O estudo e avaliação do comportamento postural e do equilíbrio do Homem, tem sido realizado há mais de uma centena de anos (Godinho, 2006). Quando se analisa a postura corporal, frequentemente recorre-se à postura em pé. Independentemente da postura em que a
Um dos métodos mais primitivos, populares, baratos e não-invasivos para se avaliar a postura corporal estática é a utilização de um fio-de-prumo (uma linha perfeitamente vertical), nas posições ortostáticas frontal/posterior e sagital. Numa postura perfeitamente alinhada, a linha posterior está nivelada com o centro do corpo, dividindo-o em metades, direita e esquerda (Mosculino, 2008). Consideram-se várias linhas que devem estar no mesmo plano horizontal: linha entre as pupilas, linha entre os dois tragus, linha entre os dois mamilos, linha entre os dois ossos estiloides, a cintura escapular e a cintura pélvica. Considerando um alinhamento normal, o corpo projeta-se no solo precisamente no centro do quadrilátero de sustentação, equidistante dos dois pés (Bricot, 1999). A partir daí, pode-se inferir acerca da simetria das duas hemipartes (Mosculino, 2008). Por sua vez, a análise da postura no plano sagital permite a caracterização de ajustes ou alterações posturais nesse plano. Através da linha de prumo, no plano sagital, pode descrever-se a estática normal com a ajuda de um vetor vertical que passa pelo vértex, a apófise odontoide da segunda vértebra cervical (C2) e pelo corpo vertebral de L3. O plano escapular e o plano glúteo estão alinhados. Na postura normal, o ângulo sacral é de 32º, o disco L3/L4 está horizontal e a vértebra L3 é a mais anteriorizada (Bricot, 1999). A postura ideal no plano sagital pode ser descrita da seguinte forma: a linha vertical deve passar ao nível do canal auditivo externo, da apófise acromial da omoplata, do grande trocânter do fémur, da articulação do joelho e do maléolo lateral do perónio (Kendall, McCreary, Provance, Rodgers & Romani, 2005; Mosculino, 2008).
No entanto, ao longo do tempo foram-se verificando desvantagens relacionadas com esta forma de avaliação, nomeadamente, é francamente inadequada para a avaliação de alterações posturais rotacionais no plano transversal, uma vez que se trata de um plano horizontal. Além disso, a linha de prumo é útil, apenas, na avaliação da postura em pé. Perante indivíduos que passam a maior parte do tempo sentados ou deitados, ou quando as condições de saúde não permitem que permaneçam em pé, não é relevante analisar a postura em pé (Mosculino, 2008).
A análise da imagem radiográfica é ainda hoje a forma mais popular de diagnóstico de alterações posturais. No entanto, é um método de avaliação dispendioso, a portabilidade do equipamento de raios X é limitado, a exposição aos raios X é problemática e o tempo necessário à análise das imagens radiográficas é elevado (Greendale, Nili, Huang, Seeger & Karlamangla, 2011).
mostraram que este método não é preciso, apresentando pobre precisão intra e inter-avaliador. A avaliação visual com recurso à fotogrametria deve ser usada em combinação com outro método de avaliação da postura corporal (Fedorak et al., 2003).
A fotogrametria também pode ser utilizada para a obtenção de ângulos e distâncias corporais, recorrendo-se a marcas anatómicas e a diferentes softwares (Visscher, De Boer, Lobbezoo, Habets & Naeije, 2002; Zonnenberg, van Maanem, Elvers & Ostendorp, 1996). A fotogrametria pode aumentar a precisão da avaliação de alterações posturais, detetando diferenças qualitativamente menos evidentes (Gadotti & Biasotto-Gonzalez, 2010). Este método de avaliação possui consistência intra-avaliador (Glaner et al., 2012; Zonnenberg et al., 1996), embora a consistência inter-avaliador pareça ser mais elevada comparativamente a outras formas de avaliação (Iunes et al., 2009; Zonnenberg et al., 1996). As desvantagens apontadas quanto à fotogrametria dizem respeito à precisão (ou imprecisão) dos dados e à dificuldade na comparação com outros estudos, devido à falta de padronização dos pontos anatómicos e do significado das medidas angulares utilizadas (Glaner et al., 2012). No entanto, várias vantagens são salientadas, sobretudo para avaliação da postura corporal no plano sagital: (a) o alinhamento da coluna no plano sagital corresponde a valores angulares diferentes de zero, o que reflete melhor evoluções clínicas posturais em comparação com o plano frontal, cujos valores tendem a zero (simetria); (b) os resultados deste método de avaliação são mais precisos quando os marcadores anatómicos de referência são utilizados em detrimento de referências externas (como no caso da utilização do fio-de-prumo) (Dunk, Lalonde & Callaghan, 2005); (c) possibilita a quantificação bidimensional do corpo, complementando a avaliação clínica (Glaner et al., 2012).
