O principal argumento utilizado contra a exportação de gado vivo era que o país perdia ao exportar o produto primário, sem valor agregado. Essa discussão remete à contribuição que cada elo da cadeia produtiva faz à geração de renda do estado. Muito embora poucos estudos tenham sido feitos sobre a agregação de valor da cadeia produtiva de gado de corte, há dados que comprovam a perda de margem de comercialização dos pecuaristas ao longo da última década, não obstante a maior contribuição da pecuária para o PIB da agropecuária no Pará.
Santana (2002) analisou a cadeia produtiva da pecuária de corte no estado do Pará e concluiu que, da carne bovina comercializada em Belém, em média, a margem do produtor era da ordem de 44,25% do valor de venda no varejo, enquanto que os agentes de comercialização, frigoríficos e varejo, ficavam com 55,75%. Deste percentual, 19,69% ficavam com os frigoríficos e 36,06% ficavam com os supermercados. Segundo a organização não governamental Amigos da Terra, em seu relatório O Reino do Gado, utilizando dados da Scot Consultoria, a margem de lucro do varejo na venda do quarto traseiro bovino de 16,5 arrobas, em São Paulo, em maio de 2006, era 82% superior ao lucro da venda da mesma peça pelo pecuarista e 71% em relação ao atacado carcaça, vendido pelo frigorífico (SMERALDY; MAY, 2008). Muito embora seja difícil a comparação objetiva entre os cálculos dos dois estudos, em virtude das diferentes metodologias e cortes empregados, há diversas evidências da perda de margem dos pecuaristas ao longo da última década, em benefício do varejo, sobretudo (SMERALDY; MAY, 2008, p. 30).
Essa perda de margem do pecuarista ocorre muito embora a pecuária seja responsável pela maior parte do PIB da agropecuária no estado, participando com 61% desse valor. Ao todo, o PIB da agropecuária representa 7,4% do PIB estadual, num total de R$ 3,8 bilhões (SCOT CONSULTORIA, 2012)15. Além disso, a pecuária é o elo da cadeia produtiva de gado de corte com mais encadeamentos na economia local, principalmente no comércio, em razão da maior necessidade de compra de insumos (ver Figura 1). Além do comércio de insumos, o transporte de gado, por meio de caminhões boiadeiros, representa uma das maiores ligações da cadeia produtiva com a economia local, por meio de uma rede de serviços, de reparos e manutenção, venda de autopeças, combustíveis e lubrificantes. Somente a exportação de gado em pé em 2011, num montante de 402 mil cabeças, demandou um número de 19,4 mil caminhões, com a contratação de 38,8 mil fretes. Durante pesquisa de campo, constatou-se que nenhuma unidade frigorífica trabalhava com caminhões próprios, todos haviam terceirizado o serviço, sendo que o valor do frete, do caminhão boiadeiro, é quase que totalmente pago pelo pecuarista (somente o JBS de Tucumã oferece desconto de fretes para fazendas localizadas próximas à unidade)16.
Figura 2- Cadeia Produtiva da Pecuária
15
Relatório elaborado pela Scot Consultoria, encomendado para a Associação Brasileira dos Exportadores de Gado.
16 Essa dependência dos frigoríficos em relação aos caminhoneiros e empresas de transporte de gado aumentou após o pedido de recuperação judicial dos frigoríficos na região, quando muitos pecuaristas passaram a só vender o gado mediante pagamento à vista. Neste momento, as transportadoras de gado, em muitos casos, serviram como avalistas dos frigoríficos, em caso de inadimplência destes.
Fazenda
Genética Benfeitorias Alimentos
Tourinhos Receptores Sêmen Embriões Hormônios Troncos Balanças Cochos Bebedouros Pastagem Sementes de pastagem Defensivos Corretivos Fertilizantes Lona para ensilagem
Sementes híbridos Suplementos minerais Núcleo Farelo Maquinário Tratores Implementos Diesel Lubrificantes Medicamentos Vitaminas Antibióticos Endectocidas Vacinas Aftosa Clostridioses Brucelose Raiva
Fonte: SCOT CONSULTORIA (2012).
