Como visto, o hábito do estudo pela pesquisa obteve relativamente poucas marcações no item anterior. No entanto, dada a sua importância e a facilidade para pesquisar, devido à presença de novas tecnologias, resolveu-se explorar um pouco mais este tópico. Existem estratégias que auxiliam de modo eficiente o estudo individual que são as consultas aos dicionários, às enciclopédias e à internet sempre que necessário (ADLER, VAN DOREN, 1974), como pode ser observado na Tabela 3.10. Quanto à questão “pesquisando em dicionário”, os resultados indicam que apenas 31,2% afirmaram consultar sempre (11,0%) ou freqüentemente (20,2%) o dicionário; 30,1% afirmaram que às vezes consultam, mas 38,5% declararam que raramente ou nunca consultam o dicionário (Tabela 3.10). Assim, pode-se inferir que apesar do dicionário ser um eficiente recurso para o auxílio nos estudos ele ainda não é muito utilizado pelos estudantes.
Tabela 3.10: Consultas em dicionário, enciclopédia, internet.
Sempre frequentemente às vezes raramente nunca
Uso do dicionário 11,0 % 20,2% 30,1% 26,8% 11,8%
Enciclopédia 6,5% 10,4% 23,6% 24,4% 35,1%
Internet 19,9% 31,5% 25,0% 10,7% 12,9%
Para uma análise mais profunda, fez-se necessário utilizar uma questão aberta para avaliar porque os estudantes fazem ou não o uso do dicionário. As respostas foram, de certa forma, interessantes e bastante variadas, porém foi possível identificar atitudes diferenciadas de alguns estudantes dizendo que não precisam dele e, por outro lado mostraram certo desleixo ao responderem que não o consultam por preguiça. Outras respostas como, ele amplia o vocabulário e que ele serve de brincadeira para descobrir palavras novas também foram encontradas. Exemplos:
A maioria das palavras eu sei o que é; a maioria das palavras do texto que leio eu sei; tenho um vocabulário muito extenso.
Já tenho o dicionário praticamente inteiro na minha cabeça. (sic?) Apenas com palavras desconhecidas.
Apenas quando não sei e não consigo entender pelo contexto.
Aprendo palavras e expressões que ajudam no estudo e no meu vocabulário.
Dá preguiça e muitas vezes não vejo necessidade.
Eu e meu irmão ficamos brincando de procurar palavras novas. Eu gosto de descobrir palavras novas.
Preciso saber como se escreve determinada palavra, prefiro usar a
internet.
Outra estratégia é “pesquisar com enciclopédia”. Nesta, por sua vez, percebeu-se pelas explicações dadas, que alguns estudantes afirmaram nem sequer conhecer o que é uma enciclopédia. E ao se analisar a Tabela 3.10 percebe-se que apenas 16,9% confirmaram consultar enciclopédia sempre ou freqüentemente e 59,5% afirmaram que raramente ou nunca consultam enciclopédia. Logo, parece que as escolas de ensino médio não dão muito valor para deixar aos estudantes
enciclopédias adequadas para o ensino médio, talvez porque enciclopédias estejam em desuso por causa da internet.
De modo aberto, essa pesquisa quis saber também por que os estudantes consultam ou não as enciclopédias e as respostas foram bem interessantes. Vários estudantes indicaram que pesquisam nas enciclopédias que existem na internet, mas existem também outras opiniões como: é uma fonte de pesquisa, os livros já são suficientes, as enciclopédias não são disponíveis, as enciclopédias estão ultrapassadas:
A internet é mais acessível; é um bom meio para pesquisas, mas a internet é mais fácil;
É uma ótima fonte de pesquisa;
Pesquisas, pois aulas como geografia e história despertam curiosidade, pois ela tem informações úteis;
Porque tenho difícil acesso a elas, prefiro internet.
Por fim, uma estratégia muito utilizada hoje para estudo individual é a internet (DEMO, 1999b). Apesar de muitos participantes terem declarado, em questões abertas, que não possuíam computador em casa ou tão pouco poder conectar-se à
internet, seu acesso é bem maior quando comparado com as enciclopédias. Neste
sentido percebe-se que tanto as escolas (as escolas onde os dados foram coletados tinham sala de computador) quanto os próprios estudantes dão um maior enfoque e prestígio a esse meio de informatização e informação. Um número expressivo de estudantes (51,4%) disse utilizar-se da internet para o estudo individual (Tabela 3.10).
