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Evaluating NOKUT’s role in the management of the SFU

5. Scoping interviews

5.2 Evaluating NOKUT’s role in the management of the SFU

A coleta dos dados iniciou-se por meio de uma pesquisa exploratória no primeiro semestre de 2007. No que diz respeito aos procedimentos que nortearam este processo de desbravamento do campo, optou-se por seguir as orientações de Quivy e Campenhoudt (1998) no que se refere aos benefícios de uma exploração inicial acerca da problemática do tema. De acordo com estes autores, as leituras e as entrevistas exploratórias tem como função revelar aspectos do fenômeno a ser estudado que o pesquisador não teria pensado por si só servem:

(...) para encontrar pistas de reflexão, idéias e hipóteses de trabalho, e não para verificar hipóteses preestabelecidas (...) trata-se, portanto, de abrir o espírito, de ouvir, e não de fazer perguntas precisas, de descobrir novas

maneiras de colocar o problema e não de testar a validade dos nossos esquemas (QUIVY & CAMPENHOUDT, 1998, p. 69).

Assim, foram desenvolvidas durante os anos de 2007 e 2008 três atividades. Primeiro, foram coletadoas matérias publicadas nas revistas Você S.A., Exame, Carta Capital e HSM Management entre março de 2004 e dezembro de 2008. Ao mesmo tempo, foram realizadas entrevistas de cerca de uma hora cada com alunos e professores das EJs selecionadas.

Segundo, ainda em 2008, foi elaborado um questionário cujo objetivo final59 era identificar – de forma bastante abrangente e exploratória - o que é ser empreendedor e o que é empreendedorismo para os gestores de empresas no Brasil contemporâneo. Cabe resaltar que o objetivo deste estudo não foi verificar hipóteses categóricas, mas buscar compreender melhor a visão de empreendedor e de empreendedorismo dos gestores e destacar hipóteses de pesquisa que poderiam servir de base para pesquisas posteriores, tanto quantitativas quanto qualitativas.

De forma complementar, os seus objetivos intermediários foram: (a) identificar se as representações mais recorrentes provenientes de estudos anteriores (COSTA, BARROS & MARTINS, 2008) acerca do empreendedor e do empreendedorismo estão presentes também no imaginário do gestor; e (b) identificar a origem da definição de empreendedor e empreendedorismo dos gestores pesquisados. Ou seja, quem constrói essas idéias? A mídia de negócios? A educação formal? A prática empresarial?

Assim, as relações que nortearam a elaboração do inquérito foram: (a) a relação entre as idéias de empreendedor, empresário e funcionário dedicado; (b) a relação entre empreendedorismo e geração de riqueza; (c) a relação entre sucesso e fracasso no processo de empreender (ou seja, a relação entre o empreender e a função social do empreendedor de identificação de oportunidades e sua conversão em valores econômicos); (d) a relação entre empreendorismo, o espaço acadêmico e a mídia de negócios; e (e) a relação entre educação formal e empreendedorismo. De forma

59 O questionário foi desenvolvido em cinco partes com a seguinte distribuição: (a) Opiniões e valores sobre o que é espírito empreendedor (7 perguntas); (b) Opiniões e valores sobre a idéia de inovação e de sua relação com empreendedorismo (3 perguntas); (c) Opiniões e valores sobre a relação entre exploração de oportunidades, geração de riquezas e o empreendedor (5 perguntas); (d) Opiniões e valores sobre a relação entre educação formal e empreendedorismo (7 perguntas); (e) Informações classificatórias e pessoais (9 perguntas).

complementar, as hipóteses definidas foram quatro: (1) os gestores se vêem como empreendedores; (2) a visão de empreendedor e empreendorismo é proveniente de uma prática discursiva ideológica; (3) Esta prática discursiva é reproduzida (não só, mas também) pela mídia de negócios; e (4) é corroborada pelas práticas discursivas das empresas juniores.

E terceiro, por último, foram feitas tentativas de sistematização na forma de artigos acadêmicos dos resultados iniciais desta primeira abordagem. Esta sistematização, acrescidos das discussões e debates provenientes dos fóruns onde estes foram apresentados60, permitiram – em um primeiro momento - a identificação e a seleção de um conjunto inicial de objetos discursivos vinculados ao tema do empreendedorismo, presentes tanto nas reportagens e matérias das revistas quanto no discurso dos alunos e professores vinculados às empresas juniores, quais sejam: (a) espírito empreendedor; (b) inovação; (c) exploração de oportunidades; (d) geração de riqueza; (e) sonhadores realistas; (f) sucesso profissional; (g) capitalismo empreendedor; (h) ascensão econômica no livre mercado; e (i) herói global.

