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No dia seguinte, Vicente foi à redação do Diário de Notícias procurar a jornalista e escritora paraense Eneida de Moraes (Figura 13), Eneida simplesmente, uma de suas melhores amigas e, àquela altura, uma personalidade na cena literária e política do país. Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), tradutora das obras de Karl Marx, Eneida estava radicada no Rio desde 1930. Fora perseguida e presa inúmeras vezes pela polícia de Getúlio Vargas durante o Estado Novo, histórias que ela narra nos livros Aruanda (1957) e Banho de cheiro (1962),41 que reúnem crônicas sobre sua vida em Belém, em São Paulo, onde participou da Revolução Constitucionalista (1932), e no Rio de Janeiro. A crônica, de acordo com a pesquisadora e biógrafa da autora, Eunice Ferreira, foi uma escolha política, afinada à orientação do partido, para chegar mais perto da compreensão pública.42

Uma de suas crônicas mais pungentes dessas experiências se intitula “Companheiras”, na qual relembra as mulheres que conheceu na prisão, como viviam e como se ajudavam. Entre elas, a alemã Elizabeth Saborowsky Ewert, Sabo Berger, esposa do militante comunista e dirigente do partido Arthur Ernest Ewert, ou Harry Berger. Sabo, ao lado da também alemã Olga Benário, foi deportada para a Alemanha nazista pelo governo de Getúlio Vargas e morreu num campo de concentração em 1940.

41 A reedição desses livros, em conjunto, em 1989 e 1993, conta com uma nota biográfica, à guisa de

apresentação, elaborada por Vicente Salles, intitulada “Eneida sempre amor: no Salgueiro e no Umarizal”.

E apesar de tantas experiências amargas e dolorosas, quem se lembra de Eneida, como Salles, vê a mulher exuberante, falante, festiva, cheia de vida, amorosa, que sabia receber e acolher. A que amava o artesanato e o folclore, sobretudo o carnaval, objetos de seus estudos. Criou o Baile do Pierrot no Rio de Janeiro e pesquisou os ranchos carnavalescos cariocas juntamente com Edison Carneiro, Ricardo Cravo Albin, Jota Efegê, entre outros. E tanto fez que virou enredo da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro em 1972 e do Império de Samba Quem São Eles, de Belém, no ano seguinte. “Eneida

sempre livre/Eneida sempre flor/Eneida sempre viva/Eneida sempre amor”, dizia o samba do Quem São Eles (MORAES, 1997).

Eneida era uma espécie de embaixadora do Pará na Capital Federal. Referência para quem, sendo nortista, chegasse ao Rio. Ela e Salles se conheceram em Belém, à época em que ele frequentava, com Bruno de Menezes, a Academia do Peixe Frito. Fora inclusive colaboradora da revista Belém Nova, aquela fundada por Bruno, um de seus trabalhos de juventude no jornalismo. Eneida desafiava, com sua risada, o senso comum e os tabus imputados às mulheres. “Exuberante. Ela era um carrapato. Uma mulher que te envolvia e fascinava, e, às vezes, também amedrontava. A Eneida tinha uma língua terrível, era muito irônica. Tinha suas antipatias também”, descreve-a. Porém, complementa, “era de uma dedicação extraordinária, principalmente a causas. Era fiel, de uma fidelidade incrível. Eneida... Eu convivi com ela desde que cheguei ao Rio de Janeiro até ela morrer”.

Por indicação dela, Salles teria oportunidade, como colaborador, no Diário de Notícias e na revista Leitura, e um reforço no processo de nomeação no Ministério da Educação e Cultura (MEC), onde ela já trabalhava. Foi assim: de agosto a dezembro, repetindo experiências anteriores, ele trabalhou numa empresa particular, enquanto

Figura 13: A escritora e jornalista Eneida de Moraes em seu apartamento, em Copacabana [s/d]. Fotografia do Acervo do GEPEM/UFPA.

aguardava sua nomeação. Como isso não acontecia, ela entrou em ação. Entregou-lhe um bilhete dirigido ao jornalista Vítor do Espírito Santo, que era da direção do DASP e amigo dela.

