7.2 Festivalen bygger lokalt samhold og tilhørighet
8.1.3 Facebook utvider det sosiale festivalrommet
O entendimento que se tem do processo saúde/doença e suas práticas é marcado pelos acontecimentos de um período social e histórico, se transformando ao longo do tempo, articulado também à retórica científica e adquirindo significados diferentes conforme a época. De um caráter mágico/religioso na pré- modernidade, a fé é trocada pelas técnicas objetivas da ciência moderna e, mais
contemporaneamente, o movimento pós-moderno tem questionado o modelo biomédico, trazendo novos discursos para o campo.
O fortalecimento do movimento pós-moderno e relativista, propondo um discurso menos objetivista e mais polissêmico, tem incentivado a promoção da alteridade e da multiplicidade, gerando mudanças na conjuntura tecno-científica da saúde. A produção de conhecimento nesta área tem questionado cada vez mais o “status quo” da tradição científica moderna que, no entanto, ainda se apresenta como discurso possível.
Estes questionamentos vão ocorrendo junto a transformações no perfil da saúde no Brasil como também no mundo, decorrente de todas estas mudanças sociais, econômicas e culturais já mencionadas acima. As mudanças se dão desde a estrutura etária da população até seu perfil epidemiológico, tornando necessária uma reorganização das práticas de saúde, num desafio à busca de outros entendimentos, menos fragmentados e mais condizentes com o novo contexto que se apresenta (LIRA; NATIONS; CATRIB, 2004).
Assim, de uma concepção mais normativa, a Saúde também vai se alterando na busca por outras perspectivas de ação, transformando seus discursos de saúde/doença, anteriormente mais tecnicistas e dicotômicos, em outros mais articulados a esses novos movimentos.
A mudança de perspectiva nos sentidos de saúde/doença traz uma reconfiguração da assistência à saúde e, por conseguinte, a necessidade de alteração em sua estrutura organizacional. Assim, abordando tanto o sistema quanto a pessoa numa abordagem mais sistêmica e relacional e menos individualista (CAPRA, 1982).
Um exemplo da forma como esses saberes têm convivido contemporaneamente no contexto da saúde brasileira, pode ser observado dentro do processo atual de reorganização do sistema, especialmente no que diz respeito aos níveis de atenção em saúde para a conformação de uma rede integral de assistência.
Com esta política de conformação de uma rede de atenção articulada nos seus três níveis, estabelecendo interlocuções entre si, diversas áreas do saber na Saúde, com entendimentos e práticas bastante diferentes, passaram a interagir mais diretamente. Assim, é possível observar a crise epistemológica e a briga pela verdade discutida nos tópicos anteriores.
Vivencia-se nesta interlocução, saberes desarticulados, conformando muitas vezes uma prática de atenção fragmentada. Algumas instituições de saúde já têm iniciado um movimento de trabalhar dentro da lógica de um saber mais contextual, múltiplo e coletivamente construído entre os atores sociais envolvidos, enquanto que outras operam preponderantemente dentro da lógica da ciência tradicional moderna – com práticas mais tecnicistas e descontextualizadas do cenário local que se apresenta.
Ofereço aqui um exemplo de um acontecimento que presenciei durante meu período de observadora participante no serviço de saúde, para dar visibilidade a estas considerações na prática cotidiana. Considero que se trata de uma situação que ressoa com o que estamos aqui falando.
Neste exemplo pontual, a unidade em que desenvolvi minha pesquisa, que funciona dentro da Estratégia Saúde da Família, vem tentando trabalhar numa proposta interdisciplinar, coletiva e mais integral, tanto no entendimento do sistema de saúde quanto do ser humano.
Nesta situação específica, alguns profissionais de diversas especialidades do hospital de referência desta unidade, organizaram um evento destinado à comunidade. Este evento consistia de um ciclo de palestras com diversos temas relativos à Atenção Primária à Saúde a ser realizado no próprio hospital.
Desta maneira, convidaram a unidade para realizar a divulgação, por serem um serviço de atenção primária e também pela unidade estar inserida nesta comunidade. O convite para participação chegou através de um ofício, informando a data do evento, as palestras e o nome dos palestrantes.
