Final Remarks
3. Manual Annotation
7.3. Evaluation of Generated Data
As reformas neoliberais, que se evidenciaram nas décadas finais do século XX, eram baseadas em premissas tais como: abertura do comércio com redução geral das tarifas, privatização das empresas públicas para aumentar a competitividade e concorrência internacional. Muitas dessas ideias são derivadas dos modelos econômicos clássicos e neoclássicos, principalmente do princípio do equilíbrio geral. Essas noções consideraram amplas possibilidades para o crescimento e o desenvolvimento, assim como uma redução das desigualdades de renda dos países em desenvolvimento. Porém, o resultado não foi o esperado, sendo que muitos países sofreram com a concorrência desleal e com um período de estagnação econômica e déficits comerciais.
As políticas de integração regionais e também inter-regionais surgem como alternativas para esse cenário de desequilíbrios e vulnerabilidade. O objetivo dessas políticas, geralmente, não é ir contra um mercado aberto, mas o regulamentar ou permitir que os resultados sejam mais equilibrados e menos desiguais: que os desequilíbrios possam ser mais bem apaziguados. Muitas dessas medidas são tentativas de obter condições favoráveis para o enfrentamento de situações adversas para o desenvolvimento econômico e social, além de possibilitar um intercâmbio de experiências políticas e culturais.
A necessidade de harmonizar políticas para um desenvolvimento econômico e social e para facilitar uma melhor distribuição de recursos são objetivos principais de um processo de
99 integração. Essa construção de regras e padronizações em conjunto visa a permitir a geração de oportunidades de crescimento econômico e industrialização, somados a um ganho de conhecimento técnico. A sistematização das políticas pode proporcionar um maior acesso a bens, facilitar a inserção no mercado internacional, controlar de uma forma mais satisfatória as incertezas econômicas, amenizar conflitos políticos ao estabelecer padrões de comportamento e fóruns de negociações, além de poder ser desenvolvido projetos que estabeleçam um desenvolvimento mais equilibrado entre as regiões. Os objetivos podem incluir interações no plano social, cultural, assim como no político e econômico. A integração pode ser entendida, dentre outras formas, como “um meio de fornecimento de bens públicos, dando satisfação a funções de utilidade coletiva dos cidadãos: a sua industrialização ou ainda, por exemplo, a sua autossuficiência em relação ao exterior”.252 Também razões não- econômicas levam a um processo de integração, como assegurar a paz e o cumprimento dos direitos dos cidadãos, muito evidenciado na União Europeia no período após a Segunda Guerra Mundial. Em meio à implantação de uma União Econômica e Monetária na década de 1990, na Europa, a divisão de competência entre os Estados e a União Europeia proporcionou um debate entre as questões macroeconômicas e as implicações sociais:
Como pano de fundo desse instigante e renovado debate intelectual e desse complexo processo de institutional building, a aposta em jogo é a tentativa de construir uma resposta aos desafios da globalização capitalista e à necessidade de impulsionar reformas na proteção social e no mercado de trabalho, compatível com a construção de um modelo social europeu baseado em uma lógica de concertação, na expectativa de que esta possa gerir melhor os trade offs entre eficiência econômica e justiça social.253
O controle da estabilidade que a integração econômica pode considerar, primeiramente, é um processo de desenvolvimento equilibrado. A concepção de que um modelo econômico apropriado deve combinar medidas de desenvolvimento econômico com segurança social é uma preocupação presente nos debates sobre a integração. Do mesmo modo que existe essa preocupação de interligar o econômico e o social, os aspectos de um desenvolvimento em processos de industrialização e inovação são de fundamental importância. A contribuição, por exemplo, da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe – CEPAL – torna evidente a questão do desenvolvimento industrial contra a teoria
252
PORTO, Manuel Carlos Lopes; FLÔRES, Renato Galvão Jr. Teoria e Política de Integração na União Européia e no Mercosul. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2006. p. 55.
253 TAPIA, Jorge R. B.; GOMES, Eduardo R. Concertações sociais, integração europeia e a reforma da regulação
social: redefinindo a agenda clássica do neocorporativismo? In: Pactos Sociais, Globalização e Integração Regional. Campinas, SP: Ed. UNICAMP, 2008. p. 69.
