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Chapter 7: Concluding Remarks

7.3 Final remarks

Figuras 5, 6, 7, 8, 9 e 10:breve descrição dos Diários de Classe e suas finalidades.

As figuras acima apresentam o campo de descrição da comunidade na rede social, uma espécie de lugar para registrar a missão de cada diário. Não se trata de um campo fixo, pode ser alterado a qualquer tempo, mas como ocupa uma área de destaque na página, os diários buscam traduzir nesse espaço, ainda que de maneira resumida, seu objetivo prioritário.

Um aspecto que se mostra relevante a partir dessa descrição é o fato de que todos os diários – três deles explicitamente nesse campo, e também nas postagens regulares que realizam – referem-se à necessidade de revelar a “verdade” e se apresentam como veículos para tal. A princípio, suas postagens sugerem um tom quase messiânico, pois acreditam que a ordem das coisas será retomada quando cada um fizer sua parte e tudo o que for revelado for reconsiderado. Mas, contextualizando as expectativas em suas devidas proporções, considerando os cenários nos quais surgem os diários e consequentemente o que o espaço de fala conquistado representa para esses adolescentes e jovens, é preciso refletir sobre o conceito de verdade e como ele se aplica à rotina dos Diários de Classe.

De maneira geral, a busca pela verdade sempre figurou pela história da humanidade, mas sem dúvida, foram os campos científico, filosófico e religioso os grandes responsáveis pelo peso e importância dados a ideia de verdade como concebemos hoje. Ao institucionalizarem a verdade, um conjunto de experiências, doutrinas e práticas foi normatizado e passou a ser a base para a vida em sociedade.

De maneira simplificada, a verdade opõe-se ao que é falso, além de estar associada ao poder de tornar visível o que está encoberto, aquilo que não se manifesta na realidade. É como se o verdadeiro tivesse diretamente ligado ao que pode ser visto, sentido ou tocado. Inicialmente, todos os Diários de Classe concentraram suas denúncias e opiniões nesse primeiro nível de compreensão do que é a verdade. Mas para além de um jogo de luz e sombra ou opostos facilmente demarcados, a questão da verdade carrega em si um caráter relativo quando observamos a formação enunciativa na qual ela se sustenta e os efeitos que produz. (FOUCAULT, 1993).

Cada diário partiu da constatação de uma realidade particular, sua própria verdade – a situação de uma escola ou escolas de um município ou região específica – mas em muitos elementos a realidade particular encontra-se refletida na realidade dos demais diários. Ou seja, compartilham impressões e denúncias sobre fatos que revelam incoerências na prática pedagógica, descaso e abandono de escolas, espaços públicos. O ato de se expressarem no ciberespaço e trazer ao conhecimento de seus seguidores os casos relatados, aos seus olhos, torna o problema concreto o suficiente para ser considerado verdadeiro, pois um fato

repetidamente constatado, experienciado em outros ambientes confere veracidade aos relatos. Hannah Arendt (1967), a partir da concepção aristotélica de verdade, evidencia que embora o fato em si seja a matéria bruta da verdade, esta só se realiza entre pessoas, depende de ser enunciada e, por isso, não existe fora da comunição. A constatação da verdade é exterior a ela; reside na correspondência entre o fato e o que foi dito, na ação, na relação entre as pessoas, logo, é política por natureza:

A verdade de facto [...] diz respeito a acontecimentos e circunstâncias nos quais muitos estiveram implicados; é estabelecida por testemunhas e repousa em testemunhos; existe apenas na medida em que se fala dela, mesmo que se passe em privado. [...] Ainda que se deva distingui-los, os factos e as opiniões não se opõem uns aos outros, pertencem ao mesmo domínio. Os factos são a matéria das opiniões, e as opiniões, inspiradas por diferentes interesses e diferentes paixões, podem diferir largamente e permanecer legítimas enquanto respeitarem a verdade de facto. (ARENDT, 1967, p.11).

No cotidiano dos diários o ato de falar/ expressar/ denunciar/ questionar é central e prioritário, o espaço da rede social é antes de tudo um espaço de comunicação, por isso ter posse da verdade é uma forma de permanecer com o direito de falar e de ser visto/lido/ouvido. A validade do discurso, nesse caso, é fortalecida pelo suporte imagético associado à insatisfação expressa em testemunhos pessoais e ancorada no reconhecimento de internautas que compartilham ou compartilharam em algum momento das mesmas condições, ou seja, é a soma desses elementos que atribui sentido e respalda a divulgação de tal verdade.

Mas não há um discurso único, embora existam discursos dominantes. Seguramente, com base na estrutura escolar tal como conhecemos, podemos afirmar que não é a voz do estudante a principal, pois no contexto disciplinar da instituição, como vimos, o estudante está em formação para vir a ser. Enquanto esse ciclo não se encerra, há representantes – pais, professores ou responsáveis – que por eles falam. Quando esses estudantes insistem em mudar o foco e expõem outro viés sobre uma determinada questão, trazem à tona elementos apresentados como periféricos, ou mesmo ignorados. Em outras palavras, estão dizendo que na realidade a visibilidade e a discussão desses dados são essenciais para a reversão de um

status quo muitas vezes opressor, incoerente. Dessa forma, criam um lugar de resistência,

estabelecem um território de disputas.

