Durante as entrevistas foi verificado o uso de diferentes designações referindo-se a ideias semelhantes, demonstrando que sinônimos assumem conotações distintas em diferentes territórios. Os termos excursão, visitas, visita cultural, turismo e passeio exemplificam a variação encontrada, quando os diversos participantes referem-se à ação promovida pelo projeto Lugares de Aprender: a escola sai da escola.
- É permitido,...a gente encaixa né, eles ganham também o lanche nessa excursão, né (Profª Lisa).
-Costumo sair para vários lugares além de ir para excursão(Estudante).
- Como eu tinha falado, o ponto principal do turismo é o deslocamento mesmo de dar acesso para os alunos, para frequentar lugares diferentes que talvez eles não teriam a possibilidade de frequentar (Profª Lisa).
- Porque eles gostam de diversão e não gostam de ir nesses passeios (...) (Estudante)
(...) o intuito era que os professores levassem os alunos a passeios fora da escola, só que tivesse uma proposta, não como eles vão nos parques como HopiHari, Play Center, apenas por diversão, e sem propostas pedagógicas, pudesse mostrar para o aluno que existe um outro universo que é fora de sala aula de aula (Profª Deise).
O uso dos termos passeio, excursão ou turismo é comumente presente nos discursos de estudantes e professores, e menos no discurso dos demais participantes diretamente relacionados ao sistema de ensino público estadual. Embora alguns profissionais menos sintonizados com as questões pedagógicas escolares, também façam uso desses termos.
- Isso dá pra perceber. ... Vai ser mais rico pra você, quando você encontrar com a Fernanda (coordenadora), porque, como ela tá acompanhando esses últimos anos, então ela consegue colher isso (...) (VD Gilda).
- Oh, os passeios geralmente são feitos em pontos turísticos de São Paulo, quer dizer, que isso já é fato, eles vão conhecer locais que pessoas de outros países vêm conhecer (...) (VD Gilda).
Entre os profissionais diretamente relacionados à gerência do projeto, é expressa a inadequação quanto ao uso de termos relacionados à diversão e ao lazer.
- Partiu da secretaria da educação, e esse projeto é todo atrelado ao currículo e são visitas em que o termo “passeio” é abolido porque toda “visita” você atrela a questão do currículo oficial. Por isso o nome: “Cultura é Currículo” onde visa contemplar e expandir o currículo fora dos muros da escola (PCNP Bia).
- Mas assim, para nós que entendemos mais um pouco, não é uma excursão, é uma
visita cultural(CP Lúcia).
- Eu coloco bem isso: “- Gente, não é um passeio, é uma visita cultural(...)”(PCNP Ana).
A argumentação sobre o uso de alguns termos em detrimento a outros, refere-se à necessidade de expressar a articulação direta dessa atividade pedagógica ao currículo escolar.
-Tanto é que, por exemplo, antigamente as escolas faziam as excursões, como eles chamavam, “Vamos visitar tal museu”, não, hoje existe já, o estado já proporciona essas visitações que estão atreladas ao currículo, que estão atreladas a todo esse processo, já para a escola já ter essa oportunidade dentro do próprio currículo, que é a proposta do Cultura é Currículo, a cultura articulada com o currículo (...) (PCNP Ana).
Apesar disso, mesmo esses profissionais que têm clareza das diretrizes do projeto, têm dificuldade em desconsiderar esses termos em seus discursos.
(...) e nunca foram assim.. “passear” vamos falar dessa forma, no centro de São
Paulo (PCNP Sérgio)
(...) este mês nós tivemos 41 passeios, visitas, então eu não sei por que não 45 ou 50 ou 30? (PCNP Ana).
Além da referência não intencional desses termos em seus discursos, os mesmos profissionais demonstram clareza de entendimento quanto a relação direta dessa ação pedagógica ao lazer e socialização dos estudantes. .
- Eles não têm um lugar de lazer aqui, então para eles isso é muito, muito importante (Super. Dóris).
(...) a proposta é justamente esse vínculo da cultura com o currículo, lugares que você vai visitar, é um lazer, é um passeio, e ao mesmo tempo tem esse foco da aprendizagem, não é somente ir por diversão ou somente ir para aprender, essa comunhão entre a cultura e o currículo, então a frase: Lugares de Aprender, não sei da onde foi criada, “A escola sai da escola”, porque lá ele vai estar tendo uma aula diferenciada, tanto é que o aluno faz essa visitação dentro do seu horário de aula, ele não estuda de manhã e vai fazer essa visitação a tarde, é no próprio horário, aquele horário que ele deveria estar na sala de aula, ele não está, mas ele está no museu, no centro cultural, também tendo uma aula (...) (PCNP Ana).
Sobre o entendimento de turismo, termo que também aparece nos discursos, há divergências sobre sua compreensão pela Organização Mundial do Turismo e no entendimento teórico acadêmico que se mostra mais amplo, evidenciando o turismo como um fenômeno social e cultural.
