O golpe militar que derrubou Getúlio Vargas em 1945 provocou grandes mudanças na vida dos Salles, a começar pela exoneração de Clóvis da prefeitura. A situação financeira precária em que a família se viu, de repente, obrigou-a a deixar Castanhal e ir embora para Belém. Na verdade, Nancy, Conceição e Jeannete já viviam em Belém, por causa dos estudos, morando em casa de parentes. Com o desemprego de Clóvis, decidiram recomeçar a vida na capital, vivendo com parentes, na rua Santarém, no bairro da Cidade Velha. Depois, bem depois, quando Clóvis abriu uma firma comercial, a situação financeira mudou e mudaram-se para uma casa na travessa Cametá.
No início da década de 1940, Belém possuía em torno de 200 mil habitantes, de acordo com o Censo de 1940, e estava há pelo menos duas décadas do fim da chamada Era da Borracha. É bem verdade que, em meio à Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos financiaram a exploração do látex da floresta amazônica para abastecer a indústria bélica, estimulando a migração de nordestinos para os seringais. Para isso, houve injeção de capital no Banco de Crédito da Amazônia (BASA), criado em 1942 por Getúlio Vargas, justamente para financiar a produção da borracha. Foi a última tentativa de aquecer a economia com a extração daquela matéria-prima.
A Belém que Vicente Salles conheceu circulava ainda nos trilhos dos bondes elétricos, abrindo caminho para a chegada dos ônibus. Possuía o Cine Olympia, fundado em 1912, a mais antiga sala de cinema em funcionamento no Brasil. Ouvia a Rádio Clube do Pará, “a voz que fala e canta para a planície”, que ganharia uma concorrente, a Rádio Marajoara, só em 1954.29 Lia A Província do
Pará, A Folha do Norte e O Estado do Pará, os principais jornais diários.
Belém que ganhava prédios modernos, enredando-se entre os casarões coloniais da região central. Uma dessas novas construções era o Central Hotel, exemplar de art déco
erigido em 1939 na Avenida Presidente Vargas (Figura 8), uma das mais importantes da capital paraense. Foi no Central Hotel que, em 1944, a escritora Clarice Lispector e seu marido, o diplomata Maury Gurgel Valente, residiram por seis meses. Gurgel, que havia sido enviado como vice-cônsul a Belém, foi em seguida designado para cumprir a mesma função em Nápoles, na Itália.
Clarice fez boas amizades com intelectuais paraenses, entre eles o poeta Ruy Barata, o jornalista Cléo Bernardo e o professor de Literatura e crítico Francisco Paulo Mendes, a quem citaria em Um sopro de vida e quem apresentou a ela a obra de Jean-Paul Sartre.30 Foi em Belém que a escritora recebeu as primeiras manifestações sobre o
lançamento de Perto do coração selvagem, seu livro de estreia. E, mantendo-se ativa na imprensa, reportou para A Noite a passagem da então primeira-dama dos Estados Unidos, Eleanor Roosevelt, pela capital paraense.31
29 Cf. Site O PARÁ NAS ONDAS DO RÁDIO.
30 Crônica “Dona Clarice”, de Benedito Nunes, no livro Dois ensaios e duas lembranças, de sua autoria. Cf.
NUNES, 2000.
31 Edição especial Clarice Lispector dos Cadernos de Literatura Brasileira. Cf. INSTITUTO MOREIRA
SALLES, 2004.
Figura 8: A Avenida Presidente Vargas, umas das principais de Belém do Pará, na década de 1940. Fonte: Fragmentos de Belém.
O filósofo Benedito Nunes, que era apenas um adolescente em 1944 e se tornou amigo dela muito tempo depois, além de um especialista em sua obra, lembra-se dos rumores de sua passagem por Belém através das recordações de amigos em comum que a conheceram “resplandecendo no terrasse do Café Central” (NUNES, 2000, p. 45). Mas, daquela Belém, ele guardou vivas as recordações de sua amizade com o poeta piauiense Mário Faustino, que viveu longos anos na capital, descrevendo-a assim:
Na Belém de trezentos mil habitantes, pós-Segunda Guerra Mundial, havia, apesar do calor, clima para longas caminhadas a pé, para passeios nos velhos bondes ou nos novos ônibus, que então começaram a circular, e para demoradas conversas nas casas de um e de outro, que se prolongavam nos cafés, sobre os livros que líamos (NUNES, 2000, p. 39).
