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Capítulo 3 - Resultados

4. Relaciones con la institución

4.4 Falta de recursos

Afirmei no decorrer da dissertação que o curso de Educação Física é a mais recente licenciatura da UFPA/campus do Guamá. Portanto, seu projeto político-pedagógico não foi re-elaborado, mas elaborado e implementado a partir de 2006.

Conforme apresentei, no seu desenho curricular existem diversos momentos em que as pessoas com necessidades educacionais especiais são temas de discussão em diferentes disciplinas, o que faz com que, de acordo com a fala do coordenador

[...] Eles vão ter desde o primeiro semestre, e no segundo semestre muito mais forte, esse convívio, inclusive indo a campo. Em estudos antropológicos, eu não sei como o professor está fazendo agora, mas foi planejado pra que eles fizessem visitações em lugares que trabalham com educação inclusiva, tanto na perspectiva do esporte, como em outras dimensões, caso isso já aconteça aqui em Belém. Então eles já estão fazendo uma discussão teórica e minimamente uma prática já no segundo semestre. (grifo meu)

Dessa fala posso depreender que a perspectiva de formação do curso de Educação Física vai ao encontro da proposição de Costa et al (2006) ao afirmarem a necessidade de que a discussão sobre os alunos com NEE perpasse todo o currículo de formação. Por outro lado Gândara (2004, p. 180) chama atenção para o fato de que “diversos cursos de licenciatura [em Educação Física] optaram por preparar o professor generalista, e o elenco que os compõem verifica-se grande ênfase aos conteúdos de modalidades esportivas [...]”. A autora continua afirmando que

esse profissional generalista acaba acreditando nas possibilidades de que o corpo de conhecimento a que foi submetido fornece-lhe competência e aptidão para trabalhar com atividades relacionadas à saúde, gerenciamento de esportes e recreação, treinamentos atléticos, [...], Educação Física para pessoas portadoras de deficiência, [...].

Não é minha pretensão aprofundar uma análise sobre a constituição que o curso apresenta, por outro lado, não posso perder de vista que os assuntos referentes às pessoas com NEE nas várias disciplinas do curso se colocam em função de um campo de trabalho proeminente, os esportes para-olímpicos.

O campo de atuação do professor de Educação Física vai para além do ambiente escolar. De acordo com seu projeto político pedagógico (2006, p. 12) o profissional de educação física

atua como autônomo e/ou em Instituições e órgãos públicos e privados de prestação de serviços em atividades físicas, desportiva e/ou recreativa e em quaisquer locais onde possam ser ministradas atividades físicas, tais como: instituições de administração e prática desportiva, instituições de educação, escolas, empresas, centros e laboratórios de pesquisa, academias, clubes, associações [...].

Ora, se de acordo com Sacristán (1998) no processo de seleção dos conteúdos, os currículos também experimentam pressões do mundo do trabalho e hoje, com o processo de inclusão as pessoas com necessidades educacionais especiais conquistaram o direito de ter acesso, além da educação, ao lazer, ao esporte entre outros, é quase que inevitável que o curso de Educação Física se organize para esse fim.

Assim, quando o coordenador do curso foi questionado sobre quais argumentos foram utilizados para garantir a inclusão de conteúdos ou disciplinas voltados às pessoas com NEE a resposta foi bastante objetiva.

Na área da Educação Física, um dos universos de atuação do profissional é com a educação inclusiva, em duas dimensões na verdade. A dimensão que é mais visível é a dos esportes Para-Olímpicos – que é uma dimensão muito forte na nossa área –, daí a necessidade dos professores trabalharem com isso nos esportes, que é um dos saberes da Educação Física [...]. A outra idéia que foi discutida e também trabalhada é dessa idéia de inclusão não só relacionada ao esporte, mas à educação como um todo mesmo [...]. Então fizemos a discussão pensando em duas questões: uma que é o mercado de trabalho, que é algo muito forte, e o outro que é garantir mesmo, enquanto direito do cidadão, o nosso acadêmico ter formação para trabalhar com pessoas nessa perspectiva. (COORDENADOR DO CURSO DE EDUCAÇÃO FÍSICA)