O conceito do turismo atribuído pelo OMT visa a definição desse fenômeno com objetivo de controle associado ao aspecto econômico. Dessa forma, surgem normatizações sobre essa atividade, para que empresas possam oferecer esses serviços a partir de uma configuração que atenda às exigências dos consumidores. Entre as normatizações da atividade
turística, a obrigatoriedade do guia de viagens é um item relevante quando há o deslocamento de grupos para visitação a destinos turísticos.
No entanto, nesse projeto além de seu não reconhecimento como turismo na nomenclatura oficial, sua realização não conta com profissionais especializados à área do turismo durante o deslocamento. Este papel é sugerido que seja feito pelos professores acompanhantes, mesmo que estes não tenham a formação técnica de guia ou ao menos tenham feito a visitação anteriormente.
(...) e aí o professor, normalmente, né, o professor que acompanha vai sendo um cicerone do passeio, né ele já vai falando: “– Aqui estamos chegando em São Paulo, aqui é o estádio, aqui é o Anhembi, aqui acontece o carnaval”, então o percurso já é uma aula, então é bastante interessante (PCNP Ana).
Aí então, em Geografia nós pegamos um dia tinha trânsito, aí já dá pra discutir durante. A gente já discutiu poluição, meio ambiente, poluição do rio Tietê, porque o rio Tietê não é navegável, então a gente já aproveita (...)Então, no ônibus não tem ninguém, somos nós que fazemos já a preparação o que vai ser, no lugar é tudo monitorado (Profª Rosa)
A preocupação com o uso das palavras pode revelar cobranças e pressões quanto à justificativa de realização de determinadas atividades em períodos de “trabalho” escolar, além dessa exigência e ênfase no reconhecidamente do aspecto educativo, há a pressão quanto à produtividade no processo de escolarização formal.
A substituição da nomenclatura que designava cargos no sistema de educação estadual por outros aponta alterações ideológicas quanto à concepção de escola e de educação. A alteração da nomenclatura “série” para “ano” escolar marcam a alteração do período de oito para nove anos, a duração do Ensino Fundamental.
Nós saímos da série pra nos fixarmos no ano. Então, nós temos escolas que ainda se encontram, na relação deles, o oitavo ano e ainda tem a oitava série. Então, aos poucos, gradualmente, está saindo o termo: série... (...) Porque ano seria uma nomenclatura atual, seria um ciclo de nove anos, contando o primeiro ano, que antes era pré-escola, certo, então a pré-escola antigamente era considerado prezinho, a pré-escola e depois começava a contar: 1ª série, 2ª série, 3ª série, 4ª série até 8ª série, nessa nova nomenclatura nós contamos como sendo primeiro ano o antigo prezinho (...) Quando a gente distribui as vagas, a gente tem que sempre estar bastante atento, o que a instituição está disponibilizando? (PCNP Ana).
Também as matrizes curriculares têm passado por alterações:
- Não, um por unidade que dê aula naquela série, porque o currículo do ensino médio ele é novo, até dois anos atrás não tinha aula de Arte no 3º ano do ensino médio, então não tinha na matriz, então entrou na matriz a disciplina de Arte, não tinha no currículo como nas outras séries. Então foi elaborada essa proposta de currículo, o ano passado nós tivemos orientação técnica em São Paulo, sobre essa proposta e já começamos a implantar, esse ano ele tem que implantar efetivamente (PCNP Ana).
Ainda no território da educação formal o uso de diferentes termos em relação aos profissionais ligados à administração, ilustra a presença do modelo gerencialista nas escolas.
- E é válido para o ano todo. E daí vai da iniciativa do corpo gestor da escola (CP Júlio).
-Sim, mas depende do corpo gestor (PCNP Bia).
Nesse exemplo também é possível constatar que a capilaridade de alcance das mudanças implantadas é mais lenta e encontra mais resistência na base do sistema, ao penetrar em culturas locais.
- Então, os diretores não querem confiar os alunos que saiam conosco, né? Porque eles ainda não nos conhecem, não sabem ainda qual é o nosso potencial, se vai dar certo (Profª Deise).
Tais usos de diferentes designações não é exclusividade do sistema escolar, também nos espaços de educação não formal identificamos o uso diversificado dos seguintes termos: monitores, educadores e mediadores.
( pesquisador) - Os... são chamados monitores ou educadores, os que tem o contato direto? - Os educadores ambientais (Ed. Gil).
Além da diversidade estar relacionada à ampliação de sentido atribuída às funções exercidas por esses profissionais em diferentes espaços relacionados à educação não formal, há ainda, a utilização desses termos referindo-se às condições hierárquicas ocupadas nesses locais.
- Não necessariamente, existem museus que o monitor ou mediador ele é formado e é contratado pelo museu e o estagiário só auxilia as visitas (...) Ah, tá, daí no caso eles optam pelo termo monitor e não educador.(...) Isso, quando é estagiário,
monitor, quando é formado, educador. Também, ultimamente eles têm usado bastante o termo mediador. Mas ainda existem muitos lugares que falam monitor (Ed. Debora).
Alguns museus como possuem equipes responsáveis pelo preparo da programação educativa, e são designados de “educativos”, sendo os profissionais que o compõe, os educadores.