4. METHODOLOGICAL CONSIDERATIONS
4.3. Ethical considerations
No ensino online, as várias tarefas e papéis exigidos do professor são classificados por PALLOFF e PRATT (2002), citando Mauri Collins e Zane Berge, em quatro áreas: pedagógica, social, gerencial e técnica.
A função pedagógica é definida como aquela que gira em torno da facilitação educacional. O papel do professor é o de garantir que algum processo educativo ocorra entre os alunos. Ele deve conduzir o processo de ensino de maneira a permitir aos alunos explorar não só o material do curso, mas também materiais a ele relacionados, sem restrições.
A mais importante dessas áreas para o foco desta pesquisa é a função social. Ela diz respeito ao fomento de um ambiente social amigável, que é essencial à aprendizagem online. O professor é responsável por facilitar e dar espaço aos aspectos pessoais e sociais da comunidade a ser criada no curso, com o objetivo de que este seja uma experiência bem- sucedida. Collins e Berge referem-se a esta função como “estímulo às relações humanas, com a afirmação e o reconhecimento da contribuição dos alunos; isso inclui manter o grupo unido, ajudar de diferentes formas os participantes a trabalharem juntos por uma causa comum e oferecer aos alunos a possibilidade de desenvolver sua compreensão da coesão do grupo” (apud PALLOFF e PRATT, 2002, p.104). De acordo com os autores, estes elementos são a essência dos princípios necessários para construir e manter uma comunidade virtual.
A função gerencial envolve normas referentes ao agendamento do curso, ao seu ritmo, aos objetivos traçados, à elaboração de regras e à tomada de decisões. Em instituições de ensino, geralmente, é o professor quem envia um programa para o curso, incluindo atividades, formas de avaliação, diretrizes, etc. Em cursos online colaborativos, normalmente, o professor é também o seu administrador.
Da familiaridade do professor com a tecnologia utilizada no curso depende a função técnica. Se o professor souber usar a tecnologia e sentir-se à vontade com ela, passará segurança aos alunos e estes, por sua vez, também se sentirão à vontade no ambiente virtual.
Em outras palavras, em cursos a distância online a tecnologia precisa ser tão clara/transparente quanto possível.
No entanto, para que a intercomunicação didática aconteça, o professor de um curso online colaborativo, além de executar as tarefas pertinentes a cada uma das funções descritas, deve ser uma pessoa que acredita na modalidade de Educação a Distância para o processo de ensino-aprendizagem, compartilha de seus pressupostos, entende e assume o seu papel de sujeito comunicante (PENTEADO, 2002) no contexto do curso.
Tardiff e Lessard classificam a docência como uma “profissão de relações humanas” (2005, p.68) e, citando Habermas, definem a atividade comunicacional como aquela que
envolve a interação entre, ao menos, dois sujeitos capazes de falar e agir que iniciam uma relação interpessoal (seja por meios verbais ou não-verbais). Os agentes buscam um entendimento sobre uma determinada situação, para estabelecer consensualmente seus planos de ação e, consequentemente, suas ações. O conceito central de interpretação diz respeito, antes de tudo, à negociação de definições para as situações suscetíveis de um consenso. Nesse modelo de ação, a linguagem ocupa um lugar proeminente. (Tardiff e Lessard, 2005, p.248-9)
A metodologia comunicacional de ensino proposta por PENTEADO (2002), entende que o agir comunicacional deve reconhecer as interferências sociais e culturais nos processos de comunicação escolar. Em função disso este agir passa a:
Ocorrer de forma processual englobando, em cada uma das etapas, procedimentos que vão do planejar ao avaliar;
Compreender a voz do professor e as vozes dos alunos, entrecruzando seus diferentes discursos como o pedagógico; o científico; o dos diferentes segmentos sociais e o das mídias, que atravessam toda a sociedade de maneira transversal; Admitir que outras forças estão presentes ou interferem no agir comunicacional, de
tal forma que ele se constitui num interagir que conecta “outros”: docentes e alunos presentes ou ausentes, todos os “outros” significativos de cada um (família, religião, etc.) e da sociedade em geral;
Considerar o amplo e diversificado leque de linguagens presentes na sociedade, por meio das quais são abordados os objetos do conhecimento e se realiza a comunicação humana;
Considerar a presença crescente das mídias interativas em praticamente todos os momentos da nossa vida social e individual.
