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Depredadores marinos apicales como especies de estudio

A discussão em torno das causas das crises de superprodução se constituiu em um dos primeiros grandes embates da ciência econômica. Na escola clássica, as crises eram resultantes do desequilíbrio temporário entre a oferta e a demanda, à medida que os preços subissem acima do nível de equilíbrio e incentivassem os empresários a investir mais na produção, gerando uma crise de superprodução. Essa concentração de capitalistas em uma indústria, atraídos por um preço acima do preço de mercado, gradualmente faria baixar os preços da mercadoria, em consequência do aumento da produção, conduzindo os preços de volta para o preço de equilíbrio, o que então “garantirá que a procura agregada não só seja igual à oferta agregada, como também que a oferta e a procura de cada mercadoria sejam iguais” (HUNT, 1985, p. 156).

Por outro lado, de acordo com a teoria marxista, as crises econômicas pertencem à própria natureza do capitalismo. A busca dos capitalistas pelo

aumento dos lucros implicaria na manutenção dos salários dos trabalhadores no nível de subsistência, contudo, em períodos de acumulação, o aumento da produção reduziria o nível de desemprego até um ponto mínimo de manutenção do exército industrial de reserva. Dada a impossibilidade de se baixar o nível dos salários ainda mais, os capitalistas buscariam a expansão do produto por meio da introdução de novas técnicas de produção e maior emprego de máquinas, em detrimento da contratação de novos trabalhadores. Essa mudança na composição orgânica do capital permitia o aumento na produção sem a correspondente elevação da massa de salários dos trabalhadores, capaz de absorver o número maior de mercadorias disponibilizadas no mercado. Como resultado, os capitalistas não conseguiam transformar as mercadorias em dinheiro, realizando o lucro gerado pela mais- valia (HUNT, 1985, p. 246). No entanto, a persistência dos ciclos de crescimento e crise do sistema capitalista levou alguns autores marxistas a expandir as teses de Marx quanto às possibilidades de superprodução, ressaltando a importância do comércio internacional como fonte de demanda para a indústria doméstica. A teoria do imperialismo de Lênin enfatizava a importância da concentração da indústria em empresas cada vez maiores, organizadas em monopólios, oligopólios, cartéis e trustes, juntamente à ascensão do capital financeiro e seu controle sobre a indústria, como fatores do desenvolvimento imperialista pelas grandes nações capitalistas. Era a necessidade econômica de encontrar oportunidades de investimento lucrativo para o capital financeiro que levava esses países a assegurar mercados no estrangeiro (HUNT, 1985, p. 394)

O avanço do capitalismo mundial expandiu os efeitos das crises econômicas, ao mesmo tempo em que deslocou o foco da crise do desequilíbrio entre oferta e demanda para a dimensão financeira. Contudo, a Grande Depressão de 1929 e o abandono do padrão ouro lançaram o comércio internacional em período de instabilidade e protecionismo no período entre guerras que só seria superado com a criação do sistema de Bretton Woods (BERNSTEIN, 2001). Planejado de forma a promover a expansão do comércio internacional e garantir a estabilidade financeira dos países, o sistema de Bretton Woods previa, entre suas cláusulas, a manutenção de taxas de câmbio fixas ou vinculadas, as quais só poderiam ser alteradas após consulta ao

Fundo Monetária Internacional, o FMI. Dessa forma, “as políticas monetárias dos Estados-membros foram atreladas mediante a vinculação de todas as moedas ao dólar, que por sua vez era vinculado ao ouro, e as grandes potências também passaram a coordenar informalmente suas políticas econômicas” (GILPIN, 2004, p. 87). Esse sistema foi relativamente bem sucedido em manter a estabilidade financeira mundial e em garantir a expansão do comércio durante os quase trinta anos em que durou.

