Apesar de certos entrevistados não terem saído das respetivas famílias de origem por motivos propriamente conjugais, após tal saída, apaixonaram-se e empenharam-se na vida conjugal. A paixão foi o móbil do compromisso que tiveram um para com o outro e serviu de veículo de institucionalização da família de procriação e de edificação conjunta de um projeto de felicidade.
Todavia, a diferença de expectativas entre homens e mulheres face à vida conjugal impregnou de obstáculos tal projeto de felicidade, especialmente para as mulheres, cujas relações sociais passaram a ser desincentivadas, a rede de amigos, redefinida e o compromisso com o marido, exaltado. Guilhermina, por exemplo, lembra que o marido: “Impede-me de sair de visita à casa dos meus parentes, ou conversar com vizinhos. Ele escolhe com quem me devo ou não relacionar e espia-me prá ver se cumpro as ordens dele”149. Rita afirma que o marido é “[…] um homem machista, tradicional e muito conservador. Ele num aceita as minhas amizades e quando saímos juntos num quer que
eu fale com ninguém”150. Sandra, cujo marido a abandou, descreve-o como um homem
machista que “[…] escolhia as pessoas que podiam falar comigo, controlava tudo a meu respeito e decidia o tipo de roupa que achava adequado prá mi”151.
Apesar de dispor de recursos financeiros que lhe permitiriam desfrutar de privilégios raros entre as mulheres, Judite, que desempenha o cargo de gestora de recursos humanos, confessa que o seu marido “[…] nunca aceitou que eu conduzisse um carro e é muito crítico em relação ao meu cargo”152. Por sua vez, Valentina recorda que o marido era um homem possessivo e mau: “[…] desconfiava-me a cada instante, revistava-me prá ver se eu tinha escondido algum dinheiro nos bolsos”153. Adelaide caracteriza o marido como um machista para quem “[…] o homem pode beber, sair de noite e voltar a qualquer hora […], mas a mulher num pode fazer nada disso”154. Por
149 Guilhermina, 38 anos, desempregada, 10ª classe, de Nampula. 150
Rita, 27 anos, comerciante, 10ª classe, de Maxixe.
151 Sandra, 27 anos, comerciante, 4ª classe, de Maxixe.
152 Judite, 35 anos, gestora de recursos humanos, licenciada, de Maxixe. 153
Valentina, 52 anos, desempregada, 3ª classe, de Nampula.
152
seu turno, o retrato que Emília faz do marido é de um homem autoritário que a vê como “[…] uma serva e um objeto de uso pessoal”155
.
Para além das proibições de saídas de casa, do sancionamento das redes de relações das mulheres e das escolhas de indumentárias consideradas apropriadas paras as mulheres, os próprios homens são acusados de avareza e de controlo excessivo dos víveres. A este propósito, Telma lembra: “Ele [o marido] proibia-me de visitar familiares e num aceitava visitas de ninguém lá em casa. Sempre que ele saísse de casa regressava espiando prá ver se encontrava alguém em casa. Humm… era um homem avarento, controlava a comida e se eu e as crianças comêssemos um pouco a mais, acusava-nos de sermos esbanjadoras”156.
A ociosidade é também referida como um comportamento típico de alguns dos homens. Ainda que certas mulheres estejam desempregadas, são elas próprias as que asseguram a provisão de meios de subsistência familiar, enquanto os maridos se dedicam ao ócio e ao lazer. Joaquina, por exemplo, refere-se ao marido como um homem pouco apegado ao trabalho: “[…] é preguiçoso, mandão e pouco apegado ao trabalho […]. Humm… quando volta sei lá donde, só exige comida e roupa limpa, mas num cria condições prá tal”157. Para Ofélia, o defeito do marido é “[…] não gostar de trabalhar e querer viver bem sem fazer qualquer esforço […]. Assim que amanhece, toma um banho, organiza-se, come alguma coisa e vai passear e só volta quando sente alguma fome”158.
Entre certas mulheres, a infidelidade é considerada como uma experiência muito frustrante da vida conjugal. Assim, Hortência lembra que quando estava grávida “[…] via as mulheres que ele [o marido] trazia em casa e dormia com elas num outro quarto[…]. Humm… deixava-me a dormir sozinha e trazia amantes em casa, mesmo sabendo que eu estava lá”159.
