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Em 8 de janeiro de 2008, o Ministério Público de Santa Catarina deu posse a alguns servidores comissionados, a maioria assistentes de promotores de justiça. Aos 42 anos de idade e quase 24 anos de profissão, eu fui um dos empossados no cargo de jornalista. Era a primeira vez que eu trabalharia no departamento de imprensa de um órgão público. Estava de volta a uma redação: depois de quase três anos e meio dedicados apenas à docência e à pesquisa – eu a voltava “ao mercado”, como falam nos cursos de jornalismo. Era, também, a terceira tentativa da Coordenadoria de Comunicação Social (COMSO) do MP de contar com um jornalista para a produção de vídeos.

Um dos fatores que determinaram a minha escolha para o cargo foi a minha experiência de mais de 15 anos como repórter de televisão. Após trabalhar em telejornalismo no Rio de Janeiro (RJ), em Caxias do Sul (RS) e em Florianópolis (SC), eu acreditava conhecer o bastante das redações para saber que nem sempre os critérios de notícia tinham por princípio atender aos interesses da sociedade. Foi justamente por isso que aceitei o convite do Ministério Público de Santa Catarina: para ser o responsável por um projeto que pretendia reunir jornalismo e educação, na produção de vídeos institucionais.

Quando o convite foi feito, no final de outubro de 2007, a então coordenadora da COMSO deixou bem claro que o objetivo da produção de vídeos do MPSC seria o de educar para a cidadania. Não havia a intenção de se usar o vídeo como uma forma de propaganda ou divulgação de ações pontuais ou para a promoção pessoal. O meu nome havia surgido, segundo ela, não apenas pela minha experiência em TV, mas por meu trabalho na área da educação e do ensino e por ter já defendido, na minha dissertação, o uso da TV digital para ampliar as possibilidades de inclusão digital e de transmissão de conhecimento. Ela admitiu que não lera toda a dissertação, mas o suficiente para compreender que eu defendia essas possibilidades. Havia outras questões que deveriam ser levadas em conta: o MPSC não tinha verba específica para a produção de vídeos e o jornalista contratado para o projeto passaria a fazer parte do quadro da COMSO, ou seja, deveria exercer outras funções, como a publicação de notícias no portal da instituição, e fotografar, eventualmente.

Voltar a uma redação e, principalmente, fazer parte de uma assessoria de imprensa, não estava nos meus planos, mas havia outro obstáculo maior para atender ao convite do MP. Eu pretendia concluir a minha tese, pois precisava do título de doutor com urgência para

consolidar a minha carreira acadêmica. Mas um ponto me atraiu especialmente, nesse convite: a possibilidade de implementar um projeto de vídeos educativos para uma instituição do porte e com o perfil do Ministério Público. Eu sempre respeitei o MP como instituição e admirava o trabalho do promotor de justiça. Na minha época de repórter, o MP sempre foi uma fonte de informação confiável e eu conhecera o procurador-geral de justiça, o chefe da instituição, quando ele atuava como promotor de justiça da Infância e Juventude.

Para me afastar da academia, eu precisava de um bom motivo. Ainda na fase de negociação, fiz a proposta que seria a decisiva: eu aceitaria assumir o projeto se pudesse aproveitar o experimento como pesquisa de campo para a elaboração da minha tese. A pesquisa era voltada à identificação dos pontos vulneráveis da TV digital ao ambiente de convergência. Uma de minhas ideias era abrir um canal no YouTube, para testar e estudar as características da produção e distribuição de vídeo no ambiente digital. No mínimo, seria possível comparar os recursos de interatividade e compartilhamento de vídeos, já disponíveis na internet, com o que se pretendia utilizar na TV digital.

Diante da proposta do MP, mudei minha estratégia: por que o Ministério Público não poderia abrir um canal no YouTube, como uma alternativa de TV pública e institucional? Uma das intenções da administração do MP era aproveitar a abertura de novos canais públicos na TV aberta, devido à ampliação do uso do espectro, para tentar um canal próprio. O projeto de vídeos institucionais seria o primeiro passo para isso, na visão da administração.