A fluência tecnológica18 em conjunto com o agir comunicacional, são elementos importantes para que o professor se torne um arquiteto cognitivo (LÉVY, 1993) dinamizador da inteligência coletiva19 (RAMAL, 2002). Neste novo perfil, o professor é um profissional capaz de traçar estratégias e mapas de navegação que permitam ao aluno empreender, de forma autônoma e integrada, os próprios caminhos de construção do (hiper) conhecimento em rede, assumindo, para isso, uma postura consciente de reflexão-na-ação e fazendo um uso crítico das tecnologias como novos ambientes de aprendizagem. (LÉVY, 1993)
O novo professor surge, diante desse ciberpanorama, como um estrategista do conhecimento. É o estudioso dos processos mentais, que sabe elaborar e testar hipóteses sobre as melhores formas de construção da árvore de competências, conteúdos e habilidades de cada aluno e de cada grupo de estudantes. Identificando as inúmeras possibilidades do mapa dos percursos, indica caminhos, propõe desafios e metas, desenha os mapas de navegação da mente. (Ramal, 2002, p.193)
Ainda, segundo a autora, como dinamizador da inteligência coletiva o professor é responsável pelo gerenciamento de processos de construção cooperativa do saber, transformando grupos heterogêneos em comunidades inteligentes, flexíveis, autônomas e felizes, integrando as múltiplas competências dos estudantes com base em diagnósticos permanentes, convidando ao diálogo interdisciplinar e intercultural nas pesquisas realizadas, promovendo a abertura dos espaços e dos tempos de aprendizagem e estimulando a comunicação interpessoal por meio da pluralidade de linguagens e expressões possíveis pela TICs.
Para o professor dinamizador da inteligência coletiva, como responsável pelo gerenciamento de processos de construção cooperativa do saber, os percursos percorridos pelo aluno para apresentar uma determinada resposta a uma atividade, dizem muito mais sobre o desenvolvimento de suas habilidades e competências do que as respostas finais dadas. Ao estimular a parceria entre os participantes de um curso, o professor se torna parte do grupo e
18 O conceito de fluência tecnológica usado nesta pesquisa baseia-se na revisão conceitual de fluência em
Tecnologias de Informação apresentada no Livro Verde da Sociedade da Informação no Brasil, em que “... o Comitê de Alfabetização em Tecnologias de Informatização, instituído pelo Conselho Nacional de Pesquisas dos EUA propunha a noção de fluência em contraposição à alfabetização para denotar a ‘capacidade de reformular conhecimentos, expressar-se criativa e apropriadamente, e produzir e gerar informação (em vez de meramente compreendê-la)’. Onde o objetivo dessa revisão conceitual era endereçar o problema de pessoas que, embora ‘alfabetizadas’ no mundo digital, necessitavam de algo mais para efetivamente funcionar na sociedade da informação” (Livro Verde, 2000, p. 49).
Complementando o conceito acima, ter fluência tecnológica é possuir conhecimentos tecnológicos básicos e habilidades específicas. Tais habilidades se traduzem em saber utilizar alguns recursos do computador, como, por exemplo: editor de textos, planilha eletrônica, software de apresentação, navegar e pesquisar na Internet, enviar e receber e-mails, anexar, compactar e descompactar arquivos, fazer download e upload de arquivos.
