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1.3 Datagrunnlag

1.3.2 Datakilder, tidsavgrensninger og fremgangsmåte

Na época em que eu trabalhava na coordenadoria na prefeitura e em boa parte dessa pesquisa se deu, o Conselho do OP já apresentava a presença de conselheiros/as crianças, adolescentes e adultos. Partilharei agora, então, alguns acontecimentos em minha experiência profissional no OP relevantes para o despertar sobre as relações e que me fizeram optar por realizar uma pesquisa intergeracional sobre o tema participação.

Assim, ao ingressar no orçamento participativo, um dos espaços no qual estive próximo, até pela sua relevância dentro do ciclo do Orçamento Participativo, foi o COP. Um conselho marcado pela peculiaridade da participação de crianças, adolescentes e adultos com os mesmo direitos de voz e voto.

Desse modo, foi que, progressivamente, pude me deparar, ora com os relatos de alguns profissionais ou delegados/as do Orçamento Participativo, positivamente surpresos acerca da participação das crianças e adolescentes, ora com questionamentos sobre as formas dessa participação e a relevância ou não de sua presença no Conselho do OP.

Na medida em que me inseria nas reuniões do Conselho do OP, pude entrar em contato com indagações a respeito do OPCA. Para ilustrar, alguns Conselheiros/as adultos/as passaram a questionar a competência de uma criança em um momento de votação (se eram guiadas por uma decisão própria e consciente de suas motivações, ou se estavam apenas imitando ou até sendo manipuladas por outros conselheiros). Neste

34 caso, uma incapacidade das crianças, e, para alguns, também dos adolescentes, para decidir algo sobre a cidade.

Havia outras questões: não seria um ambiente prejudicial à sua educação? Pois, segundo eles, as crianças presenciam os conflitos, as vezes acirrado, entre população e prefeitura. Também se questionava o horário noturno das reuniões, será que não tornaria o processo mais cansativo para as crianças? Já que em dados momentos não se mantém mais sentadas ou teriam até dormido no final de uma reunião?

A criança a ser protegida daquilo que pode corrompê-la e a ser disciplinada no modelo da reunião ou convidada a se retirar. O principal é que em ambos os casos, crianças e adolescentes não parecem ser tratados como atores, com voz própria, mas como público a ser cuidado, sem voz. Uma voz do futuro e não do presente. E os adultos, em sua maioria, não se perguntam sobre seu próprio modo de estar e o que poderiam fazer com as crianças.

Com o tempo, eu fui percebendo que as crianças possuíam também seus múltiplos e próprios modos de participação no COP e expressavam também afinidades, estranhamentos ou desacordos em relação às posturas de alguns adultos. Elas, inclusive, chegaram por vezes a questionar também os modos de participação entre si e dos considerados adolescentes.

Tais questionamentos eram feitos ora entre elas, ora, mais raramente, diante da plenária em situações mais específicas de discussão. E envolvia geralmente as dificuldades de relação entre os/as conselheiros/as, ou entre conselheiros/as e representantes da Gestão.

Compreendo que tais estranhamentos, curiosidades e afetos expressavam um contato entre gerações em um espaço e tempo, até então, eminentemente adultocêntrico.

Nesse sentido, os questionamentos gerados nos adultos e entre as crianças e adolescentes é algo passível de entendimento, pois como vimos, definida com uma negação, a infância, e também a adolescência, possuem linhas demarcadoras em nossa sociedade do que é apropriado ou não “para menores de 18 anos.

Esses contatos intergeracionais envolvem processos que podem levar a significações acompanhadas de estranhamentos, como o dos adultos diante das crianças em um espaço de decisão como o COP.

35 Uma estranheza necessária, sobretudo, para a possibilidade de reinvenção ou de mera repetição dessas relações entre gerações – de novos sentidos pessoais a surgir ou antigos a se reproduzir nesse contexto de participação.

Como clímax dos dilemas que repercutiam de diferentes modos entre os conselheiros/as adultos, crianças, adolescentes e entre nós, profissionais, houve a alteração da idade mínima para a eleição de conselheiros/as do OPCA, na Revisão do Regimento Interno do Orçamento Participativo em janeiro de 2008. Até então, a idade mínima para se tornar conselheiro/a era de 06 anos, e com a revisãoaumentou para 10 anos.

Essa decisão no COP se deu por múltiplas motivações. Alguns conselheiros/as, favoráveis à mudança, destacavam o ritmo das reuniões do COP, com alto teor de informações, grandes dilemas e decisões políticas. E as crianças com menos de 10 anos não teriam condições de acompanhar ou de opinar em tais aspectos.