Propus, então, à coordenadora da COMSO, implantar o projeto de vídeos com a condição de poder usar o conteúdo para a abertura de uma canal do MPSC no YouTube e também utilizar esse experimento na elaboração da minha tese. A proposta foi aceita informalmente e, depois, apresentada rapidamente ao procurador-geral de justiça, que é quem tem a competência legal para a contratação de um jornalista da COMSO. Em seguida, solicitei meu afastamento temporário do curso de Jornalismo em que ministrava aulas, em Joinville, e, a partir do dia 8 de janeiro de 2008, passei a ser o “jornalista de vídeo do MPSC”.

Os primeiros dias na nova função não foram fáceis. Eu já havia trabalhado em várias redações, em veículos de diferentes mídias, e exercido funções as mais variadas – algumas nem existem mais, como a do copidesque. Mas era a primeira vez que eu encontrava tudo por fazer. A situação na COMSO não era diferente. Era como se o departamento perguntasse: “e agora, o que fazer com um jornalista só para vídeos?”

Neste momento, é preciso explicar um pouco o funcionamento da COMSO.

A Coordenadoria de Comunicação Social do MPSC é um órgão de apoio subordinado diretamente ao procurador-geral de justiça. As funções da COMSO são intermediar o relacionamento entre a instituição e a mídia, atualizar a publicação de notícias do MPSC no site da instituição, elaborar boletins e comunicados internos, dar o suporte técnico e operacional aos Centros de Apoio de cada área do MPSC no caso de campanhas internas e externas, entre outras. Agendamento de entrevistas com promotores de justiça de todo o Estado, publicação de livros e revistas, criação de hotsites, clipagem de jornais e TVs, e cobertura de texto e fotos de eventos são algumas de suas atividades. Este foi o meu primeiro choque no meu novo ambiente de trabalho. Eu já havia notado, durante as negociações, que o departamento havia crescido muito, em relação ao que eu costumava frequentar como repórter de TV, quando era escalado para alguma pauta que envolvesse o MP. Agora eu sentia “na pele” como era “estar do outro lado do balcão”, como dizem os jornalistas que passam a atuar como assessores das fontes.

Na estrutura organizacional do MP não há jornalistas concursados. Os três jornalistas são todos admitidos para assumir cargos comissionados, ou seja, são funções exercidas em confiança da administração. Em janeiro de 2008, o setor contava, ainda, com mais três servidores efetivos (para atualizar conteúdos legais e administrativos no portal e realizar serviço de clipagem), um terceirizado e três estagiários dos cursos de Design e Cinema (o servidor terceirizado e dois estagiários auxiliavam nos serviços gráficos e de editoração; a estagiária de Cinema era um resquício das tentativas anteriores de iniciar a produção de vídeos). Eventualmente, um servidor efetivo com diploma de jornalista é chamado para desempenhar a função, desde que o número de jornalistas comissionados não supere os três. Agora eu era um desses três e, portanto, se fosse dedicar-me completamente ao projeto, a COMSO ficaria desfalcada em um terço de sua capacidade de atendimento à mídia e à comunicação interna. Por isso, de janeiro de 2008 a setembro de 2009, aproximadamente, me dividi entre o projeto e as atividades rotineiras de um jornalista da COMSO.

Foi um período de intenso aprendizado. Com a minha experiência como repórter, acreditava que conhecia muito do MP. Logo aprendi que mesmo os jornalistas experientes conhecem muito pouco do complexo sistema de justiça brasileiro e eu não era exceção. Percebi que a maioria

dos jornalistas que procuravam a COMSO em busca de entrevistas e informações não conhecia exatamente o papel do Ministério Público no sistema de justiça. Constatei que os vídeos teriam que atender também a esse público.

Entre as atividades que dividia com a elaboração do projeto estava a redação de notícias a serem publicadas no portal do MPSC e distribuídas por e-mail às redações. Os jornalistas da COMSO publicam no portal basicamente dois tipos de conteúdo: informações sobre a atuação institucional e a atuação de promotores e procuradores de justiça. Diariamente a COMSO recebe pedidos de promotores de justiça para a divulgação de alguma ação ou acordo de sucesso. Na maioria dos casos, a COMSO recebe o arquivo com a sentença de um juiz de direito ou ação inicial elaborada pelo promotor de justiça. São textos de 40, 60 ou mais páginas, escritos em linguagem jurídica, que acabam originando uma notícia de apenas dois ou três parágrafos.

