Del III Andre saker
6.3 Departementets arbeid med
“Existe uma forma cientificamente correcta de correr? Só existe uma forma certa de
dançar? Talvez, mas cada um fabrica a sua, cada um descobre a sua fórmula certa. Única.”
(Lobo, 2008)
“Aprender não é nunca chegar a ser capaz de repetir o mesmo gesto, mas de, perante a situação, dar uma resposta adaptada por meios diferentes”
(Maurice Merleau-Ponty, s/d cit. por Tavares, Greco & Garganta, 2006)
De acordo com a estabilidade do meio ambiente em que uma habilidade é executada, estas podem ser classificadas em abertas ou fechadas (Tani, 2002), isto é, a classificação é feita a partir do tipo de interacção que se estabelece entre a escolha e a programação do movimento por parte do executante e as condições ambientais em que o movimento será realizado.
Neste sentido, se o ambiente é estável, isto é, se as alterações do contexto não influenciam de forma significativa o alcance da meta ou execução do padrão de movimento específico, a habilidade motora é classificada como fechada, sendo que o executante poderá prever com alguma antecedência as condições ambientais que vai encontrar durante a realização do movimento (Tani, 2002 pp. 157). Pelo contrário, uma habilidade motora é considerada aberta quando o ambiente é instável, devendo deste modo as variações ambientais ser levadas em consideração pelo executante na escolha e programação de movimentos (Tani, Santos & Júnior, 2006).
Nesta linha de pensamento, e atendendo às duas definições apresentadas, podemos concluir que o que se procura na habilidade fechada “é a fixação de um padrão de movimento, restringindo a variabilidade e aumentando a precisão” (Tani, 2002 pp. 157). Assim, o movimento torna-se cada vez mais consistente e semelhante sempre que é executado, e as especificações técnicas cada vez mais precisas são incorporadas ao padrão de
movimento, justificando-se assim a contribuição dos conhecimentos da biomecânica, na tentativa de um movimento cada vez mais “perfeito”.
Pelo contrário, nas habilidades abertas, cada vez que as condições do meio ambiente variam, o executante deve modificar e ajustar o seu padrão de movimento original para que possa responder adequadamente à nova situação (Tani, 2002), ou seja, o desempenho depende não da consistência do movimento mas sim da sua adaptabilidade.
Neste sentido, se cada situação exige um movimento diferente, uma análise biomecânica do movimento perde a sua eficácia, caso contrário, necessitar-se-iam tantas análises quantas fossem as possibilidades de movimento.
Nos Jogos Desportivos Colectivos, e especificamente no Futebol, as habilidades do jogo são de natureza “aberta” (Tavares, Greco & Garganta, 2006), pois tais habilidades decorrem num contexto imprevisível, onde a sua oportunidade e execução estão dependentes das configurações de cada momento do jogo, que ditam o tempo e o espaço para a sua execução (Graça, 1994).
Assim, num jogo de Futebol serão necessários comportamentos táctico- técnicos que se caracterizam (1) pela sua adaptabilidade às situações que ocorrem no jogo, na procura de soluções heterogéneas e eficientes, (2) pela sua antecipação, enquanto capacidade de discernir e prever as modificações das situações de jogo e (3) pela sua criatividade, que sintetiza a capacidade de idealizar e executar novas soluções que sejam imprevisíveis, aumentando o factor surpresa (iniciativa) do jogo (Castelo, 1994).
Contudo, o treino da técnica tem-se pautado por situações desprovidas da intencionalidade ecológica reivindicada pelo jogo. A aquisição dos padrões motores é efectivada na ausência de perturbação ambiental, sem considerar os constrangimentos situacionais característicos do jogo. Assim, “sendo as habilidades motoras realizadas em situações não sujeitas a elevada pressão espacial e temporal, o contexto no qual elas se expressam não exige elevada adaptação” (Mesquita, 2007 pp. 93).
Nesta linha de pensamento, Graça (1994) refere que ao reduzir o ensino das habilidades do jogo, ou seja, apresentá-las como se de habilidades fechadas se tratassem, estas estão desprovidas da sua razão de ser mais importante, que é aplicá-las em qualquer momento do jogo de forma determinada e adaptada.
Esta abordagem do jogo centrada numa técnica abstracta parece-nos ser um erro sistemático, uma vez que, como já salientado, no jogo as habilidades técnicas quase sempre se realizam em situações de envolvimento imprevisível, o que implica que as diferentes execuções dependam das configurações particulares de cada momento do jogo (Graça, 1994). Como sequência, torna-se importante desenvolver competências que transcendam a execução propriamente dita e valorizem as capacidades relacionadas com as estratégias que guiam a captação da informação e a tomada de decisão (Garganta, 2005).
Assim, embora o domínio das diferentes técnicas (passe, condução, remate, etc.), revelado pelos praticantes se constitua como um instrumento sem o qual é muito difícil jogar e impossível jogar bem, não permite necessariamente o acesso ao bom jogo, uma vez que um bom executante é, antes de mais, alguém que é capaz de seleccionar as habilidade técnicas mais adequadas para dar resposta às sucessivas configurações do jogo (Garganta, 2006).