O abandono do sistema de Bretton Woods no início da década de 1970 marcou o começo de um sistema financeiro verdadeiramente global e inaugurou uma nova era de instabilidade financeira na economia internacional. À medida que os Estados Unidos elevavam seus gastos, em particular durante a Guerra do Vietnam, e os países exportadores acumulavam reservas em dólares, mais insustentável se tornava a capacidade dos Estados Unidos de, um dia, resgatarem “em ouro, ao preço acertado, os dólares acumulados por investidores privados e governos estrangeiros” (GILPIN, 2004, p. 89). Como resultado, em agosto de 1971 o governo dos Estados Unidos abandonou o sistema de taxas de câmbio fixas e deu início a um nova era de volatilidade nas finanças internacionais. Durante a vigência do acordo de Bretton Woods e a manutenção das taxas de câmbio fixas ou semifixas, os níveis gerais de preços não cresciam mais que 3% ou 4% ao ano, no entanto, o abrupto aparecimento de novos níveis de risco em áreas antes consideradas estáveis deslanchou uma busca por ferramentas novas e mais efetivas de gerenciamento de risco (BERNSTEIN, 1996). Wall Street respondeu à demanda das empresas por proteção contra o risco e fomentou a inovação financeira, que deu ampla margem ao crescimento do mercado de derivativos, instrumentos financeiros que derivam seu valor a partir do valor de outro ativo, servindo como salvaguarda contra a variação inesperada de preços, são ativos que possuem valor, sobretudo, em ambientes de alta volatilidade e, logo, mais elevados riscos.

A maior complexidade do sistema financeiro internacional a partir da década de 1970, e as sucessivas crises cambiais nas décadas posteriores, ensejaram novas abordagens teóricas com poder explicativo sobre as crises financeiras, em alternativa aos modelos da economia clássica. Minsky (1992) desenvolveu a teoria da Hipótese da Instabilidade Financeira partindo da

caracterização da economia capitalista como um sistema financeiro sofisticado e complexo, com ativos de capital caros. O centro da teoria repousa sobre a noção keynesiana do desenvolvimento de capital da economia, compreendida como um sistema dinâmico de acumulação de capital, em que ocorrem trocas de ativos financeiros no presente por promessas de pagamento no futuro, intermediadas por instituições financeiras, principalmente bancos (MINSKY, 1992, p.2). Para explicar como a economia moderna tende à instabilidade, Minsky desenvolve três conceitos de relações renda-dívida (debt-income

relations) para as unidades econômicas. A primeira relação seria de hedge,

aquela em que as unidades econômicas podem cumprir com todas as suas obrigações contratuais apenas com seus fluxos de pagamento, ou renda. A segunda relação é a especulativa, em que as unidades econômicas podem pagar os juros sobre suas obrigações com suas rendas, mas não podem pagar o principal, assim, suas dívidas precisam ser regularmente renegociadas. A terceira relação é chamada de ponzi, na qual as rendas não são suficientes para pagar nem os juros nem o principal das obrigações, tendo as unidades econômicas que vender ativos ou contrair novos empréstimos. Durante longos períodos de prosperidade, de acordo com a Hipótese da Instabilidade Financeira, a economia transita de relações financeiras estáveis para relações que tornam o sistema financeiro instável, ou seja, passando da situação hedge para a situação especulativa ou ponzi (MINSKY, 1991, p. 16).

Fundamental na abordagem da Hipótese da Instabilidade Financeira de Minsky é papel do nível de lucros como determinante da demanda agregada e da forma como as dívidas serão validadas no futuro. A realização de investimentos depende do nível de lucros esperados e, por outro lado, a expectativa de lucros depende de investimentos no futuro. À medida que o sistema financeiro evolui de relações hedge para relações especulativas e

ponzi, as reduções nos fluxos de caixa associadas a taxas de lucro declinantes

forçam a venda de ativos para cumprir as obrigações contratuais, ou ainda a renegociação dos passivos, resultando na compressão dos preços dos ativos e na elevação das taxas de juros, o que desencadearia um novo período de depressão (MINSKY, p. 14). Deste modo, ao contrário da teoria clássica, a qual via o sistema econômico como tendente ao equilíbrio, a Hipótese da Instabilidade Financeira compreende o sistema financeiro internacional como

inerentemente instável e propenso a crises, à medida que as inovações financeiras permitiram um maior endividamento das unidades econômicas e a transição de relações de financiamento seguras para relações mais instáveis.

8.3 A CRISE FINANCEIRA DE 2008 E SUA EXTENSÃO SOBRE A