100 pura do comércio internacional, que tende a afirmar o livre-mercado e desconsiderar as diferenças estruturais entre os países, uns encarregados de bens primários e matérias primas e outros de grandes nações industrializadas:
Entretanto, para Furtado e outros autores estruturalistas, o desenvolvimento latino- americano não poderia se resumir apenas na busca de formas mais eficientes de produção dentro de um modelo pré-estabelecido, como aquele que vigorou antes da Primeira Guerra. Era necessário alterar essas estruturas. As características internas da região e sua particular inserção nas relações econômicas internacionais demandavam outras estratégias e teriam um objetivo maior: reduzir as visíveis diferenças entre os níveis de renda entre as regiões denominadas centro e periferia. Tais mudanças deveriam ocorrer a partir da negação da divisão baseada em trocas de bens primários por manufaturas.254
Mas em relação à defesa da indústria e do desenvolvimento, autores clássicos, como Stuart Mill, Alexander Hamilton e Frederick List, já afirmavam a necessidade da proteção da indústria nascente e a defesa de um desenvolvimento mais diversificado, baseado em manufaturas. List, por exemplo, defendia que “a indústria proporcionaria um maior progresso não apenas econômico, mas político e social”.255 Nesse aspecto, esses autores já constatavam aquilo que a ONU depois reafirmava em seu relatório “Post-war price relations in trade
betwenn under-developed and industrialized countries” de 1949, “a existência de uma
tendência de deterioração dos termos de troca, desfavoráveis às economias menos desenvolvidas”.256 Tais autores clássicos, que defenderam a indústria nascente, consideraram os efeitos que, geralmente, não são levados em conta quando se percebe a teoria em sua forma pura do comércio internacional e das vantagens comparativas idealizadas por Adam Smith e David Ricardo.
Para a estabilidade econômica e política, a integração significa, portanto,
planejamento. O objetivo é estabelecer estruturas produtivas que permitam uma ruptura nos
processos desiguais no comércio internacional e a aposta num comércio multilateral mais equilibrado. Nesse sentido, o integracionismo não é um mercado fechado, mas aberto, coordenado para que o desenvolvimento estruturado possa proporcionar os ganhos em um comércio internacional. A questão é beneficiar-se do comércio internacional mediante condições favoráveis aos países em desenvolvimento. O planejamento pode propiciar ganhos de produtividade, criar incentivos para os investimentos, assim como para a utilização de
254 BRAGA, Márcio Bobik. Integração e Desenvolvimento na América Latina. A contribuição de Raul Prebisch e
da CEPAL. São Paulo: Annablume, 2012. pp. 31-32.
255
Idem, Ibidem, p. 37.
101 técnicas mais eficientes e a redução das incertezas do mercado. O planejamento econômico integrativo também pode colaborar para investimentos estrangeiros, dado à padronização de tarifas e regras comerciais.
Assim, uma integração política e comercial pode promover um processo de liberalização comercial, controlar os desequilíbrios na balança de pagamentos entre os países para não prejudicar os menos desenvolvidos, planejar soluções em conjunto que proporcionam uma industrialização para o desenvolvimento de acordo com as características de cada região e possibilitar uma distribuição mais equânime. O processo de liberalização econômica que almejava um “equilíbrio de Pareto” é indiferente para as desigualdades resultantes desse processo e para as estruturas mantidas nele:
Para a teoria neoclássica, os ganhadores podem compensar os perdedores. Mas esse movimento cooperativo não é trivial em acordos internacionais, particularmente quando os países são pouco desenvolvidos. O debate, naquele momento, não considerava o ’bem estar estático’ proporcionado pelo comércio regional. Mais importante seria a possibilidade de elevação da taxa de crescimento econômico com a condução mais eficiente do processo de substituição de importações.257
Com o processo integracionista é importante manter mecanismos que considerem a distribuição mais equânime dos ganhos do desenvolvimento econômico, e parece evidente que é nesse ponto que ela faz mais sentido. A distribuição dos ganhos do desenvolvimento a poucos países tornaria a integração desnecessária, algo que o livre comércio mainstream neoclássico já poderia fazer por si mesmo. Portanto, não um “bem estar estático” com ganhos mínimos apenas quantitativos, mas um “bem estar dinâmico” com ganhos qualitativos e mais sustentáveis deveria ser proporcionado por um processo de integração regional e no comércio internacional como um todo. Nesse aspecto, ressalta-se o tratamento diferenciado e regimes especiais que países menos desenvolvidos devem ter em um processo de integração. Em outras palavras, os incentivos para o desenvolvimento e inovação:
Uma alternativa para países menos desenvolvidos poderia ser o estabelecimento de acordos de complementação industrial. Tais acordos teriam como objetivo estabelecer relações comerciais preferenciais e mesmo de assistência técnica, seja entre firmas de uma mesma indústria distribuída em diferentes países, seja entre indústrias e fornecedores de matérias-primas.258
257
Idem, Ibidem, p. 95.