Complementado o raciocínio, o coordenador enfatiza que:

Então foi debatido isso e se identificou claramente que é uma área de

trabalho. Daí, na formação mais contextualizada e mais globalizada do

nosso aluno, se pensou que de fato era necessário trabalhar essa

perspectiva voltada ao esporte. (COORDENADOR DO CURSO DE

EDUCAÇÃO FÍSICA, grifo meu)

O trabalho com pessoas com NEE, nesse caso, exige que os futuros professores, que não têm apenas as escolas como campo de atuação, precisem deter conhecimentos referentes à

fisiologia, ao desenvolvimento, entre outros específicos à compreensão do funcionamento do corpo.

Assim, conforme afirmou o próprio coordenador do curso, os licenciando desenvolverão competências e terão conhecimentos para lidar com as pessoas com NEE o que não garante que eles tenham competência para consolidar uma práxis inclusiva.

[...] esse aluno [está se referindo aos licenciandos] vai conseguir pelo menos trabalhar com essas pessoas, se ele vai conseguir trabalhar com educação

inclusiva mesmo a gente não sabe, porque hoje não é uma realidade, mas

que ele vai conseguir trabalhar com NEE, vai. (grifo meu)

É importante considerar que essa fala do coordenador evidencia dois aspectos muito interessantes: 1- a clareza de que na preparação do professor para trabalhar com a inclusão não é suficiente apenas informações sobre pessoas com NEE; 2- a certeza que de alguma forma eles estão preparando profissionais para trabalhar com grupos de pessoas que possuem algum tipo de deficiência, em espaços específicos e adequados a uma modalidade esportiva adaptados às pessoas com NEE.

Nesse sentido, com certeza os licenciados em Educação Física terão competências para trabalharem com os alunos com NEE, mas até que ponto terão competências para incluírem os alunos com NEE em atividades compartilhadas com os alunos ditos normais? É por isso que Bueno (1999) afirma que só a inclusão de conteúdos não garante a preparação do professor para trabalhar em escolas inclusivas. É necessário um conjunto de condições, tais como evidenciamos na seção anterior.

O curso de Educação Física, de acordo com seu projeto político-pedagógico se propõe em formar professores reflexivos, pesquisadores e define como algumas das competências do futuro professor

Desenvolver atitudes de acolhimento e trato da diversidade; Compreensão sobre o desenvolvimento da criança e do adolescente, aí incluídas as especificidades dos alunos portadores de necessidades educativas especiais; [...]. (PPP DE EDUCAÇÃO FÍSICA, 2006, p. 21)

Tal qual prescreve a redação dos incisos II do Art. 2º e do inciso II do § 3º, Art. 6º, respectivamente.

É válido ressaltar que mesmo o curso de Educação Física que tem toda uma estrutura curricular favorável à preparação de professores que venham a desenvolver competências e

habilidades para trabalhar com alunos com NEE ainda considera a inclusão nos espaços escolares uma utopia.

[...] hoje ela [a inclusão nas escolas regulares de ensino] não é uma realidade, ela é quase uma utopia na nossa área. (COORDENADOR DO CURSO DE EDUCAÇÃO FÍSICA)

Essa afirmativa é justificada da seguinte forma:

[...] o que tem acontecido na Educação Física, historicamente falando, é que você acaba montado turmas específicas, e isso aí não é educação inclusiva. Então o que está se perspectivando é como vai ser esse aspecto pedagógico, como é que vai se fazer para que de fato seja inclusiva lá na escola. Porque o que acontece muitas vezes é que os próprios alunos, que estão enquadrados nessa dimensão, ele pede dispensa e é dispensado, então nem mesmo freqüenta a aula. [...] se faz educação física faz em outro espaço.