A boa colocação no concurso mais a indicação de Eneida permitiram a Vicente escolher onde gostaria de ser lotado. Teria ido certamente para a Biblioteca Nacional, mas, na impossibilidade, escolheu o MEC, cuja sede era o Palácio Capanema e onde trabalhava também, ele já sabia, Carlos Drummond de Andrade. Ficou imaginando como seria trabalhar próximo ao poeta. Sua nomeação ocorreu em 17 de dezembro daquele ano.

A esse respeito, vale uma anedota. Salles, lotado como datilógrafo na Diretoria de Ensino Secundário do MEC, no 15º andar, costumeiramente encontrava o poeta no elevador. Drummond ficava no nono andar, no Serviço de Documentação, à época dirigido por José Simeão Leal, diplomata e importante editor e crítico de arte. “Bom dia” e “Boa tarde” eram as únicas manifestações de Drummond dentro do elevador. Baixava a cabeça e assim ficava. Vicente fitava-o na expectativa de também ser visto, mas o poeta mantinha-se impassível. “Me lembro, com certo espanto, do Carlos Drummond de Andrade, com quem nunca troquei palavra, porque respeitava a sua introversão”, recorda- se. “Eu tinha um certo pudor de me aproximar [...], porque ele era muito fechado, tão circunspecto. [...] Eu via o poeta, não via o homem. O poeta era bem diferente do homem”, complementa.

[...]

É difícil de explicar esse sofrimento seco,

sem qualquer lágrima de amor, sentimento de homens juntos, que se comunicam sem gesto e sem palavras se invadem, se aproximam, se compreendem e se calam sem orgulho.

[...] (ANDRADE, 2012, p. 47–50)43

Com a vida quase desprovida de metafísica diante de tantas urgências a resolver – trabalho, nomeação, lugar para morar –, Salles só não esqueceu a música. Ainda sonhava em se tornar violinista. Em novembro conheceu Marcos Salles, violinista, compositor e professor de música, que nasceu em Salvador, em 1885, mas passou sua infância em Belém, onde aprendeu a tocar violino e onde se apresentou, pela primeira vez, no Teatro da Paz. Morou em várias cidades e se estabeleceu, por fim, no Rio de Janeiro. Desenvolveu carreira como solista, realizando excursões pelo Brasil e no exterior. Em

uma dessas turnês, passando por Belém, tocou com os Irmãos Nobre, no Teatro da Paz. Marcos Salles era casado com Anna Katarina Isdebski Salles, alemã que havia sido sua aluna, com quem teve duas filhas: Marena e Atelisa, ambas também musicistas, violinista e violoncelista, respectivamente.44

Com Marcos Salles, Vicente fez a última tentativa de estudar violino, desistindo de vez. Porém, ficou amigo do músico e, em dezembro, ao visitá-lo em casa, às vésperas do Natal, conheceu Marena, então com 15 anos, montando um presépio sobre um piano. A menina que sabia tocar violino o fascinou de imediato.

O presépio lembrou-me coisas do Pará, coisas que Marcos Salles também cultivava, e comecei a ajudá-la a montar as figuras. A menina-moça encantou-me e passei a dedicar-lhe poemas. Mas a vida de ambos não estava definida, naquele momento, para compromisso formal, o que aconteceu dez anos depois, nos idos de 64, quando, após breve namoro, nos casamos em 1965 (ISDEBSKI SALLES; SALLES, 2010, p. 19).

A narrativa tem o poder de sublimar o tempo, mas o fato é que Marena, à época, estava prestes a ficar noiva de um oficial da Marinha. No entanto, o namorado queria vê-la dona de casa e mãe de filhos, enquanto ela pretendia continuar seus estudos de música para ter uma profissão. Assim, resolveu terminar seu namoro à distância, pois o rapaz, em circum-navegação, estava, coincidentemente, passando por Belém do Pará. E lá chegou uma carta de Marena colocando um ponto-final no relacionamento.

Mas ela continuou sua vida e Vicente também. Então, a história deles, depois daquele primeiro encontro, ressurgiu de um longo hiato que atravessou vários acontecimentos na vida do pesquisador. Enquanto isso, ele visitava a família dela na época natalina, levando-lhes presentes, fazendo-lhes cortesia. E tocava a vida em frente.

