A MULTIPRODUCT INCUMBENT
2. A theoretical model
Coelho (2003) acredita que os contos de fadas estão longe de ser superados e precisam ser reconhecidos como nova fonte de conhecimento de vida. Para ela, essas histórias são verdadeiros auxiliares na formação dos indivíduos. Além disso, enfatiza que este é um momento propício para se voltar para o maravilhoso, onde o
homem busca o verdadeiro sentido da vida, buscando responder a pergunta “Quem sou eu?” Dessa forma, torna-se interessante voltar aos tempos onde o mítico dominava.
A autora mostra a relação dos contos de fadas com os mitos antigos e os arquétipos da mente humana, sendo que os primeiros explicavam o mundo para as pessoas que ainda não haviam desenvolvido a ciência, e o segundo está presente na mente de qualquer pessoa, independente do lugar e da época em que vive.
Os mitos e arquétipos são matéria-prima da literatura maravilhosa e os símbolos são as formas de linguagem que expressam e tornam comunicável a literatura. Mas no mundo dos mitos, dos arquétipos e dos símbolos não há demarcações claras que os separam. Toda a bibliografia existente sobre eles não os caracteriza individualmente: os termos são usados de forma aleatória e o mesmo fato pode receber qualquer uma das denominações. Com base em diversos teóricos, Coelho (2003) apresenta a seguinte definição: “os mitos nascem na esfera do sagrado, arquétipos correspondem à esfera humana e símbolos pertencem à esfera da linguagem” (p. 85).
O mito, que é uma narrativa sobre deuses e divindades em quem o povo acredita fielmente, também é considerado por Propp (2002) como uma origem possível do conto. O mito e o rito são determinados pelo pensamento. No entanto, enquanto este tem intenções pragmáticas (como dançar para fazer chover), o outro tem intenções sociais (explica acontecimentos). Mas a intenção de Propp não é interpretar os contos, mitos e ritos, e sim buscar suas causas históricas.
Segundo Mendes (2000), é impossível saber quando surgiram os primeiros registros sobre os deuses, mas sabe-se que, no Egito e na Mesopotâmia, as primeiras divindades eram femininas como a Lua, deusa do amor, da fertilidade e protetora das colheitas. Quatro mil anos antes de Cristo, os semitas e indoeuropeus invadiram o Egito e a Mesopotâmia e levaram consigo seus deuses masculinos, que substituíram as deusas: Deus-Pai, Javé ou Jeová, deus dos vencedores. Esse era o início da sociedade patriarcal. Na Idade Média, os contos são difundidos, tendo as fadas como “herdeiras” das deusas.
Alguns autores ainda afirmam que os mitos possuem relação com o sentimento religioso: “O pensamento mítico nasceu como uma das primeiras manifestações do que seria mais tarde, o pensamento religioso” (COELHO, 2003, p. 86). Cada povo da Antiguidade possui seus mitos, relacionados com sua religião e cultura. Eles são sobrenaturais, explicam a origem do universo, os fenômenos da
natureza, nascimentos e mortes, sempre sob a determinação dos deuses, o que lhes confere um significado religioso-psicológico-histórico. Ainda que alguns deuses tivessem muitas virtudes, como Atena e Apolo, numa época de lutas e guerras, é normal que muitos fossem violentos, incestuosos, devoradores de crianças, adúlteros, vingativos etc. Considerando, com Coelho (2003), que o mito nasceu de uma necessidade religiosa, estudá-lo é importante para o homem moderno, por supor que nele está a raiz de sua cultura e até de suas histórias particulares.
Para Mendes (2000), o mito, considerado sagrado, deixou o conto como seu herdeiro, pois, usado como arte, nasceu após a desvinculação entre a história e sua narração ritualística, quando o mito passa a se transformar em conto popular. Ainda que tenha perdido as características religiosas, sem a ligação com a religião o conto não teria conquistado espaço na literatura, na criação artística.
Os arquétipos, derivados dos mitos, segundo a autora são forças vitais, manifestadas como atitudes, ideias ou até comportamentos no âmbito humano. Situados no inconsciente coletivo, que seria um reservatório espiritual a que todas as pessoas têm acesso, eles são “grandes forças ou impulsos da alma humana” (COELHO, 2003, p. 92), como o amor, o ciúme, a inveja, o ódio, o desejo, a vontade de domínio, o narcisismo e a fé, entre outros. Nas diferentes caracterizações que recebe, uma determinada linha o define como sendo protótipo, ou seja, manuscrito que serve à crítica; outra o define como situações de mitos que misturam o humano com o sagrado. Um exemplo seria a história de Prometeu, homem-titã que tentou roubar o fogo sagrado para se tornar imortal, criando, assim, o arquétipo de ânsia da imortalidade.
