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“A Técnica não é um catálogo que a gente tem e possa usar” (Gomes, 2007)
“Normalmente as pessoas definem o conceito
de Técnica ao contacto que os miúdos têm com a bola e temos miúdos que em termos de contacto com a bola são fantásticos mas em termos intencionais são muito fracos e portanto para mim eles não são bons tecnicamente…”
(Gomes, 2007)
Ao longo da história, as melhores equipas e os melhores jogadores sempre foram aquelas e aqueles que evidenciaram melhores qualidades técnicas e tácticas (Cruyff, 2002; Valdano, 2002).
Segundo Calvo (2002, cit. por Fonseca, 2006) a técnica no Futebol é um dos aspectos fundamentais e imprescindíveis para jogar bem. Se um jogador
de Futebol não sabe receber correctamente uma bola, se não sabe realizar um passe de qualidade, por exemplo, dificilmente alcançará um nível de desempenho superior. Reforçando a importância da técnica para a qualidade do jogo no Futebol, Cruyff (2002 pp. 19) refere: ”…a bola pode chegar-te aos pés a meia altura, ao peito ou à cabeça, por isso é muito importante acumular técnica suficiente para poder controlá-la do modo mais eficaz, em função das circunstâncias específicas derivadas do jogo.”
Parece assim consensual que a técnica é um instrumento sem o qual é muito difícil jogar e impossível jogar bem (Garganta, 2006), mas… o que é a TÉCNICA?
Podemos encontrar muitas definições na literatura especializada para o conceito de técnica, mas se recorrermos, em primeiro lugar, ao Dicionário da Língua Portuguesa (2004), observamos que, entre outras definições, a técnica é definida “como o conjunto de processos utilizados para obter certo resultado”.
Nesta linha de pensamento, Garganta (2002a pp. 4) afirma que o “vocábulo técnica é entendido, no seu sentido mais abrangente, como o conjunto de processos bem definidos e transmissíveis a que a espécie humana, ou suas extensões, recorre para produzir certos resultados”.
Diversos autores (Hughes, 1994; Bate, 1996; Werner et al., 1996 cit. por Garganta, 2002a), entendem a técnica como a execução normativa do gesto, isto é, a sua realização de acordo com os critérios mecânicos. Estes autores conferem assim à técnica um sentido ideal e abstracto, excluindo ou limitando a componente decisional (Garganta, 2002a).
Considera-se, então, que a técnica corresponde a um tipo motor (Weineck, 1983, cit. por Garganta, 2002a), a um modelo ideal de movimento, que pode ser descrito de uma forma biomecânica.
Deste modo, podemos dizer que estamos perante uma “técnica genérica, ideal e impessoal e que consiste na execução dos elementos fundamentais do jogo: passe, recepção, drible, e outros, por meio da aplicação dos princípios da mecânica humana, no sentido de tornar eficazes os gestos desportivos próprios da modalidade a que se referem” (Garganta, 2002a pp. 5)
Segundo esta perspectiva, é privilegiada a dimensão eficiência da habilidade (forma de realização), independentemente das dimensões eficácia (finalidade) e adaptação, isto é, do ajustamento das soluções e respostas ao contexto (Graça, 1994).
Apesar destas definições apresentarem a técnica como algo estático, outros autores consideram importante a sua faceta dinâmica, adaptativa e relacional (Garganta, 2002a), entendendo a técnica como um meio da táctica (Tavares, 1993) uma vez que implica uma execução coordenada de todos os sistemas de percepção e resposta do jogador, em relação com as peculiaridades do envolvimento (Riera, 1995 cit. por Garganta, 2002a).
Deste modo, parte-se do entendimento que técnica e táctica se condicionam reciprocamente, formando uma unidade (Tavares, 1993; Graça, 1994; Garganta, 1997), ou seja, entende-se que a técnica e a táctica devem estar situadas a um só tempo, como duas faces da mesma moeda (Mesquita, 2004).
De facto, as habilidades técnicas quase sempre se realizam em situações de envolvimento imprevisível, dependendo a sua execução das configurações particulares de cada momento do jogo, que impõem o tempo e o espaço para a sua aplicação (Graça, 1994). Ou seja, o problema primordial situa-se no plano estratégico-táctico, porque saber “o que fazer” condiciona significativamente o “como fazer”, e isto implica uma congruência elevada entre a percepção da informação relevante, a selecção da resposta e a execução propriamente dita (Garganta, 2006c).
Neste comprimento de onda, Oliveira (2004) entende que o conceito de técnica não deve ser concebido de uma forma abstracta relativamente ao contexto acontecimental do Jogo. Para este autor, a Técnica resulta da adequação da sua utilização a um determinado momento do jogo, salientando que por este motivo, um gesto dito “técnico” resulta de uma interpretação (dimensão cognitiva) situacional do jogo, ou seja, resulta de uma resposta a uma necessidade Táctica.
De facto, com salienta Uriodo (1997 cit. por Costa, 2001 pp. 27) existem “inúmeros jogadores que nos testes técnicos obtêm a máxima pontuação, a
sua capacidade de drible perante um obstáculo imóvel, os seus malabarismos, as suas fintas são tecnicamente perfeitas, mas perante a aplicação no terreno de jogo não têm a mesma eficácia, quando fazem um drible fazem-no bem, mas fora do tempo, quando rematam fazem-no batendo bem, mas às mãos do guarda-redes”.
Neste sentido, não interessa, portanto, que o praticante seja perfeito quanto ao domínio dos gestos específicos da modalidade em questão, se não souber agir em cada circunstância de acordo com o grau de pertinência adequado às exigências dessa mesma situação (Ferreira, 2001).
Concluímos assim que estamos perante um novo entendimento de TÉCNICA, uma vez que normalmente as pessoas definem este conceito “ ao contacto que os miúdos têm com a bola (…) e em termos de contacto com a bola são fantásticos mas em termos intencionais são muito fracos e portanto, para mim, eles não são bons tecnicamente” (Gomes, 2007). É que, como verificado, se a técnica é um meio para resolver um determinado problema, está-lhe subjacente em entendimento de qual é a melhor solução para o resolver (Santoalha, 2008) e, portanto, “a técnica tem a ver não só com a sensibilidade que está implícita nos músculos ou na própria assertividade do pé, da coxa e da perna, mas também com a passagem disso tudo para o cérebro e com a saída que é expressa em termos de resolução do problema. Ou seja, a técnica tem a ver não só com aquilo que sai (a expressão do que pretende), mas também com aquilo que entra (a sensibilidade que o jogador tem na apreciação dos vários estímulos) ” (Lopes, M., 2008 pp. XXX).