Concluiu seus estudos secundários na Escola Cândido Mendes, na Praça XV. Em 1956, na redação da revista Leitura, reencontrou Edison Carneiro acidentalmente, restabelecendo o contato firmado naquele junho festivo em Belém e selando compromissos profissionais futuros. Em 1959, aos 28 anos, prestou Vestibular para Ciências Sociais, habilitação em Antropologia, na Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) da Universidade do Brasil (UB), atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e foi aprovado.45 Fez a opção pelo curso noturno, obviamente para que pudesse trabalhar

44 Os dados referentes a Marcos Salles estão no livro Marcos Salles: uma vida. Cf. ISDESBSKI SALLES;

SALLES, 2010d.

45 Antes, ele havia sido aprovado no Vestibular para Direito, mas desistiu de cursar. Tentou depois o curso

de Filosofia, que era a sua predileção, mas foi reprovado. Na terceira chance, começou a vida universitária.

durante o dia. A entrada de Vicente Salles na Universidade corresponde também à sua filiação ao Partido Comunista Brasileiro, no qual era “massa”, costumava dizer.

A Universidade do Brasil, criada em 1931,46 experimentava na década de 1950 um processo de reformulação e, em especial, vivia a discussão sobre a institucionalização da pesquisa nos seus diversos departamentos. À exceção da iniciativa de alguns catedráticos que também se dedicavam à investigação científica e publicavam seus trabalhos por esforço próprio, o perfil dos cursos da UB era de formação de professores.47 Contudo, a FNFi desfrutava de prestígio no país, tendo em seus quadros nomes como Darcy Ribeiro, Carlos Chagas Filho, Eulália Lahmeyer Lobo, Francisco Falcon e Maria Yedda Linhares.

Do curso de Antropologia, Vicente Salles lembra-se de alguns professores que lhe foram marcantes.

A começar pelo mais repudiado: Eremildo Vianna, História [Medieval], uma negação; Marina de Vasconcellos, Antropologia, herdeira de Artur Ramos e um tanto hostil a Edison Carneiro, que tentou disputar a cadeira; Djacir Menezes, Sociologia; às vezes, Darcy Ribeiro, quando estava disponível dos seus inúmeros compromissos, Etnografia; Álvaro Vieira Pinto, talvez o mais ilustre, fundador do ISEB [História da Filosofia].

A menção de repúdio ao professor Eremildo Vianna requer um esclarecimento antecipado. Deve-se aos futuros acontecimentos de abril de 1964, quando Vianna, vice- diretor da Faculdade, passaria a delatar seus colegas de trabalho.

A experiência acadêmica de Vicente Salles parece não ter tido tanta influência em sua formação intelectual, embora destaque a atuação de um diretório acadêmico “extremamente politizado” que lhe proporcionava uma vivência universitária mais rica. “[O diretório] promovia atividades muitas vezes superiores às que aconteciam nas salas de aula”, relembra.

É possível que o perfil da FNFi, naquele momento, estivesse distante dos anseios do jovem pesquisador, que já estava encaminhando uma pesquisa de forma autônoma. Segundo ele, a questão do negro “não teve muita ênfase no meu curso”. Para ele,

a herança de Arthur Ramos ficou meio apagada com o brilho de Darcy Ribeiro, que chamava a atenção ao ‘processo civilizatório’, [na] vertente do índio. Ele nos deixou para criar a UnB e o elo foi perdido. Marina de Vasconcelos não ia além das ideias de Artur Ramos, mas comigo sempre manteve uma atitude cordial. A questão do negro, eu havia priorizado desde minhas pesquisas iniciais no Pará e, no Rio de Janeiro, se ampliaram com o contato direto e diário com Edison Carneiro.

46 Originalmente era a Universidade do Distrito Federal, criada em 1920. Reorganizada em 1931 e

regulamentada por decreto de 1937, passou a se chamar Universidade do Brasil, designação mantida até 1965, quando se torna Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Por ora, vale ressaltar que, no início dos anos de 1960, as pesquisas em Ciências Sociais e em Ciências Humanas em torno do negro no Brasil deixavam, aos poucos, de partir da perspectiva apresentada por Arthur Ramos, de buscar o residual africano na cultura do negro transportado para o Brasil. A tendência das novas investigações era buscar o negro no cotidiano, no trabalho, na dinâmica da História. E essa dinâmica estaria mais próxima da prática de pesquisa de Vicente Salles a partir de 1961, quando ele passa a integrar a equipe da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro (CDFB), deixando o Departamento de Ensino, onde suas atividades se resumiam a datilografar documentos.