Contos de fadas mais conhecidos, como Cinderela, Branca de Neve e os Sete Anões e A Bela Adormecida, mostram a disputa pelo poder feminino, representado pela beleza que desperta a inveja em bruxas, madrastas e até em irmãs. Segundo Mendes (2000), situações como proibições, casamento, inveja, castigo e desobediência são arquétipos do mundo feminino e, por isso, são encontrados em várias histórias e mitos.
Outros arquétipos também estão presentes em Cinderela. O conto mostra a mãe boa (representada pela fada madrinha, que lhe dá condições de ir ao baile) e a mãe má (a madrasta, que a explora e maltrata). No baile, Cinderela encontra o príncipe, com quem se casará e será feliz para sempre, mostrando, assim, que ela já está madura. Perrault, que criava uma moral para cada história, ao encerrar o conto, se refere ao
principal predicado feminino: “A beleza é para o sexo um raro tesouro/ Que ninguém cansa de admirar” (apud MENDES, 2000, p. 44).
Os símbolos, por sua vez, de acordo com Coelho (2003), configuram figuras de linguagem, presentes em poemas e narrativas, e é por meio da linguagem simbólica que mitos e arquétipos tornam-se comunicáveis, pois ela estabelece uma ponte entre o real e o imaginário. Não fosse por ela, com sua origem mítica e arquetípica, os contos de fadas não teriam condições de se espalhar pelo mundo.
Com base nos estudos de Freud e Jung sobre os sonhos, Mendes (2000) afirma que ambos consideravam que a linguagem dos sonhos, dos mitos e dos contos é a mesma, ou seja, a “linguagem simbólica”. Para os freudianos, todos os três expressam impulsos reprimidos quando criança, de origem sexual. Já os seguidores de Jung acreditam que os sonhos e histórias populares têm origem no inconsciente, nas imagens da psique humana.
Mendes (2000) conclui que Jung fala sobre arquétipos, que são formas de pensamento. Símbolos da experiência humana básica, esses pensamentos estão presentes em qualquer indivíduo e se relacionam a nascimento, maternidade, casamento, morte, poder, magia etc., e são encontrados em mitos e contos de fadas, mesmo que os leitores não percebam. Várias histórias, por exemplo, tratam de uma personagem criança que tem problemas com os pais, passa por diversas provas, usa magia, vence e se casa, tornando-se “feliz para sempre”.
Os contos de fadas falam diretamente com o leitor ou ouvinte, pois foram histórias que surgiram ao longo dos anos, narradas por pessoas do povo que incluíam nas narrativas seus desejos e vontades. Eles tratam de experiências tipicamente humanas, presentes em qualquer lugar e época. Sendo assim, o leitor identifica-se com o herói, pois suas dificuldades e provações estão presentes na vida de todos.
Não se precisa de nenhuma capacidade especial, nenhum conhecimento intelectual específico para entender os contos, pois eles nos dizem algo sobre o ser humano que às vezes não sabíamos como formular, e o dizem de maneira bem, simples. (BONAVENTURE, 1992, p. 9)
As narrativas retratam a época em que foram escritas, quando a miséria e a fome faziam com que pais abandonassem seus filhos na floresta, como retrata Mendes
(2000). Também mostram o fraco vencendo o mais forte, revelando verdadeiros sonhos do povo de vencer na vida, para tornarem-se verdadeiramente felizes.
Para Coelho (1991a), estudando a literatura de outras épocas é possível perceber os desejos do povo que contava e ouvia essas histórias. Os contos de fadas fazem parte dessa heterogênea matéria narrativa que guarda esse saber fundamental. Para a autora “a literatura é sem dúvida, uma das expressões mais significativas dessa ânsia permanente de saber e de domínio sobre a vida, que caracteriza o homem de todas as épocas” (p. 10-11).
A busca pelo sentido da vida sempre foi uma característica humana, segundo Bettelheim (2002), que começa na infância e vai se desenvolvendo pela racionalidade da criança até a idade adulta. Daí a importância de oferecer aos pequenos o material dos contos de fadas, que pode se tornar ferramenta fundamental no seu desenvolvimento. E é sobre a relação dos contos de fadas com o leitor em formação que discorreremos a seguir.