Vicente Salles soube de Benedito Nunes e de seu círculo intelectual à época, mas dele não fez parte, embora tenha recebido uma influência indireta, de acordo com o que relata no artigo “O filósofo no seu jardim” (2011, p. 163–168), escrito em homenagem a Nunes por ocasião de sua morte, em 2011. Aproximaram-se em vários momentos por um interesse em comum: o teatro. Benedito Nunes, sua esposa, Maria Sylvia Nunes, e a irmã dela, Angelita, fundaram o Norte Teatro Escola na década de 1950, encenando peças de Shakespeare, Molière e João Cabral de Melo Neto, para citar alguns autores, história referenciada por Vicente na obra Épocas do teatro no Grão-Pará....
A Belém que Vicente Salles viu, quando começou a circular por entre artistas, era outra, a do teatro popular: os cordões de bichos e de pássaros e os pássaros juninos,32 o teatro nazareno (apresentado na época da festa do Círio de Nazaré, de onde retira esse adjetivo), o teatro estudantil que vicejou por essa época e ganhou rumo fora de Belém. No Teatro da Paz não havia mais encenações de ópera das grandes companhias, mas ele continuava funcionando com apresentações diversas e até com eventos políticos. Havia ainda o Palace Theatre e inúmeros outros teatros de menor porte: Coliseu, Poeira, Rancho Grande (SALLES, 1994, p. 499–508).
Chegando a Belém aos 14 anos de idade, Vicente abandonou, temporariamente, os estudos ginasiais e foi matriculado na Escola Prática do Comércio, no período noturno, para que pudesse trabalhar durante o dia e, assim, ajudar a família. O ganho dessa troca
32 Cordões de bichos, cordões de pássaros e pássaros juninos são autos populares encenados na quadra
junina. São caracterizados pela figura central de um animal encantado que é perseguido por um caçador, a mando de um fazendeiro ou de um nobre, até ser morto. Por ser encantado, ele ressuscita em uma ação mágica de uma fada ou de um pajé. O enredo é parecido com o do auto do boi-bumbá, com a diferença de que os cordões de pássaros são encenados no palco e seus brincantes nunca saem de cena. Os cordões de bichos normalmente saem às ruas ou apresentam-se em terreiros. Carlos Eugênio Marcondes de Moura dedicou-se ao tema. Cf. MOURA, 1997.
foi o quadro de professores formado por intelectuais que figuram na bibliografia essencial sobre o Pará, como o geógrafo Eidorfe Moreira33 e o poeta Avertano Rocha, que foi presidente da Academia Paraense de Letras e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. O professor de inglês era Mr. Kirby, um dos barbadianos que migraram para o Pará no início do século XX, na esteira dos projetos estabelecidos na Amazônia, como a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e a instalação da Pará Electric, empresa responsável pelo sistema de bondes elétricos em Belém. A história da migração dos barbadianos foi recuperada por Salles em O negro no Pará e posteriormente estudada por Maria Roseane Lima.34
Para habilitar-se a um emprego, Vicente tomou rápidas e eficientes lições de datilografia com uma vizinha e, com a autorização de um juiz, foi admitido como office boy e auxiliar de escritório na filial paraense da Casa Rand, empresa britânica com sede no Rio de Janeiro, cuja representação em Belém localizava-se na travessa Padre Eutíquio, no centro comercial, não muito longe de sua casa.
Essa área de Belém, conformada pela Cidade Velha, Comércio e Campina, e limitada pela Baía do Guajará, onde começa a história da cidade, compõe o centro histórico, sítio onde se misturam os vestígios arquitetônicos da colônia e do império, os casarões portugueses; as ruas com paralelepípedos ainda visíveis naquela década; as igrejas do século XVIII; o Palácio Municipal Antônio Lemos, o Palacete Azul, sede da prefeitura, iniciado no século XVIII, mas concluído no século seguinte. Ao lado dele, o antigo Palácio do Governo, de fachada branca, prédio projetado pelo legendário arquiteto bolonhês José Antônio Landi, no século XVIII. Próximo a esse palácio está a Igreja de São João, outra joia edificada por Landi. A família Salles, ao se instalar em Belém, morou em ruas no entorno de São Joãozinho, como é conhecida popularmente a pequena igreja.
