Experimental Evaluations
5.2 Algorithms and Results of Experiments
Os aspectos da temporalidade, envolvendo o tempo cronológico e o tempo Kairós, foram identificados na coleta de dados com as centenárias. Percebeu- se que, como a mitologia grega na qual o tempo cronos engole a todos, o tempo medido pelos calendários das centenárias também deixou nelas a sensação de que foram engolidas pelo tempo, devido à rapidez que aconteceram as mudanças quanto às perdas: das pessoas com as quais conviviam, as perdas físicas, as perdas laborais e as perdas sociais. Nesse sentido, a alteração na dinâmica de vida delas foi tamanha, que é como se não houvesse nenhum registro na consciência temporal, deixando-as reféns dessa passagem do tempo.
A vivência do tempo que os gregos chamavam de tempo oportuno, tempo com aspecto qualitativo, ou ainda tempo certo, o Kairós, conforme visto por Sousa (2014), é confirmado pelas centenárias que relatam o quanto elas se sentem bem ainda que convivendo com pessoas de outras idades, ou seja, pessoas bem mais novas que elas. Cabe mencionar que além do suporte familiar, elas recebem uma atenção que lhes confere um determinado empoderamento enquanto ser humano, pois se sentiam valorizadas quando recebiam o carinho e a atenção de todos na casa.
Nas situações onde o tempo apareceu como repetitivo, um elemento de ritmo lento, sensação de um tempo que não passa um curso de tempo vago, como se não houvesse uma sistematização temporal, de acordo com o estudo sobre a temporalidade de Gourevitch (1990, apud OLIVEIRA, 1990), foram descritos pelas centenárias como momentos nos quais elas se questionam sobre suas vidas. Uma das centenárias mencionou que se sentia como um vegetal, pois não conseguia fazer mais nada, não trabalhava, não podia mais realizar as tarefas domésticas, e se dizia parada no tempo. O fato dela se recuperar de uma fragilidade nas pernas, a
impossibilitava de andar muito. Esse relato denotou uma insatisfação dela com o tempo que teve uma passagem lenta, o tempo que “não anda”, como ela mencionou.
Esse tempo não foi qualificado de forma positiva, como um tempo de bem-estar, um tempo marcado pelas atividades prazerosas. Elas falavam de um tempo que não apresentava fluidez e sim um tempo no qual marca o sujeito com sentimentos de angústia, por não poder fazer nada, o que vai na mesma direção assinalada por Minkowski (1999) que identifica o tempo existencial como tempo vivido além da significação de presente, passado e futuro.
Nos relatos de Amelinha, observa-se que toda semana a família se reúne aos finais de semana para o almoço de domingo: e esse tempo transcorre com uma velocidade ímpar, pois é um momento muito esperado por ela. O tempo durante este encontro no qual a família está reunida sempre foi marcado de forma tão rápida que parece até que dá saltos, como se ela não percebesse a passagem do tempo. Nesses aspectos, mais uma vez, as relações da temporalidade entre as centenárias, se equiparam e confirmam o dado encontrado por Costa e Medeiros (2009).
Várias características sobre a temporalidade das centenárias estão de acordo com a literatura. Minkowski (1973) nos traz como uma das referências da temporalidade a dimensão da prece, composta por atitudes de elevação, ascendência como forma de viver. As centenárias se entregam às orações como forma de ocuparem seu tempo livre. Amelinha, enquanto aguarda a chegada dos familiares em casa, se mantém em atitude de oração. Ela mencionou que em outras épocas da vida, tinha o hábito de frequentar a igreja, mas devido às dificuldades de locomoção, prefere fazer suas orações em casa, ocupando seu tempo ou ouvindo o rádio: dado compatível com a pesquisa de Costa e Medeiros (2009).
