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Experimental Setup

Experimental Evaluations

5.1 Experimental Setup

Na descrição de suas vivências como centenárias, ambas as colaboradoras apresentam vários aspectos em comum, mas também várias especificidades. Intenciona-se aqui relatar e refletir sobre o que há de convergente e o que há de singular nesses depoimentos, considerando ainda as repercussões sócio-afetivas, suas limitações e suas potencialidades.

Entre os fatores em comum temos: o fato de preservarem as lembranças da infância e rememorarem detalhes sobre as mesmas. Na rememoração dessas

lembranças, sobressaem algumas convergências e singularidades, conforme descrito a seguir.

Em seus relatos, ambas mostraram que, apesar de todas as dificuldades vividas, das perdas inevitáveis e irreversíveis, encontram-se satisfeitas com a sua condição: estavam sempre bem humoradas e, em alguns momentos, faziam piadas com sua própria situação. Elas relataram que o período de infância foi marcado por brincadeiras de criança, pelos afazeres domésticos e também o trabalho nas lavouras. Como dona Leninha tinha mais irmãos que nasceram antes dela, este trabalho de ir para a lavoura de café ficava para os irmãos mais velhos, enquanto ela, por sua vez, tinha que se dedicar aos trabalhos domésticos. Ela relatou que se lembra de aos 7 anos ter aprendido a cozinhar. Ela não alcançava as panelas no fogão à lenha, então seu pai arrumou um pedaço de madeira para que ela pudesse subir e realizar a tarefa. O trabalho de retirar as panelas da chama e colocá-las na parte mais baixa do fogão, conhecida popularmente como “rabo” do fogão à lenha ficava para o pai, pois a mãe estava sempre muito doente. Já dona Leninha, era a filha mais velha e ela, junto com os irmãos, acompanhava o pai em algumas atividades na zona rural como: colheitas de arroz, café e feijão; cuidar dos animais, como galinhas e porcos; e até carpir, quando necessário. O quadro 3 mostra com clareza esta situação:

QUADRO 3: A EXPERIÊNCIA DE SER CENTENÁRIA - 2014 A EXPERIÊNCIA DE SER CENTENÁRIA - 2014

COLABORADORAS DEPOIMENTOS

LENINHA

E o que mais a senhora lembra da sua infância?

Foi a infância assim, de pobre né. Eu trabaiava com eles. Meu pai ia prantá roça e eu ia prá lá para fazer comida pra eles, né. Era assim. Mas eu brincava também. Tinha dia que as companheiras iam pra lá, tinha as bonecas, eu brincava de comadre, fazer comezinho... [risos]. Era até bom a vida!!! [risos]

AMELINHA

O que a senhora lembra da infância quando estava em Jataí ?

Alembro com 7 ano, eu já fazia comida porque minha mãe adoecia, tinha hemorragia e ia pra cama, meu pai me ensinou fazer comida. Ele punha um caixotinho lá perto do fogão, eu fazia a comida e na hora de descer as panelas, ele descia as panelas para mim. E ajudei a criar os irmãos, né. Era a mais velha das muié, os menino homem, tinha uns mais velhos que eu e outros não. Minha mãe teve 6 filhos homens e 5 muié, e eu era a mais velha das muié.

Deste modo, o trabalho sempre esteve presente na vida das colaboradoras desde a infância, como também na fase adulta, quando trabalharam arduamente. Ambas relataram que, com o tempo, suas atividades foram ficando mais lentas, espaçadas, e grande parte delas não são mais realizadas. Esta é a situação que mais incomoda ambas as centenárias, como mostrada no quadro 4:

QUADRO 4: AS MUDANÇAS ADVINDAS DO ENVELHECIMENTO EM MULHERES CENTENÁRIAS – 2014.

AS MUDANÇAS ADVINDAS DO ENVELHECIMENTO EM MULHERES CENTENÁRIAS

COLABORADORAS DEPOIMENTOS

LENINHA

Então a senhora é mais velha e ...

[Nem deixou terminar a frase] Sou a mais véia de todos e tô aqui, sadia de tudo !!! Tô conversando com cê ai, ó! [risos] E sei tudo as coisas da vida, só que eu não dou conta de fazer... Já enfraqueci [risos]. Enfraqueci as perna, mas o coração e tudo tá bão. Mas as pernas... num presta, né. Porque panha muita friagem, muita coisa, vai juntando tudo, num guarda resguardo direito... E vai assim. Eu caí e quebrei o joelho e o homi tá tentando fazer ele consertar [a filha que estava do lado disse que era o fisioterapeuta]. Eu andava com muleta, agora ando com bengala. E tá é bão, vou pra tudo que é lugar. Mas o negócio é que a gente fica de idade demais e enfraquece, né. Fica fraco, não é igual quando a gente cresce. Aquela fortaleza, né.

AMELINHA

Ah...eu tenho vontade de fazer as coisas, ajudar a Carla... Mas a gente num pode! Num posso enfiar uma agulha pra costurar um vestido e também pregar um botão, num posso agachar, num posso deitar no sofá, porque o médico proibiu de deitar no sofá... Ih, tem muita coisa que a gente não pode fazer nada! Cê tá acostumada a fazer as coisas e aí quando cê não dá pra fazer as coisas... É duro! Eu tenho vontade de ajudar... Tem uma bisnetinha, tá com um ano e um mês, eu não posso pegar ela porque ela é pesada, né. Não posso pegar peso...

Tem vontade de fazer muita coisa?

Eu tenho vontade de fazer ainda... Se eu enxergasse melhor, acho que dava pra fazer. Mas eu não dou nem pra enfiar uma agulha! Eu tenho que pedir os outros para enfiar.

Depois que alguém enfia a linha na agulha, a senhora consegue costurar?