A algumas quadras do escritório onde Salles trabalhava, ficava uma editora e livraria que fez história na cidade, de 1914 a 1949: a Guajarina, especializada em folhetos de cordel, leitura que ele já apreciava por influência do pai. Iniciou uma coleção com o catálogo da Guajarina e, estudando essa linguagem, elaborou o ensaio Repente & Cordel, que recebeu o prêmio Sílvio Romero, da Funarte, em 1981. Também na travessa Padre
33 Eidorfe Moreira (Paraíba, 1912 – Pará, 1989) é autor de Conceito de Amazônia (1958), Belém e sua
expressão geográfica (1966), Roteiro bibliográfico do Marajó (1969), Presença do mar na literatura
brasileira (1962), Os sermões que o Padre Vieira pregou no Pará (1970), O livro didático paraense (1979), Os igapós e seu aproveitamento (1976), Amazônia: o conceito e a paisagem (1960), Estado e
ideologia (1960) e Ideias para uma concepção geográfica de vida (1960). Cf. EIDORFE MOREIRA. 34 “Ingleses pretos, barbadianos negros, brasileiros morenos? Identidades e memórias (Belém, séculos XX e
Eutíquio estava a gráfica onde era impresso o jornal do Partido Comunista. Na travessa paralela, a Campos Sales, ficavam o prédio da Biblioteca e Arquivo Público do Pará35 e a sede do (hoje extinto) jornal A Província do Pará, onde ele iniciaria sua atividade jornalística. Estava, portanto, “no melhor dos mundos possíveis”, diria o Doutor Pangloss, repetindo a frase cara ao otimista Cândido, o personagem-título da obra de Voltaire, um de seus autores prediletos.
Como Salles ia a pé para a Casa Rand, aproveitava para olhar e saborear as ruas e sua movimentação diária, frequentando aqueles lugares, criando, pode-se dizer, uma cidade pessoal com o seu deslocamento. “Os jogos dos passos moldam espaços. Tecem os lugares”, afirma Michel de Certeau (2003, p. 176). Essas andanças, com o passar do tempo, foram ampliando para ele o mapa da cidade e foi assim que, tímida e objetivamente, foi-se integrando a ela, conhecendo pessoas, fazendo amigos. Chegava ao escritório, varria e arrumava tudo, enquanto o dono da firma de representação, o pracista Erandy Lobato, ia para a rua ofertar os produtos da empresa: bicicleta, geladeira e rádio em grande quantidade. Sozinho, o auxiliar de escritório, que tinha “redação própria”, preparava os documentos, datilografando-os na máquina enorme, de teclas pesadas. No fundo, todo o prazer daquele trabalho estava concentrado na máquina de escrever, que se tornou um objeto de desejo carregado de palavras encobertas e promessas.
Quando terminava os serviços do dia, exercitava sua verve literária. “É quando eu realmente me defino na vida, [...] a oportunidade que tive na ociosidade de um escritório. Me danei a escrever cartas”, relembra. Não só cartas, mas poemas, contos e artigos, tudo datilografado e duplicado com folha de carbono, hábito adotado dali por diante.
“Poemas e cartas fizeram-me o que sou”, escreveu em sua autobiografia (2007, p. 12) sobre o momento em que as correspondências o levaram a estabelecer contatos com jovens de outros estados brasileiros e de outros países, sobretudo os de língua espanhola – Peru, Chile, Argentina, Uruguai. Trocavam selos, revistas, publicações e experiências literárias. E, pasmem, quando já não morava em Belém, até xadrez ele jogava por correspondência com o irmão caçula, José Jacaúna – cada um com o seu tabuleiro, as jogadas, descritas, cruzavam o país.
Em 1947, já ambientado na cidade, a família morando em outra casa, maior, na travessa Cametá (Figura 9), na Cidade Velha, começou a publicar seus textos na imprensa local, sob o pseudônimo Juarimbu Tabajara. E não em qualquer jornal, mas em A
35 Atualmente, funciona neste prédio apenas o Arquivo Público do Pará. A biblioteca, desmembrada em
Província do Pará, que acabara de se integrar aos Diários Associados, império de Assis Chateaubriand. Um dos redatores, o poeta Romeu Mariz, amigo de seu pai, teve a iniciativa de publicar os textos. Começou com “Minha infância”, suas memórias precoces, e prosseguiu com poemas. “É aquela fase assim... adolescência, né? O poeta adolescente, você sabe, ele é arrojado [risos]. É arrojado o poeta adolescente”.