Outro dado que merece destaque é o de que Amelinha fica, algumas horas do dia, sem a companhia dos familiares e não se sente solitária, observou-se nela uma atitude de solitude, de entrega, uma renúncia ao movimento exterior para viver em prece, elevação. Ela tem a oportunidade de estar em companhia de outras pessoas, mas naquele momento de aparente solidão, ela se entrega à solitude e não há sentimento de estar só. Em seus relatos, percebeu-se que ela sente que está amparada, ainda que não exista a presença física de alguém. Sente uma “coisa” boa, a presença de Deus ao seu lado.
Notou-se que não há uma quantidade fixa de realização de orações por esta centenária, que já não frequenta a igreja com a mesma regularidade de antes,
porém ela faz desse, um momento especial no seu dia. Ocasionalmente ela vai à uma instituição religiosa, devido sua pouca mobilidade. Em seus relatos não está caracterizado que ela realiza as orações de forma tempestuosa e sim como um sentido de elevação, oportunidade de emprego do tempo capaz de lhe fazer sentir bem.
A temporalidade, marcada pela subjetividade, como fator essencial de percepção do tempo que caracteriza o compasso interno da passagem temporal, como um antes e um depois, foi constatada entre as centenárias na forma como elas relatam os acontecimentos os quais foram significativos e mereceram compor seus relatos. Merleau-Ponty (1999) ao falar da temporalidade a compara a um rio que, quando se está do lado de fora na margem, é equiparado ao tempo cronológico, é o expectador fora do rio, observando-o passar. No momento em que o sujeito está imerso nas águas deste rio, ele é o próprio tempo. O tempo se encarna no sujeito, assim como as centenárias ao falarem sobre a sua infância. Elas não apenas descreviam situações do passado, mas estavam atualizando os acontecimentos por meio dos relatos. Elas estavam imersas na água do rio, encarnando o tempo vivido, muito além da simplicidade de uma folha que cai na água e é levada pela mesma para qualquer lugar, constatou-se que é muito mais que isso, é uma forma de se assumir como sendo a própria vida.
Constatou-se que a genuinidade das colaboradoras foi caracterizada pela forma como elas trouxeram seus relatos. Falaram de forma natural, com muita prontidão, respondiam quando lhes eram dirigidas algumas perguntas. Ambas tiveram uma infância pobre, nasceram e cresceram em cidades pequenas do interior. Depois de algum tempo uma se mudou para a capital do estado, Goiânia, que é uma capital que ainda preserva algumas particularidades com características do interior. De alguma forma, essas situações interferiram na vivência da temporalidade pelas centenárias.
Aquela centenária que permaneceu no interior, Amelinha, conserva uma fala com entonação linear e fagueira. Sua forma de lidar com a espera e com as limitações se assemelham ao tempo litúrgico, tempo lento, similar ao dado encontrado por Pereira (2004) em pesquisa sobre a passagem do tempo canônico para o tempo cronológico. O tempo era medido pelos acontecimentos da natureza: o sol, a observação dos astros e toda a movimentação da natureza era responsável pela marcação do tempo quando ainda não havia relógio e o tempo cronológico.
Essa centenária se baseia pela marcação do tempo com seus aspectos subjetivos, sua própria temporalidade, enquanto que aquela que se mudou para a capital onde o tempo é mais técnico, marcado pelos compromissos se caracteriza com uma fala repetitiva, marcada pelo tique-taque do relógio. Em algumas partes do seu relato, ela se expressa como um relógio que marca as badaladas do tempo: “... só sentada, sentada, sentada, esperano, esperano,...”. A entonação de discurso dela é cadenciada pela pressa de quem deseja falar muito em um pequeno espaço de tempo, imitando a percepção do tempo nas grandes cidades. Os resultados demonstram que a percepção da temporalidade pela centenária da capital está ritmada conforme os compromissos mais técnicos do tempo cronológico.
Desse modo, constatou-se que a questão da percepção da temporalidade, para cada idosa, está conforme Merleau-Ponty (1999) nos apontou: vinculada à subjetividade de cada colaboradora e o quanto a discussão sobre esse tema entre as pessoas longevas se faz essencial para a melhor formação de profissionais para lidarem com essa etapa do desenvolvimento humano.