Se bem que, nessa condição de datilógrafo, ele se permitia cometer “ilicitudes”: “produzir os trabalhos ‘pessoais’ na própria ‘máquina’ do Estado. Me apropriei do bem público, papel carbono e máquina, com a convicção de que tudo aquilo era ‘nosso’, para produzir poemas e textos que publicava nos jornais com o maior despudor... (!!!)”, relembra. Poesia e prosa à parte, ele também utilizava papel, mimeógrafo e tinta “do governo” para colaborar como redator e impressor de “panfletos subversivos” para o Partidão, em atuação considerada “discreta” por ele mesmo. Em entrevista à pesquisadora Karla Oliveto (2007), a respeito de sua atuação político-partidária, ele também informou ter repassado ao partido cópia de atas relacionadas à política do ensino público brasileiro. Como era ele quem datilografava essas atas, reproduzia os textos do carbono e os entregava ao partido.

Daí ninguém desconfiar daquele funcionário, rapaz franzino que gostava de ir às récitas da Orquestra Sinfônica Brasileira, tornando-se sócio contribuinte (sob o nº 886) desde seus primeiros dias no Rio de Janeiro. Também frequentava bastante a seção de Música da Biblioteca Nacional, no sótão do edifício da avenida Rio Branco. Quando chegou ao Rio, o setor era dirigido pela bibliotecária Mercedes Reis Pequeno (Figura 14),48 de quem se tornou amigo e com quem colaborou em pesquisas na área. Salles foi colaborador permanente da seção, doando fontes de sua pesquisa musical, como partituras, entre elas, as do compositor paraense Tó Teixeira.

48 Mercedes Pequeno, nascida no Rio de Janeiro, é graduada em música pela Faculdade Nacional de

Filosofia, trabalhou com Heitor Villa-Lobos na implantação do ensino de música nas escolas públicas e, de 1947 a 1949, foi assistente do musicólogo mexicano Charles Seeger (1886–1979) na então União PanAmericana, atual Organização dos Estados Americanos (OEA). Possui vários livros publicados, entre eles, Bibliografia Musical Brasileira–1820–1950, junto com Luiz Heitor C. de Azevedo e Cleofe Person

de Mattos (INL, 1951). Colaborou com verbetes para a Enciclopédia de Música Brasileira (São Paulo, 1977). Cf. MERCEDES REIS PEQUENO.

Mercedes lembra que ele aparecia sempre “com uma saca cheia de música”, material a ser doado à biblioteca. “Em 54 iniciamos a amizade. Ele frequentemente me visitava na biblioteca e era uma pessoa de uma modéstia que não existe. Estava sempre disposto a ajudar com a maior simplicidade, inclusive no anonimato”, conta.49

Entre 1965 e 1974 foi colaboradora do Répertoire International de Litterature Musicale (RILM), catálogo de referências musicais de vários países. Quando pesquisou a área de folclore para a sua colaboração ao verbete, contou com a ajuda de Salles. “Naquela época, ele se dizia um folclorista, mas agora é etnomusicólogo. Quer dizer, ele era, ao mesmo tempo, um musicólogo, um sociólogo, um etnomusicólogo e poeta, como nós sabemos”, analisa.

Quem o olhasse à distância, era um moço tímido. Um moço comum.

49 Entrevista em 6 de janeiro de 2013, na sede da Academia Brasileira de Música, durante a festa da posse da

musicóloga Maria Alice Volpi na cadeira nº 2, que era ocupada por Vicente Salles. O patrono desta cadeira é Frutuoso Vianna e havia sido ocupada, antes de Salles, pelo compositor paraense Waldemar Henrique. Mercedes Reis Pequeno ocupa a cadeira de nº 7. As circunstâncias da gravação prejudicaram a captação do áudio.

Figura 14: Com a bibliotecária e pesquisadora de música Mercedes Reis Pequeno, no Rio de Janeiro, em agosto de 2012 © Rose Silveira