Decision Making
2. Evaluation of an internal report
4.4.3.1 Elementos de origem primitiva e mitológica
O conto se inicia com os três irmãos tentando capturar o pássaro dourado que rouba as maçãs do rei. O tema da maçã dourada roubada de um rei por um pássaro é comum aos contos europeus. Segundo Propp (2002, p. 344-49), a cor dourada da ave remete imediatamente a um ser pertencente ao Outro Mundo de culturas com concepções religiosas solares, não tendo uma relação direta com o pássaro de fogo, comum à mitologia clássica, como se poderia pensar. Já, o atributo milagroso das maçãs, bem como sua cor dourada, é conhecido em diversas mitologias. Temos como exemplo clássico, o jardim de Hespérides, onde crescem as maçãs douradas da imortalidade.
Já o fato de os dois irmãos fracassarem na missão de proteger as maçãs e de capturar o pássaro, remete ao fato de que só ao verdadeiro herói é concedida a vitória. Novamente, lembremos que o herói é um iniciado, conhecedor da magia negada aos indivíduos comuns. Portanto, a ele pertence o auxílio do meio mágico (ancestral totêmico) por direito adquirido no rito iniciático (PROPP, 2002, p. 81).
Verifica-se que ao tentarem impedir novos roubos, os dois irmãos mais velhos caem no sono. Segundo Propp (Ibid., p. 85-7), o sono é uma característica inerente aos vivos e não aos mortos. Portanto, nos contos, o sucesso do herói depende de manter-se acordado – o que faz com que se identifique com os habitantes do Outro Mundo (Reino dos Mortos de religiões primitivas) e receba seu auxílio. Assim sendo, a narrativa analisada, já no início, dá indicações implícitas de que apenas o mais jovem teria a possibilidade de ser bem sucedido.
Com relação à obtenção do meio mágico, o caráter do herói é fundamental neste conto. Embora os irmãos recebam as mesmas informações que ele, percebe-se que sua atitude sensata e comedida, ao menos neste episódio, faz com que receba o auxílio da raposa. Ademais, a raposa só ajuda aos irmãos em consideração ao herói: “ ‘Que jogo sujo’, disse a raposa, “ ‘mas respeito seu irmão mais jovem e te darei um conselho.[...]’” (JACOBS, 2002, p.124), o que demonstra que o doador/meio mágico já conhece de antemão o caráter do mais
novo. Segundo Propp (2002, p. 84), quando se é considerada a virtude do herói, indica ser um motivo tardio, já que isso só passou a ser levado em conta após o estabelecimento das regras jurídicas na sociedade.
O fato de o herói roubar os objetos de ouro encontrados no Outro Mundo, pode remeter ao direito nato dos jovens iniciados de roubar os pertences de membros não iniciados da tribo a que pertenciam e de outras tribos (PROPP, 2002, p. 135). Essa era uma tradição entre os jovens da casa masculina, que podiam cometer esse delito sem serem punidos.
No final do conto, o jovem fica com a princesa que habita o Outro Mundo e não com a princesa prometida pelo rei das maçãs. Podemos inferir que o caráter exogâmico do matrimônio nas sociedades antigas tenha influenciado no desfecho do conto, sendo mais adequado do que o casamento com a moça que vivia em sua terra natal (a qual, na realidade, pertenceria à mesma tribo que o jovem). Lembremos que o auxiliar mágico era, na verdade, o irmão da princesa Grega, e que o espírito totêmico das tribos que auxiliava o jovem na iniciação pertenceria ao clã da futura esposa (Id. ibid., p. 119-20). Além disso, pode-se considerar que a narrativa traz uma inversão do que ocorria nas tribos primitivas: o herói se casava temporariamente com a moça da casa masculina (durante o período de sua iniciação, que se mantém conectado ao Reino dos Mortos) e, depois, de modo definitivo, com uma segunda moça, ao voltar à tribo. Aqui, embora ele se case com a segunda pretendente (como na tribo) ele não mantém o compromisso com aquela que está em casa, mas sim com a que encontra no Outro Mundo (equivalente ao Reino dos Mortos).
4.4.3.2 Elementos de origem celta: sociedade e mitologia
O pássaro, na mitologia celta, assim como na maioria delas, faz parte das imagens conectadas ao Outro Mundo (Reino dos Mortos), símbolos de divindade e mensageiros dos deuses.6 Nas narrativas tradicionais celtas, a captura dos pássaros também serve para comprovar a destreza de um guerreiro. O herói Cuchulain era considerado habilidoso nesta arte, podendo dominar as aves apenas com a própria voz.7 A maçã, de ouro ou prata, também é venerada como símbolo da imortalidade, sendo utilizadas pelos druidas, penduradas em suas varinhas mágicas para purificar o ambiente e promover a cura (ELLIS, 2003, p. 287). A tradição do poder de cura das maçãs, bem como a de ser um antídoto contra o mal pode ser detectada na lenda sobre Cormac mac Art, um rei irlandês do séc. III, que possuía um ramo
6 Disponível em: <http://www.encyclopedia.com/doc/1O70-birds.html>. Acesso em 13/10/2010
7
com maçãs douradas, dado a ele pelo deus Manannan Mac Lir, que curava doenças e feridas, além de emitir um sons harmoniosos quando chacoalhado. 8
O fato de o Outro Mundo apresentar localizações como a Grécia e Espanha, fato já mencionado anteriormente, também remete à história mítica dos ancestrais fundadores da Irlanda (BLAMIRES, 2009, p. 81-102). Portanto, quando o herói se casa com a princesa dos Gregos, ele passa a pertencer ao clã dos antigos deuses celtas, advindos da Grécia.