19 “Para Pierre Lévy, a inteligência coletiva é uma inteligência distribuída por toda parte, incessantemente
valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das competências e cuja base e objetivo são o reconhecimento e o enriquecimento mútuos das pessoas.“ (Ramal, 2002, p.205)
“se descobre como dinamizador e sujeito que, ao mesmo tempo em que dirige, pensa sobre o processo educativo, encontra as estratégias mais adequadas para ir lançando novos desafios aos estudantes, considerando as diversas variáveis que lhe aparecem em cada situação, e torna a turma um grupo de colaboração e construção coletiva do conhecimento” (ibid., p.206)
Ao transformar grupos heterogêneos em comunidades inteligentes, flexíveis, autônomas e felizes, desfaz-se o modelo educacional massificador. Ao reconhecer que as trajetórias são individuais e que os grupos são heterogêneos, o dinamizador da inteligência coletiva reconhece as diversas personalidades, os diferentes talentos e as especificidades do contexto histórico e de vida dos seus alunos e propõe situações de aprendizagem adequadas para estimular e desenvolver a inteligência, promovendo autonomia.
Para integrar as múltiplas competências dos estudantes com base em diagnósticos permanentes o professor-dinamizador deve fazer uso constante da observação e do registro do desenvolvimento dos alunos. Numa situação educacional em que os processos são mais importantes na construção do conhecimento do que os produtos, a avaliação não acontece de forma pontual só no fim das etapas. Ela é contínua, desenvolvida ao longo do curso e os resultados obtidos são usados para adequar cada vez mais os processos aos alunos, ajudando- os a aprender de diferentes formas.
Convidando o aluno ao diálogo interdisciplinar e intercultural nas pesquisas realizadas, o dinamizador da inteligência coletiva constrói uma pedagogia intercultural, ou seja, baseada no movimento e na reciprocidade. Desta forma, possibilita, no currículo do curso, “a abertura ao outro, reconhecendo que a sua experiência é fundamental para a constituição da subjetividade e para a produção do saber coletivo” (ibid, p.222).
Promover a abertura dos espaços e dos tempos de aprendizagem e estimular a comunicação interpessoal por meio da pluralidade de linguagens e expressões possíveis pela TICs, faz do dinamizador um professor que promove a hipertextualidade e a interação entre os participantes de um curso. Na cultura dos cursos online colaborativos, comunicação e educação se misturam. Aproveitando o melhor das tecnologias de informação e comunicação para o processo de ensino-aprendizagem, o papel do professor amplia-se do informador de conteúdo para o orientador de aprendizagem por meio de um processo comunicacional amplo. “Do ponto de vista da ação comunicacional, ensinar não é, tanto, fazer alguma coisa, mas fazer com alguém alguma coisa significativa” (Tardiff e Lessard, 2005, p.249). A
comunicação implica na compreensão do conteúdo pelos sujeitos intercomunicantes. É sobre este conteúdo, ou a propósito dele, que se estabelece a relação comunicativa.
Para FREIRE (1977), é indispensável que para o ato comunicativo ser eficiente haja um acordo entre os sujeitos comunicantes. Neste acordo, a linguagem de um tem que ser percebida dentro de um quadro significativo comum ao outro, pois “não há pensamento que não esteja referido à realidade, direta ou indiretamente marcado por ela, do que resulta que a linguagem que o exprime não pode estar isenta destas marcas” (ibid., p.70). Portanto, a comunicação eficiente deve privilegiar a relação “pensamento-linguagem-contexto” (realidade) para que aquilo que está sendo dito ao aluno (não importa se por meio do texto de conteúdo, das mensagens de e-mail ou fórum, se no bate-papo do chat ou por qualquer outra ferramenta/dispositivo comunicacional disponível no LMS) faça sentido, seja possível de entender e sirva ao seu fim maior no contexto educacional, a aprendizagem.
O estabelecimento de uma comunicação que preze todos esses elementos (uma intercomunicação didática), tem como principal objetivo oferecer melhores condições de aprendizagem ao grupo de participantes de um curso online colaborativo.