Esse momento coincidiu com o avançar do curso técnico e o início das aulas de mecanografia (datilografia e estenografia), ministradas pelo jornalista Milton Trindade na Escola Prática do Comércio. Trindade, que chegaria ao Senado em 1967, era superintendente de A Província do Pará e deu-lhe a oportunidade de ser colaborador do jornal, publicando reportagens e artigos por dois anos seguidos. Ofício não remunerado, como não seria nas futuras experiências de Salles em Belém e no Rio. Era, de acordo com o autor, a satisfação de ver seu nome estampado na página do jornal, numa época em que os cadernos literários gozavam de prestígio, congregando intelectuais como Mário Faustino e Haroldo Maranhão, no concorrente A Folha do Norte.
Adentrar o prédio de A Província do Pará era reviver a Divina Comédia todos os
Figura 9: Travessa Cametá, na Cidade Velha, centro histórico de Belém, onde viveu a família de Vicente Salles a partir da década de 1940. Agosto, 2013 © Rose Silveira.
dias. Não que o ambiente fosse um martírio, pelo contrário. À porta do jornal ficava o engraxate italiano Domenico Amoscato, um anarquista que aproveitava a hora de lustrar os sapatos do cliente para recitar, gesticulando dramaticamente, a inscrição da porta de entrada do Inferno, da obra de Dante Alighieri, traduzindo os versos em seguida:36
Per me si va ne la città dolente, per me si va ne l'etterno dolore, per me si va tra la perduta gente. Giustizia mosse il mio alto fattore: fecemi la divina podestate,
la somma sapienza e 'l primo amore. Dinanzi a me non fuor cose create se non etterne, e io etterno duro. Lasciate ogne speranza, voi ch'intrate. Por mim se vai das dores à morada, Por mim se vai ao padecer eterno, Por mim se vai à gente condenada. Moveu Justiça o Autor meu sempiterno, Formado fui por divinal possança, Sabedoria suma e amor supremo. No existir, ser nenhum a mim se avança, Não sendo eterno, e eu eternal perduro: Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança!
Foi justamente com Amoscato que nasceu a paixão de Salles pela obra de Dante. Ele, mais uma vez, encantado pelos livros vivos que são os outros, na ágora das ruas, lia- os com os sentidos atentos, exercitava o senso de observação sobre os fragmentos do dia, do cotidiano dos trabalhadores e suas práticas.
Todorov (2012, p. 77) reitera a importância da literatura ao afirmar que ela é “pensamento e conhecimento do mundo psíquico e social em que vivemos”, ao aspirar tocar e compreender a realidade humana. “Nesse sentido, pode-se dizer que Dante ou Cervantes nos ensinam tanto sobre a condição humana quanto os maiores sociólogos e psicólogos e que não há incompatibilidade entre o primeiro saber e o segundo”.
Essa postura dialógica firmaria o Vicente Salles pesquisador da cultura, o marxista que levaria a dialética histórica para seu campo de pesquisa. E quem o introduziu na filosofia marxista foi ninguém menos que Dagoberto Lima, seu vizinho sapateiro, militante do Partido Comunista, “verdadeiro filósofo, um leitor de Marx, da filosofia marxista”, que o doutrinava. “[...] ‘seu Lima’, que me levou à utopia socialista, emprestando-me livros e jornais comunistas que lia avidamente” (SALLES, 1993, p. 15).
O pai de Vicente não gostava muito daquela influência, mas seu Lima está devidamente creditado na autobiografia de Salles: aquele que lhe mostrou a perspectiva
política da luta de classes e da mais valia, conceitos que já haviam saído da abstração para a práxis, pois havia começado cedo a labutar para sobreviver.
O engraxate, o sapateiro, a mãe de leite. Ao nomear os sujeitos que cruzaram sua vida, Vicente Salles retira-os do pertencimento a um mundo subjetivo, circunscrito às raias de sua memória, ou a particularidades de um fato, e os projeta em um sentido público, universal. Não deixaram, por óbvio, de permanecer na sua memória afetiva. Mas o que o interessava como historiador era o instante em que sujeitos e fatos já não falassem de si, mas dos outros também. Tornados personagens, os sujeitos mencionados por ele configuram-se como signos de uma cidade e de um tempo; mostram a circulação de ideias, as culturas existentes na cidade, a atuação das entidades, dos partidos; dizem sobre o residual da cultura colonial escravista em uma região onde o extrativismo atravessou séculos como fundamento de sua estrutura econômica e social, e assim persiste.
