribeirinha-rezadeira percebe-se de maneira profunda o credo na existência de seres da natureza, nos dons recebidos e podem ser aceitos para o bem. Para alguns esses conhecimentos são tidos como superiores e abstratos.
Como a história de Dona Ana e com base no documento de Memória e Revitalização Identitária (CPT, 2009, p.13) e em alguns trabalhos de discentes (NOGUEIRA, VILHENA, OLIVEIRA, 2010, s/p) outras crenças nas ilhas de Abaetetuba podem ser citados:
Utilizar “patuás” para se proteger dos invejosos. Esse objeto deve ser feito por alguém experiente;
A ação de sacudir a rede antes de dormir espanta possíveis espíritos que lá estejam; Pessoas com dom de mediunidade não devem adentrar em residências de mulheres que acabaram de parir, pois terão dor de cabeça e poderão pegar caboclos da mata, isto é, caruanha;
Quando uma criança não é batizada não deve entrar no mato, pois podem ser levadas e assombradas pela Curupira;
Ao se ter um mal sonho deve-se sentar na rede ou cama e contar o sonho para a parede. Assim, o sonho não se transformará em realidade;
Quando um parente morre, não se deve pegar em plantas durante um período de oito dias, senão a planta morre. Não se deve cortar os cabelos e nem fazer a barba. Põe-se um copo com água e acende-se uma vela na mesa porque a pessoa pode ter morrido com sede ou estar precisando de luz.
Quando uma criança olha por debaixo das pernas é sinal de que está chamando outra criança, ou melhor, pode ser que a mãe esteja grávida;
Quando a saracura canta na beira do rio, a maré vai lançar (crescer). Quando canta dentro da mata, a maré vai aquebrar (baixar);
Quando existe um ninho de caba dentro da residência é sinal de muito dinheiro.
Diante desse incompleto conjunto de crenças concorda-se com Fraxe (2004, p.345) quando expressa que ―[...] o mundo das águas adquire um sentido e se humaniza como vetor de relação entre o homem e o mundo. O homem passa a ver o não visto. O invisível é o
visível [...]‖ e esta tarefa, não é para qualquer um, apenas para os que acreditam ou recebem algum sinal e até mesmo para os que conseguem ver, ouvir e dialogar com a natureza de forma tão natural como os ribeirinhos.