A postura dos homens a respeito da vida conjugal reafirma precisamente os discursos femininos relativamente aos maridos. Essa postura é particularmente ratificada por Américo para quem: “A mulher é uma ser frágil que carece de um homem que a ajude e a guie a fim de que não perca o seu prestígio e a honra […] deve evitar
155
Emília, 45 anos, agricultura, 4ª classe, de Maxixe.
156 Telma, 39 anos, desempregada, 5ª classe, de Nampula. 157 Joaquina, 49 anos, agricultora, 5ª classe, de Maxixe. 158
Ofélia, 29 anos, professora, 12ª classe, de Nampula.
153
expor-se tanto, deve permanecer em casa”160. Roberto julga que “As mulheres de hoje estão como querem […], andam emocionadas com a ideia de igualdade […]. Eu sou desfavorável a tudo isso, porque aumenta os divórcios. As mulheres hoje já são ministras e governadoras. Como é que essas mulheres podem atender os maridos, assim?”161.
Os acessos a qualificações académicas e a realizações financeiras pelas mulheres foram considerados fatores que colocam entraves à estabilidade e à harmonia dos casais. No entanto, tendo em conta que a maior parte das mulheres tinha baixas qualificações académicas e provinha de famílias com baixos recursos económicos e culturais, os maridos nem sempre se opunham às realizações académicas e financeiras das mulheres, desde que tais não fossem iguais nem superiores às dos próprios maridos. A este propósito, Adriana afirma: “ Ele [o marido] aceita que eu tenha alguma qualificação académica e alguma renda, mas não que seja superior à dele”162. Ivone advoga que o marido “ […] aceitaria que eu tivesse alguma qualificação académica e alguma condição financeira desde que tais estejam abaixo das suas qualificações ou dos seus rendimentos”163. Pelo contrário, para Gabriela, “ [...] isso num pode ser porque prá ele [o marido], isso será a origem da minha insubordinação”164.
De resto, outras mulheres reafirmam que os maridos não toleram a ideia de elas terem qualquer qualificação académica ou alguma fonte de rendimento diferente daquela que os próprios maridos lhes podem prover. Para Guilhermina, por exemplo, ao marido importa que ela “[…] num estude, num tenha emprego e nem recursos diferentes daqueles que ele me oferece. Assim, controla-me a mi e a minha dignidade”165. Telma revela: “Ele [o marido] preferia ver-me a mendigar-lhe umas moedas prá comprar o que fosse do que me deixar ganhar o meu próprio dinheiro”166. Por sua vez, Judite, que se licenciou a morar com o marido, recorda que este sempre se opôs aos seus estudos e a fez passar por situações vexatórias para desincentivá-la: “Um dia, eu estava a fazer um exame na faculdade e ele apareceu na sala de exame sem pedir licença e ordenou-me que saísse de imediato para casa. Disse-me que eu era a sua mulher e que nunca devia
160 Américo, 50 anos, professor, 12ª classe de Maxixe. 161 Roberto, 42 anos, agricultor, 7ª classe, de Maxixe. 162
Adriana, 30 anos, desempregada, 12ª classe, de Maxixe.
163 Ivone, 34 anos, professora, licenciada, de Nampula. 164 Gabriela, 28 anos, desempregada, 10ª classe, de Nampula. 165
Guilhermina, 38 anos, desempregada, 10ª classe, de Nampula.
154
ousar desafiá-lo. Humm … nesse dia, eu fiquei tão envergonhada que não queria ver nem ser vista por ninguém”167.
Assim, a interferência nos estudos e o impedimento de obter rendimentos próprios por parte das mulheres são percebidos como uma estratégia de controlo e de dominação sem o exercício das quais, a autoridade masculina pode ser posta em causa. Esta representação é particularmente evidente no discurso de Pedro, que afirma não aceitar que a respetiva mulher tenha qualificações académicas e realizações financeiras superiores às suas, “ […] porque isso gera desrespeito e a mulher começa a se sentir superior ao homem e a pensar que ela é a chefe da família. A mulher deve sempre ser inferior ao homem para haver ordem em casa e pelo bem da própria família”168.