O oficio foi discutido no dia da reunião de equipe, gerando uma discussão sobre a lógica de atenção à saúde com que esta equipe vem tentando operar naquele espaço – uma lógica de construção de um processo coletivo, participativo, integrado e com planejamento ascendente. Dentro desta lógica, as palestras oferecidas pelo hospital deveriam ter sido formuladas e discutidas com a unidade de atenção primária e a comunidade deveria da mesma forma ser consultada sobre o evento, de forma a se constituir mais coletivamente, com envolvimento e co-responsabilização.
A atividade que o hospital estava oferecendo, ao contrário, chegou à unidade já com as datas das palestras, os temas e os profissionais, sem discussão prévia alguma com a unidade ou com representantes da comunidade.
Outra questão que gerou polêmica na reunião foi a realização da atividade ser no próprio hospital, distante do cotidiano das pessoas e com uma abordagem conteudista em forma de palestras, bastante diferente da forma com que a unidade vem tentando organizar suas atividades coletivas.
No entanto, apesar da controvérsia, a equipe decidiu por não questionar a iniciativa do hospital. Tal decisão foi tomada para não criar estranhamento nas relações entre os
dois níveis de atenção, pois os pressupostos abraçados na lógica de cuidado são tão diversos que poderiam trazer desentendimentos, atrapalhando futuras interlocuções.
O exemplo dá visibilidade para a convivência da diversidade de discursos na Saúde, que se compõem por diferentes epistemologias. Este exemplo apresenta duas lógicas bastante divergentes compartilhando um mesmo espaço de atuação. Uma lógica caracterizada como mais positivista, em que o discurso científico (do especialista) é o privilegiado e o foco está na patologia, portanto, justificando ter o profissional à frente na organização da intervenção e tomando como espaço privilegiado o hospital. E o outro discurso, se propondo a ser mais dialógico e interativo, levando em conta os diversos saberes (técnico e senso-comum) e compartilhando de uma visão mais complexa do processo saúde/doença/cuidado e, portanto, considerando a importância de uma intervenção construída coletivamente.
Nesta situação específica, a Unidade vai criando espaço para emergência do discurso pós-moderno enquanto que no Hospital parece predominar mais o discurso moderno. No entanto, a falta de articulação e diálogo entre estes diferentes níveis de atenção favorece a manutenção da hierarquia tradicional predominante, em que o Hospital é o espaço privilegiado de poder e saber, portanto, de decisão de como as coisas devem ser.
É importante que fique claro aqui que essas posições não são fixas, podendo se inverter a cada intervenção. As instituições de saúde não dizem por si só de suas práticas, mas são construídas no cotidiano das ações. Neste sentido, algumas áreas hospitalares têm feito o esforço de construção de intervenções mais contextuais e participativas, convergindo às necessidades dos seus usuários, ao mesmo tempo em que dentro da Estratégia Saúde da Família encontra-se profissionais com práticas ainda bastante tecnicistas e objetivistas.
Estes discursos convivem no mesmo tempo e espaço, havendo muitas vezes dificuldade de interlocução e negociação entre eles, afastando consequentemente os atores que fazem parte de um projeto muito maior – a sustentabilidade do SUS.
Esta afirmação é reconhecida por Burr (1998) quando aponta a diversidade de discursos que se apresentam no mesmo espaço. No entanto, estas questões dicotômicas presentes na saúde, assim como as trazidas por Burr (1998) na questão realismo/relativismo, ainda estão construídas sob a perspectiva moderna, por enfocar e criar separações. Se algo não é verdade, automaticamente é mentira, se não produz regularidades é irregular, se não é ideológica é estéril, se não é preto é branco, se não é realista é relativista.
A maneira como essas diferentes abordagens são colocadas em pauta tem criado um debate polarizado buscando respostas definitivas que não contribuem para o alcance de entendimentos e de construção de projetos comuns.
Para avançar nessa conversa, segundo Burr (1998), é necessário transcender a dicotomia, já que a questão que se apresenta é mais complexa e difusa do que simplesmente identificar realidade ou relatividade, verdade ou mentira. Para a autora tal dicotomia acaba por simplificar a questão, mantendo categorias e separatismos.
A proposta do sistema de saúde brasileiro é da construção de uma atenção à saúde universal, integralizada, eqüitativa e com a participação de todos os envolvidos. Para isso é necessário a construção de espaços de interlocução e a criação de ferramentas para o diálogo que não gere separações, mas que promova um projeto comum, que possa ser aprimorado mesmo em meio às diferenças que envolvem os mais diversos níveis de atenção à saúde.
3. A ciência – a perspectiva adotada