No entanto, essa questão das especificidades e dispensas típicas na disciplina Educação Física concorrem hoje com o novo ideal de educação, levando o professor a planejar ações que integrem alunos com e sem limitação física, fazendo do trabalho específico, complementar ao que se desenvolve nas escolas. Assim, é importante que o curso não perca isso de vista. Pois, na mesma proporção que o esporte é uma forma de inclusão social, a escola inclusiva também é.

Ao que pude observar o curso ainda está vivenciando o liame entre a formação do professor de educação física para trabalhar em escolas e a formação do professor de educação física para trabalhar com os esportes. É interessante, nesse momento apresentar duas falas significativas do coordenador do curso referentes às disciplinas que tratam sobre alunos com NEE e inclusão:

Esses fundamentos [está se referindo aos fundamentos da Educação Inclusiva] seriam a princípio [da responsabilidade] de alguém do Centro [de Educação], da Pedagogia, mas a gente está com a idéia de conseguir fazer um de nós mesmo [da Educação Física] [...] da gente conseguir trabalhar a dimensão específica da nossa área, porque se ficar no universo da Pedagogia, pra trabalhar essa dimensão só o pedagogo, ele não teria essa perspectiva de abarcar no esporte e talvez perca essa potencialidade [...]

Porque a gente está, na nossa perspectiva, vendo a educação por esse universo e perpassar várias disciplinas, ela está em vários momentos no projeto-pedagógico.

Parece que ainda existe no curso de Educação Física uma indefinição sobre o papel da inclusão no seu currículo, apesar de que a discussão sobre ela, especialmente sobre as pessoas com NEE, ter estado presente no processo de elaboração do projeto político-pedagógico e curricular.

Nesse sentido, concordo com a afirmativa de Goffredo (2004, p.6) ao defender que

Para atender aos reclamos de uma educação inclusiva é necessário que os cursos de formação de professores repensem a natureza de seus currículos e programas e as suas práticas, tendo como meta fundamental o ser humano que se deseja formar. É necessário registrar que essas mudanças não podem ser isoladas, devem estar integradas ao núcleo de uma política educacional, cujo objetivo seja alcançar a verdadeira democracia através da emancipação de todos os homens, consequentemente uma educação crítica, para a transformação e para a resistência.

Complementando essa assertiva me aproprio das idéias de Rocha (2006, p. 46) ao afirmar que:

A formação de profissionais em nível superior deve fazer da trajetória do aluno nas universidades não apenas uma espécie de antecâmara de postos de trabalho (ou desemprego), mas uma experiência vicária que, se não tem sentido por si só, ganha significação na medida em que supera o treinamento em termos de mobilização de saberes e conhecimentos e coloca a relação teoria/prática acima da lógica do mercado e do individualismo excessivo.

Apesar de toda a peculiaridade que observei na organização curricular do curso de

Educação Física, vinculado intrinsecamente seu currículo a uma necessidade de preparação de professores para um novo campo de trabalho, a proposta de formação por ele pensada concorre para uma qualificação efetiva de futuros professores que terão mais propriedade em lidar com as especificidades das pessoas com NEE, com o risco de efetivar muito mais uma prática da integração do que da inclusão. Por outro lado, os conhecimentos teóricos, sejam eles do campo da fisiologia, anatomia, ou de outras áreas afins, podem se articular aos conhecimentos práticos, procedimentais e atitudinais e dessa forma contribuir para a efetivação de ações inclusivas dentro dos espaços educacionais.

No entanto, se a inclusão, mais do que intenção é um paradigma de ação, a análise do currículo formal não dá conta de responder ao que, de fato, o curso tem desenvolvido: a

integração ou a inclusão? Assim, só pela análise do currículo moldado essa questão poderá ser minimamente respondida, pois, a resposta mesmo, só teremos quando estes alunos estiverem como professores nas escolas de Educação Básica.