Se for pra pregar um botão, eu prego. Não sei como é que fica, não! [risos] Mas eu prego! [risos]

As questões que mais as incomodavam em relação à passagem do tempo, eram as perdas na capacidade laboral. Em nenhum momento elas reconheceram que essa é a oportunidade de uma diminuição do ritmo das atividades por merecimento. Elas ainda sentiam vontade de exercer atividades para continuarem auxiliando os familiares ou pessoas que mantinham uma convivência mais próxima. Nesses momentos, em que perdas físicas ficavam evidenciadas, nota- se uma sensação de impotência nelas, pois ainda têm vontade de realizar muitas tarefas. Contudo, o corpo não lhes permite quase nada.

A dificuldade para enfiar uma linha na agulha não é específica de uma pessoa centenária. Esta é uma atividade que pode ser difícil para pessoas com muito menos idade. Mas fica evidente o quanto elas possuem disposição e vontade de viver e desempenharem tarefas que antes realizavam.

Por outro lado, a importância das relações familiares de atenção, cuidado e carinho, parece ser tranquilizador para ambas as idosas. Esses fatores de proteção recebidos por elas driblam as perdas naturais e efetivas que acometem todos os seres vivos. Amelinha teve problemas de audição e se sentiu um pouco desanimada, mas ela também percebia o quanto seu desânimo incomodava os demais familiares. Veja como iniciou a conversa com ela, quadro 5:

QUADRO 5: AS RELAÇÕES COM OS FAMILIARES AS RELAÇÕES COM OS FAMILIARES

COLABORADORAS DEPOIMENTOS

AMELINHA

Amelinha, como a senhora está se sentindo hoje, de saúde e no geral ?

Eu num tô sentindo muito bem não, num sei se é porque eu fiquei surda assim né, desanimada, num sei porque. Depois que eu fiquei escutando é que eu miorei mais. Fiquei sem poder falar. Muito ruim.

As pessoas estavam percebendo/entendendo que você não estava conseguindo ouvi-las e elas davam mais atenção? Ou não?

Eu acho que elas tava dano atenção né, porque eles iam conversar comigo e eu não conversava nada né, eles tavam incomodado com aquilo. O Carlos, a Carla.... Nois foi no médico e o médico ainda marcou pra mim ir fazer o exame na sexta-feira, e eu fiquei duas semanas surda. Nossa, onti que eu fui escutá.

Como foi a sensação de poder escutar as pessoas?

Nossa foi boa demais, quando eles fizeram a lavagem lá, que sorto a voz, pra mim é que sorto a voz. Eu tava muda. Nossa Senhora, acho que coisa mais ruim que tem é você ficar surda. Você vê a pessoa conversar assim e não pode responder. Cê num sabe se tá falando com cê, ou se tá falando com o outro. Não. É ruim demais. Num gostei não.

Os familiares estavam atentos às necessidades e à vulnerabilidade da idosa, sabendo da sua condição de não ouvinte temporariamente e ainda assim, tentavam manter um diálogo com ela para que se sentisse acolhida e pertencente ao grupo familiar. Em nossa cultura, as pessoas idosas não são tão valorizadas por suas experiências vividas, diferentemente de outras culturas, nas quais os idosos são valorizados. Há um imperativo cultural de beleza, virilidade, poder e consumo que estabelece critérios implícitos de exclusão social aos que vivem fora desse padrão.

O que parece evidente entre as colaboradoras, é o fato de ambas apresentarem também como singularidade, a atenção recebida pela família. A família extensa, ou seja, os membros mais distantes estão de fato distantes, porém aqueles que estão no convívio diário, demonstram um carinho imenso, dispensando atenção às idosas. Preocupam-se com o bem-estar físico delas, bem como a necessidade de estarem sempre por perto, ainda que respeitem o desejo de certa independência que elas ainda tentam preservar a todo custo.

Envelhecer deve ser visto como um processo contínuo de desenvolvimento humano. As pessoas necessitam perceber essa etapa da vida de forma ampla, e não apenas pelas perdas e rupturas que são inerentes ao processo. A contribuição dos familiares, e pessoas próximas, pode acontecer pelo reconhecimento do papel do idoso na família e na sociedade. As colaboradoras da pesquisa vivenciaram uma imagem positiva de si, ainda que lutassem contra algumas perdas vitais, mas conseguiam de forma positiva ressignificar os seus lugares nas famílias em que vivem.

No momento em que apenas as condições físicas e fisiológicas de se completar cem anos são consideradas, podíamos imaginar que as centenárias pudessem apresentar uma atitude de desânimo frente à situação. Porém, no contexto do cotidiano no qual se caracteriza o modo de vida das centenárias, é perceptível que elas possuem consciência da proximidade da finitude, mas ainda assim, não possuem uma atitude passiva. A cada momento, que pode parecer uma condição de finito, elas o vivem com dignidade e resignação aos desígnios de Deus, mas não escondem o sentimento de apreço e amor à vida. Como todos os seres humanos, elas lidam com essa situação impondo à consciência a tentativa de elaboração frente à possibilidade do desamparo que os seres vivos vivenciam com a precariedade da condição humana. Parece paradoxal, mas da mesma forma como elas investem no bem viver, também investem no bem morrer, ao tentarem racionalizar esse processo.

Nessa direção, é possível identificar que as centenárias possuem em comum a consciência da finitude como um processo de vida, ainda que seja difícil lidar com a vulnerabilidade. A singularidade entre elas é a medicalização da vida. Enquanto uma resiste arduamente aos medicamentos que podem lhe ocasionar uma qualidade de vida, a outra mostra uma forte adesão à necessidade de utilizar esses medicamentos.

O próximo item busca estabelecer os pontos e contrapontos da temporalidade na vivência dessas idosas.