6.2 Omgrepet psykisk helse
6.2.6 Ei god psykisk helse
Historicamente, o termo identidade surge no século XVII, em meio as discussões filosóficas do iluminismo e teve seu uso popularizado em meados do século XX.
(...) o sujeito do Iluminismo é baseado numa concepção de indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de ação, cujo “centro” consistia num núcleo interior, que
emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia, ainda que permanecendo essencialmente o mesmo – contínuo ou “idêntico” a ele – ao longo da existência do indivíduo. Seu centro essencial era sua identidade como pessoa. (SANTOS, 2010, p. 28)
Essa concepção iluminista dará origem a corrente das teorias da identidade que seria denominada de essencialista. Desde então, diversas discussões tem sido travadas no campo teórico dando origem a uma multiplicidade de abordagens, concepções e conceitos que tratam da identidade.
A reflexão teórica contemporânea não é sobre “a identidade”, mas sobre identidades: pessoais, sociais, simbólicas, profissionais, culturais, étnicas, de gênero. A Concepção de identidade, especialmente para os pós-estruturalistas, é cada vez menos essência e mais móvel, múltipla e situacional. Para este estudo, realizou-se um aprofundamento da fenomenologia, especialmente de George Mead, Alfred Schutz e a recepção destes estudos na antropologia brasileira, através de Gilberto Velho, com o objetivo de conduzir a análise das narrativas dos jovens e sobre processos reflexivos em torno da violência.
2.4.1 O self/identidade como processo social – George Mead
Self, originalmente, significa “por si mesmo”, o mesmo, o idêntico e tem sido aplicado ao ser humano com a conotação de singularidade, de identidade distintiva que persiste no tempo.
Para Mead (1982), este si-mesmo, o self é produto da interação social, emerge como fruto de um processo de experiência e ação social, ou seja, a partir das relações do indivíduo com um todo e outros indivíduos dentro desse processo.
O Self não é uma unidade. Ele está constituído pelo self-sujeito (eu) e pelo self-objeto (mim). O eu é a reação do organismo às atitudes dos demais e o mim é a série de atitudes organizadas dos outros, adotadas por cada um. As atitudes dos outros constitui o mim organizado e a reação a ele se dá através do eu (MEAD, 1972, p. 175).
Mead (1972) enfatiza a diferença entre o “mim” e o “eu” tratando-as como fases distintas do Self.
(...) o "mim" corresponde às atitudes organizadas dos outros, que nos assumimos definidamente e que determina, consequentemente, a nossa conduta na medida em que ela é de caráter autoconsciente. Agora, o "mim" pode ser considerado como o cedente (giving) da forma do "eu". A novidade
aparece na ação do "eu", mas a estrutura, a forma do self, é convencional. (MEAD, p. 209, 1972)
O outro generalizado corresponde à comunidade ou grupo social organizado do qual o indivíduo faz parte. A atitude do outro generalizado é a atitude de toda a comunidade e é o que proporciona ao indivíduo, a sua unidade de pessoa.
A conceituação do outro generalizado em Mead (1972) nos leva à compreensão de sua importância enquanto elemento mediador entre o indivíduo e a sociedade e de seu papel enquanto instrumento de controle social introjetado pelo self, que, por sua vez, reflete a formulação abstrata da comunidade ou sociedade a qual pertence o indivíduo33F33F
34.
O self congrega o passado, o presente e o futuro em suas fases distintas. Ao “eu”, Mead delega a expressão presente do que o sujeito projeta como futuro. A sua fase expressa pelo "mim" está voltada ao passado. Nas palavras de Mayorga (2006),
Mead delega ao eu, um papel essencialmente de agente, que desempenha suas atividades na imediaticidade do presente e reage às atitudes dos outros no “aqui e agora”. Já o mim, representa uma espécie de recordação das atitudes do eu, bem como a série de atitudes organizadas dos outros, adotadas pelo self. Nesse sentido, o mim está interrelacionado com as influências e consequências sociais da ação do eu. O mim está ligado com a cultura internalizada, com a memória e com todos aqueles valores que de uma maneira geral estão ligados à sociedade. O mim é composto pela internalizarão ou incorporação do outro generalizado. Eu e mim estão em constante “diálogo” e o resultado desse “diálogo” é a ação. (MAYORGA, 2006, p. 7)
Para Mead (1972), o self é processo reflexivo pois o indivíduo consegue tomar a si mesmo como objeto de reflexão, ou seja, ele pode ser ao mesmo tempo sujeito e objeto. O indivíduo se coloca a si mesmo como objeto, através dos pontos de vista particulares dos outros membros do grupo social e do ponto de vista
34 Para Mead (1972) É na forma do outro generalizado que os processos sociais influenciam o comportamento dos indivíduos neles envolvidos e que eles são executados, quer dizer, que é nessa forma que a comunidade exerce seu controle sobre o comportamento de seus membros; porque e nessa forma que o processo entra como um fator determinante do pensamento individual. Pelo
pensamento abstrato o indivíduo assume para si a atitude do outro generalizado, sem referência à
expressão que esse outro generalizado possa assumir para qualquer outro indivíduo particular; e pelo
pensamento concreto assume essa atitude em que é expressada nas atitudes para o seu
comportamento, por parte daqueles outros indivíduos com quem está envolvido na situação ou no ato social. Mas, unicamente adotando a atitude do outro generalizado para si, por uma dessas maneiras, pode o indivíduo pensar, porque apenas assim pode se dar o pensamento. E somente através da
apropriação pelos indivíduos da atitude ou das atitudes do outro generalizado para si mesmo que pode existir um universo de discurso, como um sistema de significados comuns ou sociais que o
generalizado desse grupo, enquanto o todo ao qual pertence.