Ao se perguntar se estudam ou não pela internet, alguns motivos reais foram indicados para sua utilização. As respostas foram muito significativas, como a grande extensão de assuntos encontrados nela, a praticidade, a facilidade para pesquisar. Por outro lado, respostas como: os livros são mais confiáveis, o computador distrai mais que os livros, a internet contém muitos erros e é utilizada apenas para divertimento e lazer também foram encontradas. Como exemplos:
A internet é a fonte de estudo que mais uso, pois você consegue encontrar tudo lá;
Acho prático e desperta mais meu interesse; Acho que os livros são mais confiáveis;
Aprofunda o conhecimento e as respostas chegam logo, e, se tenho alguma dúvida, dou um click e chego à resposta;
Assim se torna mais fácil pesquisar, não precisa ficar com um monte de livros, porque é bem mais divertido e é bem mais fácil achar tudo pela
internet;
Uso só para divertimento.
Outras estratégias são utilizadas como alguns trabalhos científicos. Esses são essenciais na universidade, porém no ensino médio parece que a grande maioria deles ainda não chegou a fazer parte integrante da didática dos professores e estudantes. Examinando a Tabela 3.11, referente aos trabalhos científicos, os que mais se destacaram foram os relatórios 69,4%; as resenhas 42,7% e os ensaios 28,1%.
Tabela 3.11: Trabalhos realizados pelos estudantes do ensino médio.
Relatório resenha ensaio
Sim 69,4% (N=247) 42,7% (N=152) 28,1% (N=100 ) Não 30,6% (N=109 ) 57,3% (N=204) 71,9% (N=256)
3.4.2 Estudo em grupo
A vivência em grupo é a condição natural do indivíduo, assim a relação entre estudo e grupo é um fator importante a ser analisado (GALLIANO, 1979; LIMA, 1979; MAILHIOT, 1991). Quanto aos resultados (Tabela 3.12), 43,1% afirmaram gostar de estudar em grupo sempre (23,4%) ou freqüentemente (19,7%). Apenas 16,5% responderam nunca gostar de trabalhar em grupo (LEWIN, 1975).
Tabela 3.12: Se os estudantes gostam ou não de estudar em grupo
Sempre freqüentemente às vezes raramente nunca
23,4%
(N=82) (N=69) 19,7% 27,6% (N-97) (N=45) 12,8 (N=58) 16,5
Quando os estudantes foram instigados a responder, em uma pergunta aberta, os motivos porque eles gostavam ou não de estudar em grupo, alguns declararam, como aspecto negativo, que sempre saem conversas laterais que atrapalham o estudo. No que concerne a aspectos positivos, diversos afirmaram que faltava concentração no estudo individual; outros ainda disseram que estudar em
grupo facilita aprender a matéria; que existe uma troca de experiências que auxilia a aprendizagem; que um colega pode ajudar o outro a entender. No entanto, alguns estudantes disseram simplesmente que preferem estudar sozinhos:
Sempre sai conversas laterais em vez de estudo; acaba atrapalhando; acho que em grupo é mais difícil, pois tem muita conversa paralela;
Acho que atrapalha, não dá para concentrar;
Acho que quando tem muita gente junta, atrapalha um pouco o andamento do estudo;
Ajuda a entender melhor a matéria;
Alguma coisa que um não sabe o outro sabe;
Aprendo melhor sozinha; às vezes prefiro estudar sozinha;
Às vezes tem um inteligentão que quer se mostrar e acaba complicando; prefiro pesquisar sozinha;
Às vezes uma matéria pode ser mais fácil para você do que para o outro e então pode haver ajuda, assim podemos tirar as nossas dúvidas com alguém do nosso nível, cada um se ajuda e ajuda o outro;
Discutindo e trocando idéias fica mais fácil aprender;
Você se distrai e aprende mais, estudar sozinho é muito ruim, dá preguiça.
Percebe-se que uma grande maioria de estudantes sai do ensino médio com um conceito bastante negativo a respeito do estudo, principalmente dos trabalhos em grupo. Acontece, como declarado pelos próprios estudantes, que não são todos que realmente se interessam e se responsabilizam por suas tarefas nesses trabalhos e assim se encostam nos colegas e esperam que eles façam o trabalho designado para o grupo. Aqueles que de fato sabem usar essa estratégia afirmaram que aprendem e aprendem de modo qualitativo, porque conseguem perceber o conteúdo de vários ângulos, conforme as experiências repartidas de cada um dos participantes.