Deste modo, para além de ser importante um jogador dominar todas as técnicas, mais importante ainda é ele ser capaz de adaptar o seu comportamento, em função da inconstância de problemas que ocorrem no jogo (Mesquita, 2000).
Por isso, o ensino e o treino da técnica do Futebol não devem restringir- se aos aspectos biomecânicos, isto é, aos gestos, mas devem atender sobretudo às imposições da sua adaptação inteligente às situações de jogo.
Assim, a concepção que privilegia a desmontagem e remontagem dos gestos técnicos elementares e o seu transfer para as situações de jogo, não deve constituir mais do que um dos recursos possíveis no ensino dos jogos
desportivos, dado que nesta perspectiva se ensina o modo de fazer (técnica) separado das razões de fazer (táctica) (Garganta, 2006).
Neste comprimento de onda, defendemos que o sucesso das habilidades depende fundamentalmente da capacidade de julgamento dos eventos ambientais e de decidir e ajustar os movimentos de acordo com as condições do contexto.
Deste modo, a adaptabilidade técnica revela-se decisiva para tornar o jogador capaz de ajustar a solução motora aos problemas tácticos emergentes (Mesquita, 2007).
Rink (1993), reforça isso mesmo, ao defender que emerge uma outra exigência no domínio das habilidades técnicas nos Jogos Desportivos, imposta pelas configurações particulares de cada momento de jogo e que lhe confere o seu verdadeiro significado de utilização, a adaptação.
Tal como refere M. Laguna (Ex-Seleccionador Nacional de Andebol, cit. Lopes, 2004) “o mais importante nos jogos desportivos não é saber quem tem mais conhecimentos, mas sim quem antes e melhor se adapta aos acontecimentos”, ou seja, o jogador pode possuir bons padrões motores, mas se não realiza a acção correcta no momento certo, o seu papel será inútil.
A capacidade de adaptação referida remete-nos para o conceito de
timing antecipatório. De acordo com Gomes (2006 pp. 93) o timing
antecipatório é a “capacidade de organizar e desenvolver a resposta motora de forma precisa para atingir a eficácia da acção”. Tani (2002 pp. 152) considera que o timing envolve um valor alvo no que se refere à velocidade na execução do movimento (nem antes, nem depois) e constitui-se como um elemento fundamental na habilidade motora.
Ideia semelhante encontramos nas palavras de Cruyff (2002 pp. 20)
“Se um movimento da bola requer determinada velocidade e certa precisão, deves ter a capacidade de realizá-la sem falhas e no momento certo”.
Tani (2002) acrescenta, ainda, que o importante é ajustar o movimento, isto é, controlar todos os parâmetros em relação a um valor alvo e deste modo
garantir a precisão do movimento. O mesmo autor menciona, ainda, que a melhor forma de melhorar este aspecto é através de uma “prática com ênfase no aspecto visual-perceptivo da habilidade mais do na resposta motora em si”, já que nas modalidades consideradas abertas (como o Futebol), é necessário identificar e interpretar os dados sensoriais e as situações, para assim ser possível incrementar a capacidade de antecipação e predição das mesmas.
Então, como já foi destacado, o jogo exige uma elevada complementaridade entre táctica e técnica, pois se por um lado o jogador tem que compreender os eventos correntes, para tomar decisões acertadas, por outro, tem que possuir um vasto reportório técnico, que só adquire significância e autenticidade quando aplicado, apropriadamente, na lógica funcional do jogo.
Assim, a necessidade do treino da técnica ser situacional é legitimada no facto da especificidade dos cenários de prática interferirem com a realização das habilidades motoras, alterando, inclusive, a dinâmica de realização de movimentos. Daí que o conceito de técnica, nos jogos desportivos colectivos, como o Futebol, não possa ser definido como o meio mais eficiente de alcançar um objectivo (Mesquita, 2007), visto que a complexidade inerente aos contextos de aplicação reivindica diferentes soluções motoras, de forma a responder às prerrogativas perceptivo-decisionais.
Assim, se não há uma única solução para os problemas de jogo, mas sim um conjunto de soluções, a prática não se pode resumir a tentativas de repetição de um único padrão de movimento (Tani et al., 2006). Como colocou Bernstein (1967, cit. por Tani et. Al., 2006) prática significa a repetição do processo de solucionar problemas e não a repetição do meio de soluciona-los. Prática implica assim “repetição sem repetição”, pois se assim não for ela torna-se numa simples repetição mecânica de movimentos.
Assim, se um jogador é capaz de alcançar uma mesma meta por meio de diferentes movimentos e esses movimentos têm variabilidade inerente, que sentido tem aprender uma determinada técnica de movimento estereotipada?
De facto, perspectivando o ensino desta forma, pode ser que a repetição de uma técnica que especifica até os detalhes microscópicos do movimento possa conduzir rapidamente à padronização do movimento, tornando a
aprendizagem aparentemente mais eficiente, mas, contudo, essa padronização pode corresponder também a uma perda proporcional de flexibilidade de movimento (Tani et al., 2006).