No conto, a utilização de palavras irlandesas remete diretamente a essa sociedade, bem como a referência à Munfin (região irlandesa).
4.4.3.3 Aspectos socioculturais gerais e a representação feminina em “The Greek princess and the young gardener”
As duas princesas, únicas personagens mulheres da história, não têm papel ativo. Elas são apenas mencionadas pelo narrador e servem de prêmios ao jardineiro e ao príncipe da Grécia. A primeira princesa (filha do rei das maçãs), ao ser oferecida junto com a metade do reino, remete à condição social da mulher antes da era moderna, de mero objeto de troca para selar acordos financeiros entre famílias (WARNER, 1999, p. 22); e a segunda, simplesmente se deixa levar pelo herói, como se também fosse um enfeite de ouro, como os outros cobiçados por ele.
O fato de os irmãos do herói falharem em sua missão, não porque a raposa não os tenha aconselhado, mas porque escolheram a diversão, com danças e bebidas, esquecendo-se de perseguir o pássaro, reflete certas idéias cristãs de uma sociedade moralizante, refletindo valores que não combinam com a vida desregrada. Como consequência dessa atitude, os irmãos se transformaram em mendigos, o que podemos entender como uma advertência do que pode advir quando o trabalho e a seriedade são deixados em segundo plano, sendo ideais consistentes com uma sociedade que valoriza o trabalho e a contenção do prazer carnal acima
de tudo.
4.4.4 Análise do percurso dos personagens principais sob uma perspectiva actancial (COURTÉS, 1979)
8 Versão da história disponível em: <http://www.luminarium.org/mythology/ireland/cormacdisappear.htm>.
De modo geral, o percurso empreendido pelas personagens principais, o herói e seus dois irmãos é determinado pela busca de um pássaro de ouro, sendo este o objeto de valor visado por eles. Já o rei que ordena a busca (destinador das ações: modalidade do fazer-fazer e do fazer-querer-fazer – por meio de sua autoridade e dos prêmios oferecidos na execução da tarefa difícil), visa primeiro a proteção de suas maçãs e, depois, encanta-se com o próprio pássaro por ele ser extraordinário: tem penas de ouro.
Os três irmãos se caracterizam pela modalidade do querer fazer, mas apenas o caçula, que é o herói, possui também o saber fazer e o poder fazer, por meio do auxílio do meio mágico (F) (raposa). Entre o rei das maçãs e o herói é estabelecido um contrato de troca: o jovem lhe traz o pássaro e o rei lhe dá a mão da filha e metade de seu reino. Entretanto, isso vem como um incentivo à captura do pássaro, pois, antes mesmo da oferta dos prêmios, o herói já estava empenhado em obtê-lo para o monarca, talvez por seu caráter determinado e corajoso. No decorrer do enredo, além do pássaro dourado, outros objetos de valor atraem a atenção do herói: objetos de ouro, uma égua e o casamento com a princesa da Grécia. A fim de obtê-los, o jovem se compromete com os reis do Outro Mundo, mas os engana, não entregando a eles o prometido. O único contrato que cumpre na íntegra é com o rei das maçãs, mas dispensa a mão de sua filha como prêmio, dando-a ao cunhado. Assim, o estatuto do herói é modificado: no início do conto, é o filho de um pobre jardineiro; no final, possui objetos valiosos e contrai matrimônio com a princesa dos Gregos, indo viver, implicitamente, no reino do sogro – transforma-se em um príncipe.
Já a raposa (doador D e meio mágico F) também tem seu objeto de valor: sua libertação do encantamento que a transformou em animal, sendo o irmão da princesa Grega. Ele, de certa forma, estabelece um contrato com o herói: o auxilia, mas depois lhe pede que este lhe corte a cabeça (para que voltasse ao normal). Novamente o herói quebra o contrato, por faltar-lhe coragem para o ato que julga cruel, deixando o irmão cumpri-lo em seu lugar. A raposa não só obtém a antiga aparência, mas também a mão da princesa do rei das maçãs. Seu estatuto assim é transformado definitivamente.
Quanto ao rei das maçãs, ao obter o pássaro de ouro, subentende-se que salva definitivamente suas maçãs milagrosas: seu estatuto de homem angustiado, com a perspectiva de ficar sem seu único remédio, é substituído pela tranqüilidade de ter sua saúde preservada.
4.4.5 Evidenciação de transformações detectadas no conto “The Greek princess and the