Outro dado significativo vindo da experiência pessoal das professoras participantes da pesquisa é que todas têm alguma relação com membros mais jovens filhos, sobrinhos e alunos que funcionam como impulso para aquisição de novos conhecimentos. As novas gerações trazem para as famílias e para o contexto escolar a possibilidade de renovação, fazendo com que as professoras se reciclem, sua presença afetiva favorece o aprendizado das novas ferramentas que vão surgindo, os mais jovens as apoiam em suas empreitadas. Por terem essa experiência, podem ser capazes de considerar como válido o conhecimento dos alunos e, sobretudo, não os veem como uma ameaça, mas como parceiros na construção de conhecimento.
Yuri não é alfabetizado, mas ele domina muito bem as tecnologias. Eu estava na sala de aula e escutei uma música tocar, E disse quem está com o celular ligado? Ele disse – sou eu professora. Eu disse traga aqui para eu ver... estava com a música de Justin Bieber, essas mais novas. Eu disse olha, desligue, depois a gente brinca. Ele disse – não professora, vamos fazer o seguinte, ative o bluetooch do seu celular que eu envio do meu pro seu a música... Aí eu quis testar a inteligência dele. Eu disse pronto ativei o meu, pois envie a música! Ele lá sentado na cadeirinha dele (acompanha gestos de teclar) mexendo, mexendo, mexendo, mexendo, enviou. – Recebeu professora a música? Bota aí pra tocar – eu fiquei assim olhando... Ele não é alfabetizado, mas ele mexe no celular tudo, ele sabe colocar a música, ele sabe ligar a câmera, ele sabe enviar. Nem todo mundo sabe fazer isso hoje né? Eu fiquei incrível com a inteligência dele! Todo dia ele chega com uma novidade no celular pra me mostrar, porque ele ta muito atualizado com a tecnologia. Eu tô vendo que ele já ta conseguindo ler alguma coisa e utilizando isso na sala de aula... os amiguinhos ficam encantados vendo que ele já sabe mexer no celular. Eu gostei muito porque isso ta fazendo cada vez mais ele aprender, é jogo, é música, é câmera, tudo ele já domina. Quando eu levo a minha câmera ele sabe bater fotos, ontem ele bateu umas fotos na turma da gente, eu deixei ele bater por que? Porque ele já sabe ele colocar o zoom, ele tira, ele aproxima a imagem e bate direitinho porque ele domina tudo e se a gente não dominar as crianças vão ganhar pra gente. (Suely, depoimento oral)
O depoimento dessa professora mostra a sua abertura para o desempenho de seu aluno com o celular, e não se intimida com ele, pelo contrário, o estimula a usar mais essa mídia oferecendo a ele a oportunidade de experimentar outras mídias. Ao mesmo tempo em que se admira da capacidade da criança, ela
não o vê como um gênio mirim. Suely reconhece que seu aluno está em processo de alfabetização e que a sua facilidade de lidar com as novas tecnologias reflete potencialidades que podem auxiliar em outros desafios que o menino ainda precisa conquistar como, por exemplo, a aquisição da escrita. Então ela parece perceber que ao proporcionar oportunidades de outras leituras para além da palavra, seu aluno amplia seu repertório de possibilidades de leituras, e que outros tipos de leitura (como a da imagem), colaboram para a leitura da escrita.
Muitas vezes, o argumento de que os o conhecimento das novas gerações sobre tecnologia é maior que o dos professores é utilizado para justificar a dificuldade dos docentes em trabalhar com as mídias na escola. Para o pesquisador David Buckingham (2009) essa é uma falsa percepção da realidade:
As pessoas têm essa questão sobre mídia, as crianças são experts as crianças sabem tudo e particularmente sobre mídia digital. Eles falam sobre nativos digitais, geração digital e de como as crianças sabem tudo e nós não sabemos nada e que estamos correndo para acompanhá-las e para mim isso é apenas uma visão sentimental romântica. Sim... existem coisas que as crianças sabem que nós não sabemos, mas também penso que há coisas que nós sabemos que eles não sabem. Então qual é o sentido da educação? a mim me parece, como professor de mídia, que eu posso oferecer para as crianças perspectivas críticas, eu posso oferecer ferramentas criticas para que eles possam julgar o mundo, eu tenho um conhecimento que eles não têm ...sim?... e é isso que faz a diferença nessa e em outras áreas. 65
Buckinghan questiona as implicações mercadológicas que envolvem a compreensão das mudanças no contexto da educação, e insiste que isso não autoriza o argumento de que os alunos lidam melhor com as tecnologias que os professores como causa dos males escolares. A esse respeito diz que há coisas que realmente os alunos sabem mais que os professores na área de mídias digitais. No entanto, há conhecimentos que o professor possui e que a criança por mais expert que seja no manuseio das mídias não tem e é no diálogo entre esses conhecimentos que a educação acontece:
Se você pegar uma área... vamos dizer jogos de computador ...sim?... Você terá que crianças que jogam esses jogos de
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Este trecho como o próximo são de entrevista realizada com David Buckingham, no Centre for the
Study of Children, Youth and Media, Londres, em setembro de 2009 como parte das atividades desta
computador cinco horas por dia, eles sabem tudo sobre O grande roubo 3 [...]. Eu como professor não conheço e nunca conhecerei [esse jogo] porque como professor eu quero ter vida, eu não quero passar minha vida jogando jogos de computador, mas eu como professor tenho algumas perguntas críticas que os farão entender e [discutir] como pensar sobre o que eles fazem sistematicamente e criticamente sobre suas experiências. Eu suspeito que eles não sabem muito sobre quem é o dono dos jogos de computador, eles sabem mesmo como os jogos de computador são produzidos? Há vários tipos de conhecimentos críticos aqui que as crianças não têm, mesmo eles sendo experts. Eu penso que há um diálogo, que eu preciso respeitar sobre o conhecimento que eles têm, mas eu também tenho o meu conhecimento. Isso é o que a educação é.
A fala de Buckinghan nos remete ao pensamento de Paulo Freire, quando valoriza o respeito e dialogicidade entre os saberes de professores e alunos, ao mesmo tempo em que enfatiza o papel inalienável do professor de estimular o pensamento crítico na criança. Isso certamente requer que a formação do professor ofereça subsídios para trabalhar também de forma crítica. Requer uma formação que auxilie a refletir a respeito das transformações ocorridas com a participação das mídias na sociedade e mais particularmente no âmbito educacional que não se atém às técnicas, mas às aprendizagens que podem ocorrer no contato com elas.
Nos depoimentos das professoras, foi possível encontrar esse romantismo descrito pelo pesquisador inglês, considerando a facilidade que as crianças têm de se apropriarem das linguagens midiáticas ou ainda através do encantamento com as mídias como necessariamente agregadoras de qualidades positivas para a educação. Também apresentaram uma postura de acolhimento da relação com esse novo perfil do público escolar e de busca de lidar com essa nova realidade. Uma postura importante para que o estudo das mídias supere os mitos e se abra para uma perspectiva emancipatória que convida ao exercício diário e constante de análise crítica da realidade.