E, de facto, a adaptação às mudanças, a verdadeira essência de técnica, exige padrões flexíveis de movimento. De acordo com Koestler (1967 cit. por Tani et al., 2006) padrões flexíveis de movimento são aqueles padrões que possuem um aspecto invariável governado por regras fixas (ordem, consistência) e um aspecto variável dirigido por estruturas flexíveis (desordem, variabilidade). Deste modo, é possível concluir que, para se adquirirem padrões flexíveis de movimento que melhor se adaptem às novas situações ou tarefas motoras, é necessário proporcionar uma certa liberdade na escolha de respostas durante o processo de aprendizagem, uma vez que, quando se elimina essa liberdade tornando a aprendizagem totalmente dirigida, a ênfase é dada apenas ao aspecto invariável da habilidade, contribuindo para a formação de padrões de movimento mecanizados, rígidos e de baixa adaptabilidade.
Depreende-se assim, que, no processo de Formação do jovem jogador, devemos proporcionar liberdade na escolha de alternativas e encorajar os jogadores a explorar as suas potencialidades de movimento, tendo informações sobre a macroestrutura do movimento apenas como um referencial orientador dessa exploração.
De facto, “quero que a bola chegue ao pé do colega (…) mas a forma como eles fazem o passe não me interessa, o que me interessa é que eles devolvam para o pé do colega com alguma qualidade” (Gomes, 2007).
Assim, a preocupação do jogador não deverá ser realizar a habilidade técnica (passe, etc.), procurando executá-lo de acordo com o padrão técnico biomecanicamente estandardizado e mecanizado, mas sim realiza-la de forma eficaz em função das necessidades e dos objectivos que emergem no momento.
“Muitas vezes encontramos miúdos que passam com mais qualidade com a parte de fora do pé do que com a parte de dentro. E agora vou «castrar» o miúdo e dizer que ele tem que fazer com a parte de dentro? Temos o caso do Quaresma, ele muitas vezes faz passes com mais qualidade com a parte de
fora do que com a parte de dentro” (Gomes, 2007), sendo que este não é o padrão biomecânico técnico ideal, e portanto, “esses aspectos biomecânicos são uma abstracção” (Gomes, 2007).
Portanto, reportando-nos à ideia de Cruyff (2002), pensamos que não faz sentido um manual de instruções para o Futebolista, pois cada indivíduo é diferente e, por isso, tem algo de diferente. Ou seja, ainda que possam existir referenciais, e aí os executantes de Elite poderão ser “bons manuais de instrução” para quem está a aprender, a construção e aplicação dessa técnica terá que ser sempre individual.
Neste sentido, e ainda que no início da aprendizagem os movimentos sejam inconscientes e desordenados, progressivamente essa macroestrutura tornar-se-á ordenada, até que seja encontrado um padrão correspondente a uma técnica, ou semelhante a ela. Desta forma, poderá resultar um padrão de movimento consistente na sua macroestrutura e ao mesmo tempo variável na sua microestrutura, uma vez que estilos e características individuais serão incorporados à técnica de movimento (Tani et al., 2006).
Assim, em vez do indivíduo se ajustar à técnica, a técnica será “construída” de modo a se ajustar às suas características individuais (Tani et al., 2006).
Como conclusão, caracterizando-se o jogo de Futebol pela imprevisibilidade, instabilidade e mutabilidade contextual (Fonseca, 2006), a ocorrência das situações não apresenta uma lógica sequencial (manifesta-se de forma não linear), elas inventam-se e reinventam-se a cada instante e, consequentemente, são extremamente sensíveis às condições iniciais (Resende et. al. 2006), determinando isto que o gesto técnico, em Futebol, está dependente do “aqui e agora” e que, por isso, a habilidade motora é eficiente quando contempla uma adequação perfeita entre execução e valor alvo, sendo este definido pelo envolvimento (Santoalha, 2007).
Assim, falar-se da existência de um padrão motor ideal, comum a todos os indivíduos, parece ser uma falácia (Brisson & Alain, 1996, cit. por Fonseca, 2006), uma vez que a forma de realização das habilidades depende dos problemas de circunstância colocados pelas situações de prática, adquirindo
contornos distintos, variações de ritmo, intensidade, amplitude gestual, ditados pela especificidade dos cenários situacionais (Mesquita, 2007). Assim, a preocupação do jogador (logo, também do ensinador) não deverá ser, nunca, procurar executar a habilidade técnica de acordo com o padrão técnico biomecanicamente estandardizado e mecanizado, antes executá-la em função das necessidades e objectivos impostos em cada “aqui e agora”.
Deste modo, no processo de treino devemos privilegiar a incerteza, a aleatoriedade e a variabilidade durante a aquisição das mesmas, bem como a liberdade para eleger a melhor resposta por parte dos aprendizes, em detrimento dos treinos abstractos administrados pelo treinador (Tamarit, 2007).
Só assim será possível ao jogador adoptar uma variedade de movimentos, onde a técnica assume elevada magnitude adaptativa (Mesquita, 2007).