Uma vez que o objeto desta pesquisa é acolhido em um recorte histórico que abrange um período de cinquenta e quatro anos 54 anos, a observação em instituições de Educação Infantil não poderia ser realizada nos períodos anteriores ao momento atual. Assim, a obtenção das informações por meio do ambiente natural, uma das características da abordagem qualitativa , de acordo com Bogdan e Biklen (1994) não foi possível ser desenvolvida nesta investigação. Contudo Selltiz et al. (1967 apud GIL, 1999, p.117) destacam que, por meio da entrevista, pode-se obter informações “[...]acerca do que as pessoas sabem, creem, esperam, sentem ou desejam, pretendem fazer, fazem ou fizeram, bem como acerca das suas explicações ou razões a respeito das coisas precedentes” .
Em função dessa possibilidade, a análise documental e as entrevistas semiestruturadas intermediaram a compreensão das práticas avaliativas para as aprendizagens desenvolvidas na Educação Infantil,. A construção das informações obtidas por meio desses procedimentos acerca da constituição e do desenvolvimento do processo avaliativo na Educação Infantil da RPEDF ocorreu, predominantemente, de forma descritiva, outra característica da pesquisa qualitativa (BOGDAN e BIKLEN,1994).
As descrições envolveram o conteúdo dos documentos acerca da avaliação para as aprendizagens na Educação Infantil, tanto no âmbito distrital, quanto no federal, bem como as concepções e práticas desenvolvidas pelas interlocutoras da pesquisa que puderam expressar os significados atribuídos por elas à infância, criança, Educação Infantil e avaliação.
O significado para Bogdan e Biklen (1994) é de fundamental importância na abordagem qualitativa. Os autores destacam que o pesquisador tem como foco de atenção o sentido que as pessoas dão às coisas e à sua vida. Significar, segundo Charlot (2000, p. 56) é:
[...] sempre algo a respeito do mundo, para alguém ou com alguém. Tem significação o que tem sentido que diz algo do mundo e se pode trocar com outros. Assim, [...] o sentido é produzido por estabelecimento de relações, dentro de um sistema, ou nas relações com o mundo ou com os outros.
Compreender o sentido atribuído pelas interlocutoras à avaliação para as aprendizagens na Educação Infantil foi intrínseco a essa pesquisa uma vez que os significados
atribuídos à avaliação afetam as práticas avaliativas. Nessa direção, as informações construídas a partir da perspectiva das participantes iluminaram a compreensão da constituição e do desenvolvimento da avaliação para as aprendizagens na Educação Infantil da RPEDF, tanto no âmbito individual, quanto no coletivo.
Uma vez que a produção do sentido, que dá significado às coisas, ocorre por meio das relações que são estabelecidas entre o sujeito e o mundo, Charlot (2000), as perspectivas das interlocutoras foram analisadas tendo em vista os sujeitos nas suas dimensões histórica e social. Essas dimensões estão em permanente movimento, em constante processo de constituição. Por essa razão, o “processo” de constituição da avaliação para as aprendizagens na Educação Infantil da RPEDF segue em direção de mais uma das características da abordagem qualitativa apresentadas por Bogdan e Biklen (1994, p.49) “[...]os investigadores qualitativos interessam-se mais pelo processo do que simplesmente pelos resultados ou produtos [...]”.
Assim, as informações expressas nos documentos e nas entrevistas realizadas foram se articulando gradativamente. Dessa forma, a interlocução com as participantes e o acesso a novos documentos fomentaram outras questões para além das que estavam dispostas no roteiro inicial e, sucessivamente, as informações foram sendo construídas no diálogo com os dados que se apresentaram, também, inesperadamente. De forma mais geral no início e mais específicas ao final. Esse modo indutivo de analisar as informações é, também, uma das características da abordagem qualitativa, segundo Bogdan e Biklen (1994).
Assim, atender ao objetivo central dessa pesquisa solicitou o olhar cuidadoso para as particularidades dos aspectos que são intrínsecos a essa investigação que tem, na sua essência, a compreensão histórica do objeto de pesquisa (a avaliação para as aprendizagens na Educação Infantil), situado em um recorte temporal (1960 a 2014), em uma organização determinada (RPEDF). Para tanto, em articulação com os princípios da pesquisa qualitativa e com as especificidades desse trabalho, optei pelo estudo de caso.
O estudo de caso, segundo André (2005), se aplica quando se quer compreender um caso particular tendo em vista o seu contexto e complexidade. Ludke e André (1986 p. 17) se referem ao estudo de caso como sendo “[...] o estudo de um caso [...] que possui interesse próprio, singular, cujo interesse, portanto, incide naquilo que ele tem de único, de particular”.
Dessa forma, a amplitude, complexidade e singularidade do objetivo geral que mobilizou esse trabalho situa-se não somente na avaliação que, por si só, já integra aqueles adjetivos, mas também, no contexto duplamente particular em que ela foi investigada: na RPEDF, com as aspirações e especificidades que mobilizaram a sua constituição, juntamente com a construção da nova capital brasileira, e na Educação Infantil, cujos objetivos e procedimentos de avaliação, na atualidade, se diferem significativamente dos que são propostos pela legislação para as demais etapas e modalidades educativas. Assim, o objeto dessa pesquisa situa-se como um caso particular que tem valor em si mesmo e reivindica ser compreendido em seu contexto e complexidade.
Outros elementos especificam esse estudo de caso: o fato de ele se referir a uma organização, ter sido desenvolvido em uma perspectiva histórica com um recorte temporal determinado, qualificando-o como “estudo de caso de organizações numa perspectiva histórica” (BOGDAN E BIKLEN, 1994, p. 90).