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Em seu livro, “Sociopoética: encontros entre arte, ciência e democracia na pesquisa em ciências humanas e sociais, enfermagem e educação”, Jacques Gauthier (1999) aponta a Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire (1987) como o coração da sociopoética.

Mas o que Gauthier (1999) teria percebido em Paulo Freire (1987) capaz de fazer pulsar e nutrir todos os tecidos da pesquisa sociopoética? Acredito que a seguinte afirmação oferece indícios sobre essa questão: Quanto mais investigo o pensar do povo com ele, tanto mais nos educamos juntos. Quanto mais nos educamos, tanto mais continuamos investigando. (FREIRE, 1987, p. 120)

É na crença nos saberes existentes no povo, em sua cultura e seus desejos de transformação que Gauthier (1999) expõe a influencia radical da pedagogia dialógica de Freire (2001). A sociopoética (PETIT, 2002) tem no círculo de cultura a origem do método do grupo pesquisador, pois Freire (1987) entendia que as pessoas possuem saberes construídos nas tessituras de seu cotidiano e, por isso, não importa o grau escolar, ou suas características econômicas, o povo não se constitui em uma massa a ser simplesmente instruída por acadêmicos ou políticos.

65 Assim, para Gauthier (1999), qualquer processo educativo e, desse modo, de pesquisa deve e pode criar condições favoráveis para que o grupo participante transite de grupo objeto para sujeitos da pesquisa. Sujeitos aqui assume um sentido mais próximo de autores, de artesãos/ãs, inventores de saberes do cotidiano e, principalmente, de novos conceitos. O método do grupo pesquisador na sociopoética (PETIT, 2002) segue as propostas gerais do círculo de cultura no qual:

Freire propõe o círculo de cultura enquanto mecanismo de construção coletiva do conhecimento, através da constituição de um grupo pesquisador formado por especialistas e gente comum, que juntos investigam um tema gerador visando formular o conteúdo programático da ação educativa. (PETIT, 2002, p. 03)

O grupo deve possuir, consequentemente, condições favoráveis ao diálogo. Tal busca deve ser cultivada pelo ‘facilitador’ da pesquisa e pelos co-pesquisadores que são convidados a co-facilitar relações mais dialógicas no processo grupal vivenciado.

Um diferencial e contribuição da sociopoética para o círculo de cultura é o “efeito caleidoscópico” da dimensão do corpo no diálogo pronunciador do mundo. (PETIT, 2002). Segundo Correia (2009), a partir de uma vivência do círculo de cultura sociopoético:

A contribuição da sociopoética com o princípio de que todos os saberes são iguais em direito e que o corpo pensa e produz conhecimento potencializou o círculo de cultura ao permitir outras possibilidades de olhar, de criar. (p. 02)

O corpo abre caminhos para a sensibilidade na construção coletiva do conhecimento. Algo, de certa forma, presente em Freire, em suas expressões da amorosidade do diálogo e do querer bem aos educandos como exigência do ato educativo. A amorosidade, para Freire (1987), constitui-se no fundamento do diálogo. E essa quase essência da dialogicidade para assunção não só de sujeitos, mas de um mundo no qual e com o qual pronunciam em outras palavras: “Não há diálogo, porém, se não há um profundo amor ao mundo e aos homens. Não é possível a pronuncia do mundo, que é um ato de criação e recriação, se não há amor que a infunda” (FREIRE, 1987, p. 93- 94).

Essa concepção de diálogo não nega o conflito, mas, pelo contrário, surge a partir dele. Por isso, a ele convergem aspectos distante do racionalismo da modernidade:

Ao fundar-se no amor, na humildade, na fé nos homens, o diálogo se faz uma relação horizontal, em que a confiança de um pólo no outro é

66 conseqüência óbvia. Seria uma contradição se, amoroso, humilde e cheio de fé, o diálogo não provocasse este clima de confiança entre seus sujeitos. Por isto inexiste esta confiança na antidialogicidade da concepção “bancária” da educação. (FREIRE, 1987, p. 96)

Há outros momentos e exemplos da amorosidade e da afetuosidade nos escritos de Freire (1987, 2001) sobre a educação. O querer bem aos educandos e ao próprio ato educativo sinaliza a presença dessas dimensões em seu pensamento:

Na verdade, preciso descartar como falsa a separação radical entre a seriedade docente e afetividade. Não é certo, sobretudo do ponto de vista democrático, que serei tão melhor professor quanto mais severo, mais frio, mais distante e “cinzento” me ponha nas minhas relações com os alunos, no trato dos objetos cognoscíveis que devo ensinar. A afetividade não se acha excluída da cognoscibilidade. (FREIRE, 1996, p. 159- 160)

Se por um lado, Freire (1996) reconheceu a falsa polarização entre afeto e cognição, por outro, a sociopoética introduziu o corpo no processo dialógico do círculo de cultura:

(...) ao descentralizar o processo de produção do conhecimento do alto do corpo, a cabeça, onde se localiza o cérebro, para as demais partes do corpo. Ou seja, o conhecimento é apreendido e produzido com o corpo todo, com os braços, as pernas, os sentidos, os gestos, as expressões, o ritmo etc, o pensamento. (UMBELINO, 2001, p. 44) Soma-se a isso, a integração da aprendizagem científica com a expressividade artística que na sociopoética imprime a escolha de técnicas que sejam favoráveis ao diálogo em sua imprevisibilidade e seu estranhamento: “A sociopoética espera que a técnica escolhida seja potencialmente geradora de dados não previsíveis, que permitam tocar na afetividade e o inconsciente envolvidos no pensamento” (PETIT, 2002, p. 12).

Isso repercute na acepção da riqueza do conhecimento a emergir não de situações familiares e seguras, mas de situações que desafiem os seres humanos e sua dialogicidade, situações-limites (FREIRE, 1987) que:

Revelam-se, assim, como realmente são: dimensões concretas e históricas de uma dada realidade. Dimensões desafiadoras dos homens, que incidem sobre elas através de ações que Vieira Pinto chama de “atos-limites” – aqueles que se dirigem à superação e à negação do dado, em lugar de implicarem na sua aceitação dócil e passiva. (FREIRE, 1987, p. 106)

O zelo sociopoético com o corpo e a criação artística tem origem na perspectiva da Esquizo-análise que destaca os diversos modos de homogeneização de nossa

67 sociedade. Dessa forma, nosso viver é permeado de tendências padronizantes as quais enrijecem nossos saberes e a nós mesmos.

Por outro lado, conforme assinala Petit (2002), a mesma diversidade de agenciamentos que criam tendências homogeneizantes, produzem linhas de fuga dessas cristalizações. É o devir, aquilo que escapa nesses processos de subjetivação, como um cantor a inventar uma melodia ou letra musical destoante e “destronante” dos modelos consolidados socialmente. Assim, o círculo de cultura sociopoético instiga as dimensões corporais e artísticas do grupo pesquisador, pois acredita que reside nesses elementos a fertilidade, embora ainda incerta, de surgimentos de devires acerca do tema da pesquisa.