Outras formas de avaliação não-radiológicas foram surgindo. Posturografia é um termo aplicado para definir as técnicas utilizadas para medir a estabilidade postural em plataformas de medição estáticas ou dinâmicas. O princípio da posturografia computorizada estática é a deteção do centro de pressão dos pés, em posição vertical, num meio de suporte (uma plataforma posturográfica) de modo a que o centro de gravidade corporal seja mantido sem projeção do corpo (Valis, Drsata, Kalfert, Semerák & Kremlácek, 2012). Assim, podem ser retiradas ilações acerca de padrões posturais específicos através das oscilações do corpo na posturografia, o que expressa a predominância de input sensoriais específicos de cada indivíduo (Bruno et al., 2009).
Um dos métodos não-radiológicos, rápidos e fáceis de serem utilizados para análise das curvaturas sagitais da coluna vertebral é o método Flexicurve. A régua Flexicurve (Arts Supply
Flexicurve é colocada na mesa para que seja desenhada em papel, ou tirada uma fotografia, a configuração da Flexicurve, para posterior medição e análise dos dados (Quek, Pua, Clark & Bryant, 2013). A validade e precisão deste método têm sido verificadas em diversos estudos (Greendale et al., 2011; Simpson, 1989; Tillotson & Burton, 1991). Com base no registo (em papel ou fotográfico) da postura sagital de determinado indivíduo, é traçada uma linha vertical unindo a vértebra C7 e o espaço intervertebral entre a quinta vértebra lombar (L5) e a primeira vértebra sacral (S1) para determinação dos cumprimentos das curvaturas torácica e lombar (MacIntyre, Bennett, Bonnyman & Stratford, 2011). Para caracterizar a curvatura torácica pode ainda ser estudado o índice de cifose torácica (índice cifótico ou IC) através da equação IC = PT/CT × 100. Este parâmetro é determinado a partir do CT, referido anteriormente, e também da profundidade torácica (PT). Inclusivamente, Greendale et al. (2011) determinaram um grau de precisão concorrente relativamente à medição da cifose através deste método (rde Pearson = 0,69). Através deste método pode, ainda, ser calculado o ângulo cifótico, o qual é calculado através de linhas desenhadas perpendicularmente aos lados mais curtos do triângulo formado pela curva torácica (Greendale et al., 2011).
Semelhante ao método Flexicurve é o método que utiliza o Digital Inclinometer (Saunder’s digital inclinometer, Empi Therapy Solutions), medindo os ângulos cervico-torácico, torácico-lombar e lombo-sagrado (MacIntyre et al., 2011; Saunders, 2008). No mercado, pode ainda encontrar-se o Debrunner kyphometer. O método de análise da hipercifose com base neste instrumento consiste na utilização de um transferidor montado em dois braços, cujas extremidades estão posicionadas em pontos ósseos específicos e a hipercifose é lida no transferidor (Greendale et al., 2011; Lundon, Li & Bibershtein, 1998).
Existem, ainda, outros métodos que permitem o estudo e avaliação da postura sagital da coluna vertebral. Roussouly et al. (2005) descreveram um método que permite a caracterização das variações normais no alinhamento sagital da coluna e as associações entre a coluna lombar e a pelve. Este método assenta num programa de computador personalizável, que constrói um modelo de curvaturas em três dimensões para análise da anatomia da coluna vertebral com base em radiografias digitalizadas (Optimage, Lyon, France).
Estes métodos são relativamente robustos quanto à deteção de variações no contorno da coluna e na deteção de alterações relativamente ao alinhamento sagital da coluna vertebral e, por esta razão e pelo facto de serem baratos, rápidos, fáceis de utilizar, não-evasivos (Greendale et al., 2011), a fotogrametria digital e o método Flexicurve foram os procedimentos utilizados
1.3.3. Caracterização do alinhamento da coluna vertebral, no plano sagital, no