Kapittel 5: «kun gjennom handling vinner livet i betydning» – Mathea og den aldrende
5.2 Matheas prosjekt – å bli synlig
5.2.3 En ubetydelig kvinne
No que diz respeito à forma como os distritos industriais se desenvolveram em países da Europa, cabe assinalar que a sua formação ocorreu, de fato, ao longo de processos históricos. Assim, a abordagem desses arranjos produtivo-institucionais não pode deixar de levar em conta aspectos sócio-culturais, históricos e institucionais. O surgimento desses distritos europeus é, sobretudo, o resultado de processos de evolução ocorridos tanto em zonas predominantemente agrícolas como em zonas de malha urbana densa, em qualquer caso com fortes tradições artesanais. Favorecidas pela vizinhança próxima de uma mesma profissão especializada, essas tradições associaram-se para desenvolver uma indústria plenamente estabelecida, em processo que foi denominado de “industrialização difusa” (Coulert; Pecqueur, 1994).
Esse processo de formação inspirou a caracterização do distrito industrial efetuada por Becattini (1994), que considera tratar-se de entidades socioterritoriais marcadas pela presença ativa de uma comunidade de pessoas e de uma população de empresas num determinado espaço geográfico e histórico, onde a cooperação e a confiança entre os agentes revelam-se favorecidas.
O relacionamento entre os agentes dos distritos industriais tende a se apresentar como concorrência cooperativa: “[s]e considerarmos os resultados globais do distrito, veremos que existe nele, a par de uma atitude muito concorrencial, uma solidariedade forçada entre os seus membros, que é fruto da maneira única como o sistema sócio-cultural impregna e estrutura o mercado no próprio seio do distrito” (Becattini, 1994: 26). Mais do que isso, essa “combinação entre mercado e solidariedade dá lugar para uma prática - a uma regulação territorial - cuja identidade é fortemente marcada” (Courlet; Pecqueur, 1994: 54).
A identidade sócio-cultural é um aspecto fundamental desses arranjos, pois dela depende a existência de um grau considerável de confiança entre os agentes, necessária
para possibilitar aos distritos a configuração de uma de suas características básicas: a sua organização na forma de redes de empresas. Essa forma de organização permite que as empresas dos distritos industriais possam usufruir as vantagens ligadas às economias de escala e escopo, pois nela as empresas se mostram devidamente especializadas e operam com certo grau de integração horizontal e vertical entre si.
As relações horizontais remetem à competição dos produtores por encomendas, mas tal concorrência não significa ausência de espaço para ação conjunta com o propósito de resolver problemas específicos, particularmente em áreas pré-competitivas (provisão de serviços, infra-estrutura e treinamento, entre outras). Já as relações verticais são menos conflituosas e se refletem sobre as relações com fornecedores, que, segundo essa vertente teórica, podem ocorrer através do mercado ou por acordos de subcontratação16 (Sengenberger; Pike, 2002).
A especialização é um importante requisito para a formação de uma rede local de pequenas e médias empresas, pois estimula a acumulação de conhecimentos específicos e tende a facilitar a introdução de novas tecnologias. Para Becattini (1994), o desenvolvimento de um distrito industrial depende da formação de uma aglomeração de diversas firmas, cada uma, especializada em uma etapa do processo de produção de determinado ramo industrial 17, com interação dinâmica relacionada à divisão e à integração do trabalho. Essa especialização, note-se, é abordada por Marshall (1982) como pré- requisito para que as pequenas firmas aglomeradas obtenham vantagens de maquinário mais próximas às das grandes empresas:
A utilização econômica de máquinas de alto preço pode muitas vezes ser realizada numa região em que exista uma grande produção conjunta da mesma espécie, ainda que nenhuma das fábricas tenha um capital individual muito grande, pois as indústrias subsidiárias (...) podem empregar continuamente máquinas muito especializadas, conseguindo utilizá-las rendosamente, embora o seu custo original seja elevado e sua depreciação muito rápida (Marshall, 1982: 234).
16
Como veremos mais adiante, complementarmente à visão de Sengenberger e Pike (2002), a vertente escolhida para orientar a pesquisa de campo distingue as relações verticais em cinco tipos diferentes, enfatizando ao longo de uma cadeia de valor, a forma como os agentes exercem seu poder uns sobre os outros.
17
No entanto, o termo ramo, aqui, deve abranger, além do produto específico, as máquinas, os produtos químicos e os serviços a ele interligados.
De fato, a aglomeração, ao induzir a especialização, facilita o investimento efetivo e a atualização tecnológica em passos pequenos e arriscáveis. “Produtores podem se concentrar em etapas particulares do processo como um todo, deixando outros estágios para outros empresários. O investimento de um produtor em uma habilidade específica rende retorno porque outros produtores investem em habilidades complementares” (Humphrey; Schmitz, 2000: 19).
Portanto, a especialização favorece a complementaridade entre as firmas, que, por sua vez, pode produzir um maior grau de interdependência, tornando-as mais solidárias, umas em relação às outras, e transferindo o processo de decisão para além da firma. Desse modo, “o grupo de firmas é o sujeito coletivo que assume o papel no jogo competitivo” (Bianchi, 1996: 4). No entanto, o grau de integração entre as firmas não deve ser demasiadamente rígido para que o distrito industrial obtenha economias de escala sem perder, todavia - graças à segmentação desse processo -, a sua flexibilidade e a adaptabilidade frente às flutuações do mercado (Becattini, 1994).
O nível de flexibilidade do distrito depende das relações interfirmas, pois, quando estas são especializadas, podem ser combinadas de muitas maneiras diferentes, o que eleva a capacidade de responder às crises e às oportunidades. A flexibilidade é igualmente favorecida pela interdependência existente entre as diversas pequenas empresas dentro da cadeia produtiva, pela renovação constante das empresas no mercado (alta taxa de natalidade e mortalidade das empresas de menor porte) e pela mobilidade de recursos humanos. Esses dois últimos aspectos impõem reconhecer, por outro lado, que mesmo em territórios onde desponta uma capacidade coletiva de inovar, competir e adaptar, não se deve esperar a existência de “ilhas” de unidade e solidariedade, pois a eficiência coletiva é produto de um processo interno em que algumas empresas crescem e outras declinam (Schmitz, 1997). Essa flexibilidade pode se configurar de duas formas:
A flexibilidade pode ser ‘versatilidade ativa’ ou ‘maleabilidade passiva’ (...), quer dizer, pode consistir na capacidade de explorar nichos de mercado e atender rapidamente às encomendas, com base em uma mão-de-obra qualificada e polivalente, ou também pode significar simplesmente submeter-se às pressões externas dos clientes e aceitar reduções [nos preços], e repassar aos trabalhadores de maneira coercitiva as exigências de flexibilidade provenientes do mercado: expandindo e retraindo o volume de produção, forçando concessões salariais,
‘flexibilizando’ o uso do emprego de curto prazo ou eventual etc (Sengenberger; Pike, 2002: 120).
Segundo esses autores, as pequenas empresas tendem a cair na segunda forma de flexibilidade, devido à configuração informal das relações de trabalho. Dessa forma, percebe-se a importância da qualificação da mão-de-obra e também da existência da eficiência coletiva, que permitem ao distrito um maior poder de barganha no mercado final.