A historiografia de Vicente Salles reitera permanentemente a existência do sujeito histórico e suas práticas culturais, sua linguagem e produção simbólica. “O homem não é um ser abstrato, isolado do mundo”, afirma Karl Marx (1843). “O homem é o mundo dos homens, o Estado, a sociedade”.
Outra figura seminal, vizinho de bairro, também comunista e personagem ilustre, foi o escritor e folclorista Bruno de Menezes (Figura 10), autor de romances, poesia, estudos literários e folclóricos. Bruno, amigo de Clóvis, era festeiro, um animador cultural, folclorista militante. Amava acompanhar, dançando e vestido a caráter, os bois- bumbás, as quadrilhas juninas, os cordões de bichos e pássaros juninos, os batuques nos terreiros. É autor de um cânone da literatura produzida no Pará: Batuque (1931), livro de poesia no qual utiliza a sonoridade das palavras de origem africana para traçar um panorama da cultura negra no Pará. Sobre a obra, o crítico Francisco Paulo Mendes37 (grifos no original) assim se referiu:
Bruno, educado, principalmente, pela poética simbolista, de ‘la musique avant toute chose’, dela jamais se libertaria de todos e por ela estaria preparado para captar, à custa da música negra, novas harmonias, novos ritmos, novos timbres e, assim, poder transpô-los para os versos sugestivos de Batuque, verdadeira ‘descoberta’ para a construção de uma poesia original e regional, realizando, desse modo, um ‘modernismo’ caracteristicamente nosso. Foi esta a sua contribuição maior e mais valiosa para a poesia paraense (MENDES In: MENEZES, 1993).
Justamente nos anos de 1920, Bruno ajudou a fundar e dirigir a revista Belém Nova, publicação dedicada às “artes” e ao “mundanismo” de Belém, segundo seu slogan. Esse periódico foi o primeiro a repercutir na capital paraense os rumos do movimento modernista brasileiro. Bruno era membro da Academia Paraense de Letras e um dos dirigentes zombeteiros da Academia do Peixe Frito, grupo que congregava escritores do porte de Dalcídio Jurandir e Jacques Flores em torno de uma mesa no Mercado do Ver-o-Peso, onde não apenas devoravam o tal peixe frito e demais iguarias da culinária do mercado, como prepararam as bases do modernismo na literatura do Pará.
Vicente, trinta e oito anos mais novo que Bruno, aproximou-se dele, que, vendo o interesse do rapaz pela cultura, levou-o a desvendar a periferia de Belém atrás dos folguedos. Foi assim que ensinou ao tímido Vicente a observar o folclore da região. Foi assim que, com o tempo, tornou-se um-seu guru, um Sócrates à paraense. “Minha memória é toda Bruno de Menezes portador de folclore”, escreveu Salles na apresentação do volume sobre folclore das Obras Completas de Bruno de Menezes editadas pela Secretaria de Cultura do Pará em 1993,38 por ocasião do centenário do poeta. Salles se tornou um dos intérpretes mais recorrentes da obra de Bruno de Menezes.
No final da década de 1940, Salles trabalhava em outro escritório comercial, no ramo farmacêutico, sempre como datilógrafo, e pertencia a círculos intelectuais diversificados, que diziam mais sobre suas escolhas. Um dos mais significativos foi o da música, sem dúvida. A sua história de “fracasso” com o violino o levou à música sinfônica através do violinista Mário Rocha, com quem tentou estudar de novo. É preciso dizer, antes, que aquele violino adquirido em Castanhal teve de ser vendido para ajudar nas despesas da família, nos primeiros tempos de mudança para a capital. Mas Salles refez suas economias, comprou um novo e tentou ser admitido no tradicional e aristocrático Conservatório Carlos Gomes, sendo reprovado.
38 Cf. MENEZES, 1993.
Figura 10: O poeta e folclorista Bruno de Menezes. In: Simpósio "Olhares sobre o poético"
Em seguida, procurou Mário Rocha, que se formara em Portugal e tocava no luxuoso Grande Hotel, na Praça da República. Rocha dava aulas à tarde para ganhar um