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An extension: a boundedly rational owner

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4. An extension: a boundedly rational owner

Coelho (1991a) afirma que a literatura maravilhosa provém de fontes muito antigas, de séculos antes de Cristo. Segundo a autora, estudos mostram que os textos, resultado de uma produção anônima e coletiva do povo, revelavam suas maneiras de ver e sentir a vida. Embora saibamos que os vestígios mais remotos têm sua origem em fontes orientais e célticas, não é possível determinar com precisão quais foram os primeiros textos, denominados “puros”.

Algo, porém, tornou-se evidente: teria havido um fundo comum a todas elas, pois de outra forma não se poderia explicar a coincidência de episódios, motivos, etc., em contos pertencentes a regiões geograficamente tão distantes entre si e com culturas, línguas e costumes absolutamente diferentes. (1991a, p. 17)

Muitos estudiosos apontam o oriente como o berço da fonte mais antiga da literatura popular maravilhosa do mundo ocidental, já que é de origem oriental a coletânea mais importante, intitulada Calila e Dimna e que, segundo Coelho (1991a), surgiu no século VI, na Índia, de cujas histórias resultam as narrativas de dois livros:

Pantshatantra (apólogos usados pelos pregadores budistas a partir do século V) e a epopeia indiana, Mahabarata (escrita entre os séculos IV a.C. e IV d.C).

O livro Calila e Dimna foi escrito em sânscrito, traduzido para diversas línguas e levado para diferentes lugares, difundindo-se pela Antiguidade, entre os séculos VI e XIII, por meio de suas diversas versões (persa, sírio, hebraico, latim, árabe e línguas vulgares).

Segundo Coelho (1991a), o livro tem como tema central a luta pelo poder e mostra exemplos de boa conduta, mas seu aspecto mais importante é a visão mágica do mundo, onde o real e o imaginário confundem-se, tornando difícil distinguir seus limites. Suas narrativas têm como eixo gerador a história de um rei da Índia que pede ao príncipe dos filósofos para lhe contar histórias que ilustrem uma situação exemplar. A partir daí, vão sendo apresentadas diferentes narrativas como fábulas e apólogos, e pelo menos duas delas - O Anacoreta e a Rata e Ilaz, Chadarm e Irakht - seriam as precursoras do conto de fadas.

Também foram encontrados manuscritos egípcios na Itália, mais antigos que a coletânea indiana, com idade calculada em cerca de 3.200 anos, com algumas narrativas semelhantes às indianas. Mas seguindo a diferenciação entre o conto maravilhoso e o conto de fadas, esses manuscritos estariam mais próximos deste, pois tratam de paixões e amores que podem trazer a realização ou a destruição do ser.

Ainda de acordo com Coelho (1991a), outra fonte indiana seria o livro de Sedenbar (ou O Livro dos Enganos das Mulheres), que também foi traduzido para diferentes línguas e cujas histórias se desenvolvem em torno do eixo paixão, ódio e sabedoria. Além dessa, outra fonte, As Mil e Uma Noites, mais conhecida atualmente, apresenta Sherazade, uma contadora de histórias. O livro foi completado no final do século XV, mas só chegou ao mundo europeu no século XVIII, quando Antoine Gallandi traduziu a obra para o francês, em 1704, época em que as fadas começavam a entrar na moda. Com suas 305 histórias traduzidas por Gallandi, “As mil e uma noites traziam a malícia e o alegre imoralismo dos antigos fabliaux franceses, porém com maior requinte ou finura” (COELHO, 1991a, p. 25). Assim, essas narrativas revelavam ao leitor uma cultura diferente da cristã.

Outra fonte comum das narrativas atuais vem do povo celta, que não tinha o espírito guerreiro e atuou em todo o processo de formação e transformação da cultura ocidental, com seus valores espirituais e sua inteligência prática e criadora. Foi

nas criações poéticas celtas que nasceram as mulheres sobrenaturais das quais se originaram as fadas.

Segundo Coelho (1991a), presentes no folclore europeu ocidental, as fadas são seres fantásticos ou imaginários, de grande beleza, que se apresentam sob a forma de mulher. “Dotadas de virtudes e poderes sobrenaturais, interferem na vida dos homens, para auxiliá-los em situações-limite, quando já nenhuma solução seria possível” (p. 31).

...na ilha do Sena, nove virgens dotadas de poder sobrenatural, meio ondinas (gênios da água) e meio profetizas, que, com suas imprecações e seus cantos imperavam sobre o vento e sobre o Atlântico, assumiam diversas encarnações, curavam enfermos e protegiam os navegantes (MANTOVANI, 1974 apud COELHO, 1991a, p. 32-33)

Quando essas mulheres sobrenaturais encarnam o mal, apresentam-se como bruxas. Ambas, fadas e bruxas mostram a dualidade da mulher nas histórias maravilhosas. Nos contos eslavos também aparece a antifada, chamada de Baba-Yaga, que é velha, feia, corcunda e vive em uma cabana na floresta.

A fada é a deusa-mãe-bondosa que protege e garante a felicidade para sempre. A bruxa é a deusa-madrasta-malvada que persegue e tenta impedir a realização da jovem. Ambas têm poder, mas o bem sempre é o vencedor, segundo a moral ingênua, por isso a felicidade está garantida. E a moral burguesa também. (MENDES, 2000, p. 94)

Durante a Idade Média, o conto de fadas continuou a ser transmitido, sendo que, nessa época, em terras do Ocidente europeu, começam a surgir dois tipos de literatura, uma culta e outra popular. Esta, durante os séculos IX e X, começa a circular, oralmente ou em manuscritos, e assim se espalhou, permaneceu viva durante muitos anos e é chamada hoje de literatura folclórica e literatura infantil.

Naquele período, as histórias tinham caráter moralizante e religioso e eram vistas como “atividade superior do espírito”. Coelho (1991b) ressalta que as histórias nascidas durante a Idade Média refletiam a violência vivida pelos narradores, um tempo em que era preciso ter a esperteza e a coragem de várias personagens das histórias para vencer algumas dificuldades da vida.

Não é difícil imaginarmos o que terá sido a violência do convívio humano nesse período medieval, quando as forças selvagens, opostas e poderosas se

chocam, lutando pelo poder. O fato é que as marcas dessa violência ficaram impressas em muitas narrativas ‘maravilhosas’ que nasceram nessa época. (COELHO, 1991b, p. 33)

Por isso, segundo Coelho (2003), é comum haver nos contos medievais personagens cruéis, como diabos e lobisomens. Também é possível encontrar marido que brutaliza a esposa (como em Grisélidis), pai que deseja a filha (Pele de Asno), miséria que faz com que o pai abandone seus filhos (João e Maria), gigante comedor de crianças (João e o Pé de Feijão) entre outros temas. Quando traduzidos e destinados para o público infantil, alguns autores como Perrault e os irmãos Grimm retiram os aspectos violentos presentes nos contos.

Assim, com o passar do tempo, a violência vai desaparecendo das histórias de acordo com o refinamento dos costumes da humanidade. Com isso, muitos contos perdem parte de sua agressividade original, como em Chapeuzinho Vermelho, em cuja primeira versão, escrita por Perrault, a menina e a avó eram devoradas pelo lobo e que, em versões posteriores, como a dos irmãos Grimm, são salvas pelo caçador que mata o animal.

Após essa breve retomada da origem dos contos, é importante discorrer sobre a relevância desse tipo de narrativa na construção do imaginário infantil. Afinal, que criança não sonhou em ser a Bela Adormecida ou não esperou a chegada do lobo na casa da vovozinha?