Os anos de 2009 e 2010 foram de ampliação do corpo de dados da pesquisa. Assim, foram coletados as matérias publicadas nas revistas Você S.A., Exame, Carta Capital e HSM Management entre janeiro de 2009 a setembro de 2010. Ao mesmo tempo, foram realizadas as demais entrevistas, totalizando 60 entrevistados e cerca de 50 horas de gravação.

Em relação à operacionalização da pesquisa, cabe chamar a atenção para um ponto importante. No caso da CDA, o processo de operacionalização pode ocorrer de várias formas e com base apenas em diretrizes gerais. Tal afirmação ancora-se na argumentação do próprio Fairclough (2001, p.275) que defende que o método não seja utilizado de forma hermética uma vez que considera que “não há um procedimento fixo para se fazer análise de discurso; as pessoas abordam-na de diferentes maneiras, de acordo com a natureza específica do projeto e conforme suas respectivas visões do discurso”. Em sua opinião, como a análise de texto sempre pressupõe a análise simultânea de questões de forma e de significado, este autor ressalta que:

60 Os resultados desta primeira abordagem do tema foram apresentados nos seguintes encontros acadêmicos: EnEPQ 2007; Academy of Management 2008, GBATA 2008, EnEO 2008, EnANPAD 2008 e Colóquio Internacional Luso-Afro-Brasileiro 2009.

embora uma experiência prévia em lingüística, em princípio, possa ser pré-requisito para fazer análise de discurso, na verdade a análise de discurso é uma atividade multidisciplinar e não pode exigir uma grande experiência lingüística prévia de seus praticantes (FAIRCLOUGH, 2001, p.102).

No que diz respeito à área de estudos organizacionais, apenas à título de exemplificação das diversas possibilidades de utilização da CDA de Norman Fairclough, alguns trabalhos podem ser citados: (1) Rosa, Paço-Cunha e Morais (2009) que propõem um modelo analítico com base na praxeologia de Pierre Bourdieu e na CDA; (2) Misoczky (2002 apud MISOCZKY, PEREIRA & BREI, 2009 p.117) sobre a produção social do campo da atenção à saúde após a Constituição de 1988, que utiliza categorias como “antítese, equivalência, colocação, metáfora, modalidade, tom, nominalização, uso da voz passiva e pressuposição”; (3) Misoczky e Pereira (2006 apud MISOCZKY, PEREIRA & BREI, 2009) que utilizam as categorias de significado acional e gênero, significado representacional e discurso e significado identificacional e estilo para proceder a análise do discurso de Peter Drucker e sua relação com o processo de legitimação do capitalismo tardio; e (4) Brei e Misoczky (2007 apud MISOCZKY, PEREIRA & BREI, 2009), que ao analisarem o discurso da água na França, por meio de três procedimentos articulados: análise de texto, da prática discursiva e dos eventos discursivos.

De qualquer forma, no caso desta pesquisa, a operacionalização ocorreu por meio da identificação dos objetos discursivos alocando-os – respectivamente – em formações discursivas que não foram definidas à priori, mas sim, a posteriori. Desta maneira, conforme já explicitado anteriormente, o tratamento dos dados buscou seguir os preceitos metodológicos da análise crítica de discurso de Norman Fairclough por meio de três etapas.

A primeira etapa consistiu em assumir como recorte – tendo como parâmetro as três dimensões do sentido que coexistem e interagem em todo discurso61 - a função ideacional , que expressa os modos pelos quais os textos significam o mundo e seus

61 As outras duas são a função identitária (que relaciona-se com os modos pelos quais as identidades sociais são estabelecidas no discurso) e a função relacional (como as relações sociais entre os participantes do discurso são representadas e negociadas) (FAIRCLOUGH, 2001).

processos, entidades e relações. Acreditou-se que este recorte tenha sido o que mais poderia contribuir para o alcance do objetivo final desta tese.

A segunda etapa consistiu em assumir o esquema tridimensional de Fairclough (2001) e dividiu a análise em: (1) análise textual; (2) análise das práticas discursivas; e (3) análise das práticas sociais. A análise textual contemplou os quatro itens: vocabulário, gramática, coesão e estruturas textual62.

A análise das práticas discursivas contemplou a força dos enunciados (os tipos de atos de fala, tais como promessas, pedidos, ameaças, etc); a coerência dos textos e a intertextualidade dos textos. Os pontos analisados no que diz respeito à intertextualidade foram: (1) a intertextualidade manifesta, a interdiscursividade, as transformações textuais e o texto como constituidor das identidades sociais.