Após esta “tradução” e síntese, o texto é enviado ao promotor que fez o pedido, para que ele aprove a sua publicação. Muitas vezes o jornalista liga para o promotor, e o texto é corrigido e adaptado em uma conversa telefônica. Eu sempre aproveitava essas conversas para anunciar que em breve o MPSC estaria produzindo vídeos com o objetivo de informar a população sobre seus direitos e a atuação do MP. Muitas dessas conversas foram úteis para indicar que caminhos os vídeos deveriam seguir, quais as dúvidas que o cidadão apresentava com mais frequência ao ser atendido ou procurar uma promotoria de justiça. “Finalmente vão parar de me perguntar quando eu vou ser promovida a juíza”, disse uma promotora de justiça, em uma dessas conversas.

Foi também através dessa atividade que descobri que não seria difícil transformar os vídeos institucionais em pequenos documentários baseados em histórias humanas. A atuação do Ministério Público beneficia diretamente o cidadão em áreas como a saúde, a defesa dos direitos da criança e dos idosos, na defesa do consumidor e outras, que envolvem personagens de todo o tipo. Na redação dos textos noticiosos, sempre procurei destacar a história de cada cidadão atendido pelo promotor de justiça. Alguns meses depois que comecei a trabalhar ali, uma das jornalistas da COMSO me disse ter percebido que não precisava fazer as notícias no formato que era o padrão, até então, no portal do MPSC: “Eu procurei, então, redigir as notícias de um jeito mais próximo daquele que eu estava acostumada no jornal.”

Aos poucos, antes mesmo de os vídeos começarem a ser produzidos, servidores e promotores começaram a conhecer outra forma de contar histórias. Mas a sobrecarga de trabalho para os demais

jornalistas provocou um impacto não calculado sobre o projeto. Com uma jornalista sendo encarregada da coordenação da COMSO e outra acumulando as tarefas de atendimento à mídia (cobertura de eventos, marcação de entrevistas e levantamento de dados e informações para jornalistas) e de redação de notícias, acabei desenvolvendo o projeto praticamente sem monitoramento ou acompanhamento. Até mesmo o membro do MP destacado para supervisionar o projeto encontrava-se em um momento de sobrecarga de trabalho. Ao mesmo tempo em que isso me oferecia autonomia e liberdade, também reduzia as possibilidades de troca de ideias. E eu sempre havia trabalhado em equipe, pois o trabalho em TV é realizado em equipe.

Como resultado, dediquei pelo menos dois meses à fundamentação teórica do projeto. O documento “Projeto para implementação de produção de audiovisuais no MPSC” (MPSC, 2008a), que serviu de base para as ações seguintes, tem mais de 20 páginas de argumentação. Não havia referências, nem modelo de projeto semelhante, ou pelo menos não tive conhecimento de algo parecido. Por outro lado, a coordenadora da COMSO não estabeleceu limites para essa etapa e dizia, com frequência, que este era o documento que asseguraria, no futuro, o uso dos vídeos e do canal no YouTube para fins institucionais e educativos.

No entanto, o tamanho do documento provocou um atraso na aprovação do projeto, pois era preciso dedicar muito tempo para a sua leitura. Nessa fase, todos os membros do MP ligados diretamente ao projeto em alguma função de supervisão, acompanhamento ou aprovação, também estavam sobrecarregados de trabalho. O próprio projeto tornara-se uma atividade e uma responsabilidade a mais, além das obrigações funcionais e administrativas de rotina.

Dois meses não foram suficientes para que eu compreendesse a complexidade da instituição e, principalmente, o seu ritmo. O cronograma de produção apresentado no documento previa a produção de quatro vídeos institucionais no primeiro ano. Mais tarde, percebi que a produção de um vídeo institucional até o final do ano seria um limite razoável.

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