Sendo assim, o self é uma articulação das experiências subjetivas do indivíduo (o eu), com os papéis objetivos que a sociedade apresenta (o mim) e depende essencialmente dos grupos sociais aos quais o indivíduo pertence, pois “o indivíduo possui o self somente em relação aos selfs dos outros membros do seu grupo social” (MEAD, 1962, p. 164). “Eu” e “mim” estão em constante “diálogo” e o resultado desse “diálogo” é a ação.
Embora façamos a distinção entre eu e mim, essas instâncias do self não estão separadas e tal noção de self rompe com a concepção moderna de conhecimento que explica a construção do mesmo e a relação entre indivíduo e sociedade através da relação entre sujeito e objeto (S à O). A partir da teoria do self, a noção de sujeito como mero observador será criticada, surgindo a valorização de seu papel como ator; como alguém que é sujeito e objeto na sua relação com o mundo, a partir de uma relação dialética. Esse posicionamento rompe com os dualismos cartesianos entre mente e corpo; entre self e mundo. (MEAD, 1962, p. 164).
Para Mayorga (2006), George Mead, através da teoria do self e do outro generalizado contribuiu para a compreensão da formação da identidade, dentro de um movimento dialético na relação do homem com o mundo, em que o homem é o sujeito e o objeto na construção do self. Portanto, dentro desta perspectiva, a identidade não seria fixa mas sujeita às transformações ocorridas ao longo do processo de interação do indivíduo com os seus grupos sociais.
2.4.2 Ação social e identidade – Alfred Schutz
Para Schutz (1979), o sujeito se constitui em uma biografia única, mas dentro de um mundo que é comum a todos os seres humanos. O mundo existe independente do sujeito e continuará a existir depois dele, pois pressupõe uma existência material constituída por vários elementos da história da cultura. Mesmo que cada um possua uma biografia diferente, cada uma destas biografias será construída dentro de um mundo constituído por todos, mas vivenciados de forma diferente. O sujeito está sempre amparado em sua biografia e em uma comunidade de pessoas que formam o Outro para ele. Este Outro é imprescindível. É graças a ele que a sociabilidade se efetiva através dos atos comunicativos.
O sujeito quando apreende e se socializa o faz através de suas experiências e vai construindo sua identidade. Mesmo dentro da mesma cultura, ele se constitui um campo subjetivo particular que, mesmo dentro de um mesmo ambiente vivido por outros sujeitos, lhe confere sentidos diferentes. Esta situação confere ao ser humano um
estoque de conhecimentos, constituído através do cotidiano, que faz com que ele dê sentido ao mundo que o rodeia, a isto Husserl denomina “sedimentação de significado”.
Estes significados são construídos a partir da intersubjetividade, que por sua vez carece da existência de um Eu e um Outro para fazer com que as experiências subjetivas, que são biográficas, sejam significativas.
Entende-se por intersubjetividade o mundo cotidiano não apenas pertencendo a um único indivíduo, mas compartilhado com os seus semelhantes. O mundo social é constituído por meio da comunicação e da ação intersubjetiva dos sujeitos capazes de envolvê-los na interação social e fazê-los experimentar e compreender os fundamentos da subjetividade. (SCHUTZ, 1972)
Essas relações experienciadas vão dando ao indivíduo uma formação única à sua pessoa. Vivendo nesse mundo, o indivíduo ocupa, na sociedade onde vive, um lugar e um tempo e toda a aquisição e sedimentação de experiências no decorrer de sua vida o faz ser diferente dos demais, embora sejamos semelhantes. Essa é sua identidade própria, o eu biograficamente construído (SCHUTZ, 1972).
Assim, a situação biográfica é caracterizada por um acervo de conhecimento experimentado, vivenciado pelo sujeito social durante sua vida, interpretada como a tipificação do senso comum.
É todo momento da vida de um homem, isto é, o ambiente físico e sociocultural conforme definido por ele, dentro do qual tem sua posição, não apenas em termos de espaço físico e tempo exterior, ou de seu status e papel dentro do sistema social, mas também sua posição moral e ideológica. É a sedimentação de todas as experiências anteriores desse homem, organizadas de acordo com o seu estoque de conhecimento à mão, são posses unicamente dele, dadas somente a ele. (SCHUTZ, 1972)
Dentro desta perspectiva, o autor ressalta a importância de compreender as pessoas dentro de seu mundo social. Segundo o autor, as ações dos sujeitos podem ser interpretadas através de três tipos “indiretos de abordagem” A primeira delas é colocar- se no lugar do outro e com isto compreender o que passa na ação de um sujeito quando age; a segunda revela que, a partir de informações sobre as ações costumeiramente desenvolvidas, as pessoas podem saber como uma outra procederia naquela situação; a terceira é, a partir da ação em curso, conseguir interpretar o que está acontecendo na ação desempenhada (SCHUTZ, 1979, p. 192).
As concepções de identidade em Mead e Shutz serviram de aporte para a compreensão da perspectiva do jovem participante desta pesquisa sobre si e sobre relação de suas concepções do ser jovem e de sua identidade.