Outros demonstravam uma falta de perspectivas em lidar com essas diferenças – as crianças. Houve conselheiros que defenderam a mudança por considerar uma forma de defender aquelas crianças da influencia de certas lideranças presentes no Conselho do OP.

Algumas características dessas referidas lideranças descritas pelos/as conselheiros/as do Orçamento Participativo: agiam com certo constrangimento (falar alto, olhar raivoso e amedrontador, palavras e gestos intimidadores), a auto-promoção (destacam suas habilidades, suas preocupações, sua luta, sempre o destaque para a primeira pessoa no singular: “eu”), mantinham uma relação com os demais participantes como objetos em disputa, os liderados ou pessoas incapazes de caminhar mais autonomamente.

Ao tentar proteger, os adultos acabavam legitimando essas mesmas práticas e mais uma vez, fazia-se presente a concepção moderna da criança como “não ser” e da política como algo para o varão adulto.

Entre os que afirmaram a permanência da idade de seis anos, inclusive crianças e adolescentes, no geral, afirmavam que era necessário alterar a “forma” das reuniões e/ou as atitudes dos conselheiros/as de maior respeito e diálogo entre si.

Tal acontecimento proporcionou, como resposta, uma série de reuniões por parte dos conselheiros do OPCA e da Coordenadoria do OP acerca dessa modificação no regimento interno.

36 Embora movidos por sentimentos diversos, havia, entre as crianças e adolescentes conselheiros/as e, nós da coordenação do orçamento participativo, um intuito comum de conversar com o conjunto de conselheiros/as do Orçamento Participativo sobre a importância em se repensar o formato do conselho e da presença de crianças e a volta à idade mínima de 06 anos. Essa mobilização e sensibilização levou meses depois o COP a rever sua decisão com a volta da idade mínima de 06 anos para o Conselho.

Dessa maneira, esses acontecimentos permitiram meu contato com as diferentes vontades e compreensões sobre o participar, principalmente no conflito de posições acerca da participação de crianças e adultos.

Isso reforçou a escolha do tema da participação para a pesquisa e da curiosidade sobre como seria realizar um processo investigativo sobre a participação permeado de diálogos (conflitos e contradições) entre crianças, adolescentes e adultos.

Como anunciação dos ecos desses desafios e dilemas da participação, partilho um poema de minha autoria que utilizei, na época em que ainda trabalhava no OP, como fonte de inspiração para um diálogo problematizador em uma atividade junto à equipe da coordenação de formação do OP que reflete algumas aprendizagens originadas dessa vivência:

Pelas estradas do nosso Ceará Já me tinham falado:

- “menino que se mete nas conversa dos adulto, É menino adiantado!

De castigo fica no quarto calado pra não se meter Naquilo que não é chamado!”

Já ouvi também aqui em Fortaleza Uma mãe dizer com muita firmeza: - Essa menina não pára quieta, eita bicha danada!

Eu não sei o que eu faço

Pra segurar essa menina, essa abençoada! Mas tem também quem ache o contrário:

Que desde criança já é necessário Ajudar em casa, com o seu trabalho.

E quando o menino faz as coisas Bem fácil e rápido: - ô menino bom, é superdotado! Mas quando não faz o que o pai mandou:

- eita menino, ave maria, Quem foi que tu puxou? Pra umas coisas é “pequeno” demais Pra outras “ já tá na hora de crescer meu rapaz!”

Tem as “coisas de adulto” que criança não faz Mas algumas trabalham até nos sinais

37 E tem pai de todo jeito:

Pai coruja, mãe do peito, Pai ausente, mãe sem zelo,

Separados, reunidos Com valores e defeitos.

É por isso que eu diria Que entre a criança e o adulto É o medo que nos deixa confusos: Medo do adulto com sua voz pesada

Medo da criança com sua risada A maior distância não está na idade Está nas palavras: “adiantados”, “abençoadas’...

Palavras que deixam mudas outras palavras Palavras que educam ‘mal-educadas”

E Pra terminar com essa falação Faço aqui uns versos sobre educação: Educar para a vida é da vida participar.

E participar ninguém nasce sabido: Vai crescendo o menino, vai crescendo bonito

Mas se participar, cresce sábio e nutrido! Cresce sua cabeça e seu coração Esquecendo o umbigo e estendendo a mão

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