E a análise do discurso como prática social contemplou a discussão acerca da ideologia e da hegemonia. É esta dimensão que media as articulações mais ou menos duráveis dos diversos elementos sociais que constituem as seleções e ordenações sociais possíveis de existirem em determinado contexto histórico (no tempo e no espaço) (FAIRCLOUGH, 2005). Cabe ressaltar que, para este autor, os campos sociais, as instituições e as organizações podem ser consideradas como redes de práticas sociais. Assumindo a premissa de Fairclough (2001, p. 118) de que “embora seja verdade que as formas e o conteúdo dos textos trazem o carimbo (são traços) dos processos e das estruturas ideológicas, não é possível ler as ideologias nos textos” uma vez que estes são processos entre as pessoas, o conceito de hegemonia auxilia nesta tarefa:

fornecendo para o discurso tanto uma matriz – uma forma de analisar a prática social à qual pertence o discurso em termos de relações de poder, isto é, se essas relações de poder reproduzem, reestruturam ou desafiam as hegemonias existentes – como um modelo – uma forma de analisar s própria prática discursiva como um modo de luta hegemônica, que reproduz, reestrutura ou desafia as ordens de discurso existentes. Isto fortalece o conceito de investimento político das práticas discursivas e, já que as hegemonias tem dimensões ideológicas, é uma forma de avaliar o

62 Segundo Fairclough (2001, p.103), “Esses itens podem ser imaginados em escala ascendente: o vocabulário trata principalmente das palavras individuais, a gramática das palavras combinadas em orações e frases, a coesão trata da ligação entre as orações e frases e a estrutura textual trata das propriedades organizacionais de larga escala dos textos”.

investimento ideológico das práticas discursivas (FAIRCLOUGH, 2001, p.126).

No que diz respeito aos elementos que compõe as ordens de discurso63, a pesquisa centralizou a análise no elemento discurso e priorizou, mais especificamente, a análise da intertextualidade manifesta e da intertextualidade constitutiva abrangendo seis itens. O primeiro item analisado foi a intertextualidade manifesta. Esta foi identificada por meio das pistas analíticas dadas pela intertextualidade seqüencial (onde diferentes textos ou tipos de discurso se alternam em um texto); pela intertextualidade encaixada (onde um tipo de discurso está contido dentro da matriz de um outro); e pela intertextualidade mista (onde tipos de discursos estão fundidos de forma mais complexa e menos facilmente separável) (FAIRCLOUGH, 2001).

De forma complementar, foram analisados os cinco seguintes itens: (a) as formas de representação do discurso, entendidas como “uma forma de intertextualidade na qual partes de outros textos são incorporadas a um texto e explicitamente marcadas como tal, com recursos, como aspas e orações relatadas” (FAIRCLOUGH, 2001, p.139); (b) as pressuposições, assumidas pelo produtor do discurso como já estabelecidas ou dadas; (c) as frases negativas freqüentemente utilizadas com fins polêmicos; (d) o metadiscurso64 (e) a ironia, entendida não apenas como dizer uma coisa e significar outra, mas sim como um enunciado irônico que ecoa o enunciado de um outro.

A terceira etapa da análise de dados contemplou a identificação e categorização dos objetos discursivos acerca do empreendedor e empreendedorismo tanto das matérias das revistas de negócios quanto das entrevistas com as empresas juniores.

Por último, como as relações entre as ordens de discurso – e suas articulações – apresentam-se cruciais para o alcance do objetivo final desta tese, após a identificação e

63 Segundo Fairclough (2002; 2003), os elementos constitutivos das ordens de discurso são: gênero (conjunto de convenções relativamente estável que é associado com um tipo de atividade socialmente aprovado e implica não somente um tipo particular de texto, mas também processos particulares de produção, distribuição e consumo de textos), tipo de atividade (um gênero particular é associado a um tipo de atividade particular), estilo e, por fim, o discurso.

64 Fairclough (2001, p.157) define metadiscurso como uma “forma peculiar de intertextualidade manifesta em que o(a) produtor(a) do texto distingue vários níveis diferentes dentro de seu próprio texto e distancia a si próprio(a) de alguns níveis do texto, tratando o nível distanciado como se fosse um outro texto, externo (...) [o que] implica que o(a) falante esteja situado acima ou fora de seu próprio discurso e esteja

a categorização dos objetos discursivos foram analisadas as convergências, as divergências e os silêncios entre as formações discursivas de forma a identificar e analisar os possíveis desdobramentos ideológicos desta interdiscursividade.