Muitos gestores – sejam os que definem as políticas públicas, sejam os que as executam em seus diferentes níveis – que publicizam suas ações por meio de documentos, indicadores e estatísticas, afirmam que os investimentos em educação e infraestrutura escolar

nos últimos anos no Brasil são crescentes, que nunca se viu tantas crianças, adolescentes e jovens com acesso à escola, principalmente se comparados a governos anteriores19.

Esclarecem, ainda, que o que não é feito não depende diretamente do executor, mas de repasse financeiro, previsão orçamentária, burocracia nos trâmites legais etc. Independente do viés da justificativa, essas argumentações não são desprezadas, pois, são fruto de um discurso institucional, tido como oficial, alguém que fala em nome da instituição e que por ela está amparado. Há aqui a chancela da autoridade governamental.

[...] Ano passado convocaram reuniões de urgência, elegeram todos os membros inclusive com suplentes e até agora nada, acho que isso reflete bem como funciona o serviço público. Quando são cobrados não gostam, se ofendem, ficam magoados, fingem que vão fazer as coisas, mas acabam por não fazer nada e tudo continua igual como antes. Que a diretora não tem competência para o cargo, para fazer as coisas mudarem, isso ela já cansou de provar e ninguém cobra nada dela, apenas eu. (D1, 29 de julho de 2013).

Se o que é verdade para um sujeito não o é necessariamente para outro, tal sentença será sempre relativizada a partir dos lugares ocupados pelos sujeitos envolvidos e das relações estabelecidas entre eles, neste caso: estudantes, professores, diretores de escola, gestores públicos, pais ou responsáveis. Para Foucault (1993), as formações enunciativas serão consideradas falsas ou verdadeiras a partir dos contextos que as regem e dos dispositivos de poder que as tornam satisfatórias. Ou seja, a busca pela verdade é, em outras palavras, a construção de uma trajetória que sanciona o discurso e o torna válido, a busca pelo poder de falar aquilo que deverá aceito.

Mas, a depender do ponto de partida e das fontes selecionadas, é comum encontrarmos várias verdades ou, em outros termos, muitas contradições. A esse respeito, Arendt pondera que é no exercício da opinião e da interpretação que as contradições são trabalhadas – mas não anuladas – e a verdade encontra legitimidade. Nesse sentido, a interpretação e a opinião se constituem como uma forma de reorganização dos fatos segundo um entendimento específico. (SILVA, 2012).

19 O Demonstrativo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino (MDE) Federal, fornecido pela Secretaria do

Tesouro Nacional (STN), apresenta dados sobre o crescimento dos investimentos públicos em educação entre os anos de 2000 e 2012. Disponível em: http://portal.inep.gov.br/estatisticas-gastoseducacao-mde- demo_mde_federal. Acesso em: 24 jan. 2014.

Em relação aos feitos do atual governo, em entrevista recente ao “Café com a Presidenta”, programa de rádio da Presidência da República, Dilma Rousseff afirmou que o governo federal já entregou aproximadamente 1.300 creches e que outras 3.100 estão em construção. As escolas públicas em tempo integral devem chegar a 60 mil ainda esse ano, mais de 17 mil ônibus transportam crianças, adolescente e jovens até suas escolas e 300 mil professores alfabetizadores estão matriculados em cursos de formação. Disponível em:

http://www2.planalto.gov.br/imprensa/cafe-com-a-presidenta/document.2014-01-06.1916606064. Acesso em: 24 jan. 2014.

Essa atitude de retomar o Diário de Classe é resultado de debates e articulações com algumas pessoas que, assim como eu, desejam uma boa educação e derrubar as máscaras e fantasias da diferença entre o que se diz e o que realmente é. É a hora de colocar as cartas na mesa e ver essa instituição escolar além dos portões e muros. (D5, 4 de junho de 2013).

De tal modo, podemos considerar que o retrato feito pelos diários sobre suas escolas é potencialmente replicado na busca por um retrato da realidade da escola e da educação pública brasileira e a razão de ser de comunidades como estas encontra respaldo na distância que há entre a compreensão delas a respeito de como suas escolas deveriam ser e como, de fato, são. “A realidade, porém, é que nos acostumamos a viver em dois planos, o real com

suas particularidades e originalidades e o oficial com seus reconhecimentos convencionais de padrões inexistentes. Continuamos a ser, com a autonomia, a nação de dupla personalidade, a oficial e a real”. (TEIXEIRA, 2000, p.18).

3.3 A ESTRATÉGIA DOS DIÁRIOS DE CLASSE VIRTUAIS: O