Muito embora a defesa da exportação de carnes com base no maior valor agregado, a atividade de abate dos frigoríficos possui uma limitada capacidade de efeitos de encadeamento com a indústria local, uma vez que, além da mão de obra e do gado, são poucos os insumos adquiridos localmente. Amin et al. (2009), em estudo sobre 32 frigoríficos localizados no estado do Pará, incluindo aqueles com SIM, SIE e SIF, constatou que, em 66,6% dos casos, a procedência dos produtos químicos consumidos na produção vinham de outros estados. Especialmente os frigoríficos com SIF, ou seja, a grande maioria daqueles situados na região Sudeste do Pará, em virtude do maior rigor para atender a legislação ambiental, consomem maior quantidade de produtos químicos, os quais não são fornecidos no mercado local (AMIN; DALLEMOLE; MENDES, 2009, p. 12). Além disso, os grandes grupos, como o JBS, com sede em outros estados, geralmente concentram a compra de insumos pela matriz, mantendo nas unidades locais apenas departamentos de compra de gado.
De acordo com as entrevistas realizadas durante pesquisa de campo, a exportação de bovinos vivos se mostrou motivo de preocupação para três dos seis entrevistados, dois se disseram indiferentes, em razão de também exportarem bovinos vivos, mas reclamaram, contudo, da alta tributação incidente sobre os frigoríficos, em comparação com os pecuaristas. A preocupação com a exportação de bovinos vivos pareceu ser maior entre os administradores de frigoríficos de Marabá e região próxima, enquanto os da região de Xinguara e Rio Maria se disseram menos afetados. Isso provavelmente se deve à maior demanda por gado para exportação nas regiões mais próximas ao porto de Belém, por onde são embarcados os animais.
7.6 CONCLUSÃO
Entre 2006 e 2010 o estado do Pará exportou cerca de dois milhões de cabeças de bovinos vivos, não por acaso esse foi o período de maior queda no rebanho do estado, muito embora, essa redução do rebanho também tenha
ocorrido em nível nacional. No entanto, é inegável que, diante do excesso de capacidade instalada, a exportação de mais de 600 mil animais em 2010 acirrou ainda mais as tensões nas relações entre fazendeiros e empresários, os quais, reunidos em volta de suas respectivas entidades de classe, recorreram ao poder público no sentido de tentar resolver o impasse na produção, ou seja, escoamento da produção para o mercado externo, em detrimento da indústria local.
A argumentação empregada pelas entidades na defesa da interdição da exportação de gado em pé fundamentava-se na necessidade de agregação de valor aos bens exportados, de modo a melhorar as relações de troca da balança comercial. Pensamento esse que retoma as idéias da teoria de comércio exterior da CEPAL, sobretudo quanto à importância do processo de industrialização para o desenvolvimento econômico. Contudo, a indústria dos frigoríficos agrega pouco valor aos seus produtos, seus efeitos de encadeamento com a indústria local são ainda limitados, no sentido de alavancar o crescimento da região.
Deve-se ressaltar também o aspecto conjuntural da ascensão das exportações paraenses de gado vivo, motivadas por medidas domésticas em dois países, notadamente, a nacionalização da indústria agropecuária empreendida por Chávez na Venezuela, e o reforço da fiscalização das normas sanitárias no Líbano. Todos esses fatores conferem um elemento de incerteza quanto à continuidade do fenômeno, e seus efeitos sobre a pecuária paraense, uma vez que possuem causas exógenas e pontuais. No entanto, diante de uma significativa redução no rebanho bovino e de um aumento sem precedentes da capacidade de abate, o fornecimento de gado vivo ao mercado externo certamente reduziu a oferta interna e contribuiu para sustentar o preço da arroba no mercado local.
8 A CRISE FINANCEIRA INTERNACIONAL E RETRAÇÃO DA INDÚSTRIA DE FRIGORÍFICOS
8.1 INTRODUÇÃO
Em 2008, eclodiu uma das mais graves crises econômicas desde a Grande Depressão de 1929 a afetar a economia mundial. Calcula-se que apenas ativos financeiros nas bolsas tenha-se perdido, desde então, ao redor de US$ 25 trilhões (NAUDÉ, 2009). Iniciada no mercado imobiliário norte- americano, essa crise se propagou por toda a economia mundial e, em 2009, interrompeu um ciclo de crescimento de crescimento produtivo da economia brasileira que vinha desde 2002. No primeiro trimestre de 2009, a economia brasileira encolheu 2,7% e as exportações brasileiras de carnes e derivados caíram 22,6%. Nesta seção vamos avaliar os efeitos da crise internacional sobre os frigoríficos paraenses, estendendo a pesquisa até o estado do Mato Grosso, em razão da proximidade tem com o Sudeste paraense.