102 A estabilidade econômica e política em um processo de integração regional e internacional precisa, de fato, envolver um planejamento para um desenvolvimento mais equânime entre os países. O tratamento diferenciado aos países menos desenvolvidos com condições favoráveis permite uma descentralização no processo de desenvolvimento e, nesse aspecto, propicia uma viabilidade política e econômica para a integração, traz avanços qualitativos para as regiões. Um esforço pela harmonização das decisões e instituições que podem viabilizar e fortalecer um planejamento comercial e político poderia possibilitar as condições do desenvolvimento social e econômico a países menos desenvolvidos. Não é somente a equidade, mas também a eficiência que pede um desenvolvimento descentralizado:
Só recentemente, contudo, se tornou mais claro que o desenvolvimento das regiões deprimidas pode conferir benefícios gerais, promovendo um crescimento mais elevado e não apenas uma redistribuição do rendimento, ideia reforçada recentemente num documento da Comissão Europeia: ‘A solidariedade com essas regiões é uma base indispensável para o progresso não só por razões sociais, mas
também de forma a aumentar o potencial econômico da União no seu todo”.259
O estabelecimento da promoção descentralizada do desenvolvimento e do investimento requer que uma atenção seja dada para os níveis de competição. Mesmo que se tenha presente que um nível de competitividade é essencial para a inovação e o desenvolvimento, países menos desenvolvidos precisam ajustar-se ao mercado livre e competitivo. Por isso, uma intervenção através do integracionismo é necessária, para que desequilíbrios muito acentuados impeçam que o processo seja conduzido e torne-se ineficiente. A desigualdade, nesses termos, é ineficiente para o integracionismo.
A abertura do mercado a países desestruturados pode conduzir a um desequilíbrio entre as regiões e entre países. Países com diferenças de desenvolvimento elevadas não podem permitir-se disputar de igual para igual no mercado competitivo internacional. Assim sendo, a abertura no integracionismo precisa estar acompanhada de uma intervenção dentro desse processo. Destarte, no integracionismo, é também importante a criação de fundos para certos ajustamentos que se fazem necessários, além das medidas das condições da competitividade. Nesse sentido, é importante que se criem as condições de competitividade para os países menos favorecidos, conforme argumentam Porto e Flôres:
Naturalmente a intervenção regional deve seguir as regras – em todos os propósitos – do argumento das indústrias nascentes: apoiando numa primeira fase regiões que depois terão de ser competitivas em economia aberta. (...) Neste caso justifica-se a
103 intervenção comunitária na medida em que a intervenção dos países seria insuficiente, diante da dimensão da desigualdade e do esforço de aproximação a fazer: sendo, aliás, do interesse do conjunto comunitário e mesmo mundial que se dê tal aproximação.260
Na resolução não apenas da eficiência, mas ao considerarem-se também os aspectos políticos e sociais, é relevante pensar em planos de compensações das desigualdades. Além do investimento direto em setores que favoreçam o desenvolvimento dos países, as restrições comerciais, se fazem imperativas quando existem dificuldades inerentes nas políticas administrativas para a promoção dos setores a serem considerados. Nesse sentido, para a participação num mercado aberto, as economias periféricas demandam um período de adaptação que forneça as condições para um desenvolvimento e para competir de forma justa. A competição, nesse aspecto, deve ser feita em níveis aceitáveis, para que não seja um fator de desigualdades e desequilíbrios entre as regiões. Medidas estruturais, por isso, precisam ser tomadas para garantir uma estabilidade regional e inter-regional em nível internacional: “não se pode perder de vista a dimensão dos desequilíbrios entre os países (e entre as regiões), sendo muito grande o caminho a percorrer até que haja uma proximidade razoável”.261 Uma maior abertura econômica, assim, precisa considerar os efeitos que isso pode acarretar nas desigualdades presentes. Por isso, em um integracionismo regional e internacional, a convergência por pactos de estabilidade econômica deve ser induzida, na medida em que também é necessário considerar os efeitos políticos de desequilíbrios muito acentuados, ou seja, os conflitos regionais e as crises internas que a pressão da desigualdade proporciona. Como é destacado na União Europeia, um dos requisitos para a União Econômica e Monetária foi justamente a ameaça das desigualdades regionais:
A consciência da importância simultaneamente econômica e política de um maior equilíbrio que o Relatório Delors sobre a união econômica e monetária destacou a importância da coesão, sendo ‘essencial assegurar que os efeitos benéficos da união econômica e monetária se façam sentir no conjunto da comunidade’, reconhecendo que ‘desequilíbrios regionais excessivos constituiriam uma ameaça, tanto econômica como política, para a União’.262
Portanto, é uma matéria tanto de estabilidade quanto de eficiência que as desigualdades sejam reduzidas. Uma estabilidade política e social internacional e regional parece não ser possível em condições de desigualdades acentuadas. Por isso, um processo de
260 Idem, Ibidem, p. 64. 261
Idem, Ibidem, p. 250.
104 integração regional, e da mesma forma, as condições favoráveis em nível internacional, deveria partir de ajustes estruturais de forma a proporcionar mudanças para um desenvolvimento sólido. Os benefícios de resolver tais desequilíbrios superam os custos, pois além de viabilizar uma estabilidade política, valerá certamente a pena “promover certas zonas e as empresas nelas instaladas durante um determinado período, usando intervenções no mercado, se vierem a ter capacidade competitiva”.263 Ajustes estruturais planejados na integração, favorecem a abertura comercial e trazem os benefícios que um comércio livre pode proporcionar.