“A sustentabilidade chegou para resgatar, definir metas, objetivos, tarefas e desafios. E o novo «paradigma» é rapidamente absorvido. Os arquitetos podem de novo salvar o mundo!” (Arjen Oosterman, 2008)7
Contrariando a ironia expressa por Arjen Oosterman no texto anterior, Edwards (2009) defende que a arquitetura só por si não pode resolver os problemas do meio ambiente do planeta mas pode contribuir significativamente para a criação de habitats humanos mais sustentáveis. Mais recentemente a
arquitetura tem sido influenciada pelos pressupostos ambientais que provocam alterações quer ao nível
projetual, como formal e construtivo, conforme sugere Celinski (2008) e que conduzem ao conceito da
green house (casa ecológica ou bioclimática). Segundo a mesma autora, no passado histórico da arquitetura já se observavam as preocupações de equilíbrio do espaço construído com o espaço natural. A arquitetura vernacular é exemplo disso permitindo conseguir conforto e bem-estar com o mínimo de consumo de energia. O impacte gerado no ambiente era praticamente insignificante. O primeiro princípio utilizado era geralmente aproveitar as características desejáveis do clima enquanto se evitavam as indesejáveis.
O conceito de “arquitetura bioclimática” ou “arquitetura solar passiva”8 e, portanto, sustentável assenta
na ideia de se reunir soluções otimizadas para a habitabilidade de uma construção com o mínimo de
consumo de energia considerando “o clima como uma variável importante no processo projectual”,
7 Conforme tradução livre da citação que Batista (2010) faz de Arjen Oosterman, in Volume 18 – After Zero, Amsterdan, 2008. 8 Entre outras designações: arquitetura verde, arquitetura amiga do ambiente, arquitetura energeticamente eficiente,
segundo Gonçalves e Graça (2004). Este conceito dá importância à harmonia criada entre as construções humanas e o meio ambiente, otimizando o uso dos recursos naturais disponíveis no local de implantação (sol, vento, água, vegetação, topografia) com efeitos benéficos para o conforto humano e podendo ao mesmo tempo ser autossuficiente.
A “casa bioclimática” sendo projetada com inteligência tira partido da orientação solar, do terreno e da natureza envolvente no sítio, permitindo aumentar o nível de eficiência energética e reduzindo os impactes negativos sobre o ambiente natural. É nessa sábia adaptação do edifício ao contexto climático local que se propiciam as condições necessárias de conforto térmico adequadas a cada espaço e consequente aforro de energia.
Como já se referiu, o principal objetivo da arquitetura bioclimática é minimizar o consumo de energia mantendo os níveis de conforto ambiental dos edifícios. Para isso, é necessário recorrer a estratégias passivas, entre outras, que possam reduzir a utilização de meios mecânicos de climatização e de iluminação. De acordo com os mesmos autores, as variáveis climáticas que mais influenciam o comportamento dos edifícios são a temperatura do ar exterior e a radiação solar.
Mais recentemente, o conceito da Norma Passivhaus é um dos exemplos mais paradigmáticos de
construção nova na aplicação desses objetivos bioclimáticos com grande sucesso, em especial, no centro e norte da Europa. A sua aplicabilidade ao nosso país ainda está numa fase inicial carecendo de estudos mais específicos para a realidade portuguesa. No entanto, este conceito não pode ser confundido com as construções de “desenho passivo”, como se referia no parágrafo anterior (Passive-on Project, 2007). Segundo esta norma, sabe-se que as perdas térmicas que ocorrem pelos elementos construtivos e pela ventilação deverão ser compensadas de modo a manter a temperatura do ar interior constante. Na época de aquecimento, quanto mais baixa for a temperatura exterior, mais energia será necessária introduzir
no espaço interior para o manter a 20°C. Contudo, num edifício passivhaus com as condições
normalizadas de conforto térmico e de qualidade do ar interior a que obedece, deve este possuir uma carga térmica de aquecimento inferior a 10 W/m² (os valores correntes aproximam-se dos 50 W/m²). Para se vencer essa carga térmica dispensando a utilização de equipamento de climatização, utiliza-se um sistema de ventilação mecânica (recuperador de ar quente), de consumo muito reduzido de energia, permitindo que o ar novo seja previamente aquecido antes de ser insuflado para o interior. Este tipo de construção apresenta-se como mais uma hipótese a um custo aceitável (Passive-on Project, 2007). A Construção Sustentável, apesar de ser mais abrangente, baseia-se nos princípios apregoados pela
já foi referido anteriormente, o projeto de construções sustentáveis terá que englobar as três vertentes da sustentabilidade (ambiente, economia e social), em todas as fases ao longo da sua vida: desde a conceção do projeto, passando pela obra e utilização-operação até à sua desativação-desconstrução. O cuidado especial a ter na primeira fase de planeamento, onde se deverá reunir uma equipa o mais multidisciplinar quanto possível, é determinante para sustentabilidade de todo o processo. Segundo Garrido (2008), nessa fase dever-se-á ter em atenção alguns pontos:
• Identificação de métodos de redução do impacte ambiental no local da obra;
• Seleção de materiais eco eficientes evitando aqueles que sejam prejudiciais à saúde e ao
ambiente;
• Utilização de métodos que reduzam ou eliminem resíduos nas várias fases do projeto;
• Seleção de materiais e equipamentos que permitam a futura reutilização;
• Utilização de materiais reciclados e recicláveis;
• Integração de tecnologias que potenciem uma melhor eficiência e minimizem resíduos;
• Implementação de medidas que visem melhorar o desempenho energético, reduzindo o consumo
e privilegiem o uso de fontes renováveis durante as diferentes fases do projeto;
• Introdução de dispositivos e sistemas que reduzam o consumo de água, permitam o seu
tratamento e a sua reutilização (mesmo que não potável) e aproveitem águas pluviais;
• Aplicação de soluções construtivas e mecanismos que assegurem a qualidade de ar interior,
permitindo monitorizar frequentemente os seus parâmetros.
Como se sabe o crescimento da economia no mundo, o aumento da população, a subida das taxas de ocupação do solo a par de mais exigências de conforto geram um ritmo elevado de consumo e procura, provocando pressão acrescida sobre os recursos naturais. Segundo Moreira (2013), a crescente produção elétrica referente ao elevado consumo da sociedade atual, gera impactes ambientais que interferem negativamente no sistema climático, delapidando recursos naturais (hidrográficos, florestais, minerais, entre outros) e desequilibrando o ecossistema ambiental.
Conforme referido no Relatório do Estado do Ambiente [REA] (2011) é essencial “compreender como
utilizar os recursos de forma mais eficiente, gerando maior valor económico e permitindo que a taxa de utilização dos materiais seja inferior à taxa de crescimento económico” com vista à desmaterialização da economia. No quadro da U.E. uma das estratégias apontadas para a eficiência na utilização de recursos, assegurando a saída da crise e preparar a economia para os próximos tempos, é a possibilidade de se
Cabe, também, aos arquitetos utilizar a sua sensibilidade e criatividade em projetos mais eficazes sob o ponto de vista da sustentabilidade. Como salienta Edwards (2009) “a sustentabilidade social, ecológica, cultural e tecnológica serão as medidas que se empregam para valorizar os edifícios do futuro.”