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A vida particular de Salles também foi convulsionada naquele primeiro semestre de 1964. Mas é preciso fazer um breve recuo no tempo para entender isso. Em 1963, ele passou a frequentar com mais assiduidade a casa do compositor Marcos Salles, com o intuito de ajudar nos estudos de Atelisa, a filha caçula do músico, que pretendia cursar Antropologia na FNFi. Dessa forma, ficaria mais próximo de Marena (Figura 18), a quem

já havia dedicado um conjunto de poemas, 15 cartas menores a Beatriz, sonetos publicados integralmente na revista Letras Fluminenses, de Niterói, em 1955.

Levava livros a ela e sempre esquecia algum, para ter motivos para voltar e retomar a conversa com a moça. No Natal de 1963, presenteou-a com um dueto de perfumes da Avon e com um acróstico. O pai dela viu logo que aquilo era uma declaração de amor, mas ela não queria perceber. Tinha acabado de romper uma relação amorosa, já havia outro pretendente, músico. Estava, portanto, confusa. Em janeiro de 1964, Vicente convidou-a para ir ao cinema ver O processo, baseado na obra de Franz Kafka. Não era exatamente uma situação romântica para um pedido de namoro, mas foi assim, assistindo ao enredo trágico da vida de Josef K., que ele se declarou. É ela quem narra:

Nós vamos a um cinema que hoje não existe mais, ali na Praça Sáenz Peña. Chegamos um pouco atrasados, assistimos uma parte e resolvemos continuar para assistir ao início do filme e, no intervalo, ele vira pra mim e diz: ‘Marena, aqui tem dois personagens: o Vicente, que é um homem sério, e o Frederico, que é meu lado safado. Se você tiver uma resposta boa, você informa pro Vicente. Se for ruim, você fala pro Frederico. Eu olhei pra ele e disse: ‘Vicente, eu não posso ter dar uma resposta, porque eu terminei um namoro agora. Eu não tenho certeza dos meus sentimentos. Eu simpatizo com você, tenho amizade, mas não sei até que ponto...’ Ele disse para mim: ‘Você tem que me dar resposta agora, senão eu vou embora’. Eu pensei e digo: ‘Olha, vamos fazer o seguinte. A gente vai sair, vamos andar, mas eu não te prometo nada. Vamos o que que desenvolve’. Bom, veja que eu tinha já uma imagem do Vicente: onde Vicente estivesse estava sempre com dois livros, com três livros, sempre carregando livro embaixo [do braço]. Isso era, e até hoje ele é assim. Isso me chamava a atenção, porque, não sei por quê, eu sempre gostei de ler desde jovem, apaixonada, de arrumar livro e tudo. Aí comecei a sair com ele. Nesse dia, nós fomos, depois do cinema, nós fomos assistir a um concerto no Maracanãzinho, nem me lembro mais o que que era. E depois voltamos para casa, conversando.

O namoro começou e não tardou para que Marcos Salles começasse a apresentar Vicente como o noivo de sua filha. Em 15 de fevereiro, no dia do aniversário de Anna Katarina, mãe de Marena, Vicente levou aliança de noivado e oficializou o pedido. Ainda que fosse contrário à instituição casamento, cedeu em favor da exigência da família, mas conseguiu livrar-se da cerimônia religiosa. O casório, que deveria ocorrer em junho, teve de ser adiado por um ano, porque, depois do golpe, ele ficou seis meses sem receber salário, inclusive perdendo o apartamento financiado pelo penhor da Caixa Econômica.

O casamento civil ocorreu em 28 de junho de 1965 (Figura 19), em um cartório na própria Praça Sáenz Peña. Fizeram uma recepção simples, para poucas pessoas, e depois partiram em lua-de-mel. Moraram inicialmente em um apartamento alugado na rua Riachuelo, no Centro, e, dois anos depois, mudaram-se para Botafogo.

Ao se tornarem namorados, Marena e Vicente descobriram inúmeras afinidades, além do gosto pelos livros e pela música, e o mesmo sobrenome, com a mesma grafia. “[...] eu já conhecia Belém pelas falas de meu pai e meus tios e tias, tanto que, quando conheci Vicente no Natal de 1954, já sentia Belém em meu coração sem nunca ter estado aqui”, disse ela no discurso proferido em 16 de novembro de 2011 (“Algumas palavras sobre Vicente Salles”), quando da cerimônia de outorga a ele do título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Pará.59

Andavam sempre juntos. Ele a acompanhava no Liceu de Artes e Ofícios, onde ela ministrava aulas de música – foi lá que aprendeu a fazer encadernação, enquanto a aguardava. Ela passou a acompanhá-lo nas pesquisas da CDFB, iniciando-se ali uma parceria profissional importante entre eles. Marena tornou-se responsável pela transcrição em partitura do material sonoro coletado por ele e, ao violino, participou de inúmeras gravações de

59 Vicente Salles também recebeu o título de Doutor Honoris Causa conferido pela Universidade da Amazônia

(UNAMA), em 17 de novembro de 2002.

Figura 18: Marena Salles como solista da Orquestra Filarmônica Estudantil do Diretório Acadêmico José Maurício Nunes Garcia, da Escola Nacional de Música, década de 1960. Fotografia cedida por Marena. Reprodução: Rose Silveira.

Figura 19: Casamento de Vicente e Marena, em 28 de junho de 1965, no Rio de Janeiro. Fotografia cedida por Marena Salles. Reprodução: Rose Silveira.

temas de suas pesquisas. Ele, por sua vez, orientou-a na realização de pesquisas sobre história do violino e de violinistas, sua especialidade, e na escrita de artigos para jornais e revistas, e de livros.

Além disso, compartilhavam os mesmos ideais políticos, participaram de quase todas as manifestações que agitaram 1964, inclusive do Comício das Reformas, e muitas outras que atravessaram aqueles tempos de ditadura militar, quando, ela relembra, não era recomendável ficar parado em algum lugar público esperando por alguém. A mínima demora era um recado para ir-se embora. E eles foram solidários muitas vezes com amigos perseguidos pelo regime, abrigando-os em casa, entre outras atitudes que Vicente evitava comentar. É muito significativa a dedicatória que ele fez a ela no Livro de Marena (1964), outro conjunto de poemas compostos ao longo da década de 1950, avançando a década seguinte, em homenagem à amada

Minha noiva

Nestes poemas encontrarás sempre a expressão mais viva do meu pensamento e da minha sensibilidade.

Um homem lírico que não sonha apenas o sonho egoísta dos apaixonados. Um homem simples que encontra na poesia a sua forma de comunicação com os semelhantes.

Um homem tão humano que te desejou como companheira

e te prometeu – não o céu dos idealistas – mas a terra dura, agreste, o chão terrivelmente árduo dos que veem no trabalho a razão de muitas (talvez todas) as coisas.

Este homem nada te promete senão a si próprio: liricamente quer

fechar-se em tuas mãos. Vicente

Rio, maio 1964.

E quando ela idealizou a publicação do Livro de Marena unindo-o a 15 cartas menores a Beatriz, em 2008, assinou uma apresentação em que resume a vida do autor e contextualiza a obra. Nesse texto, um trecho é como uma resposta àquela dedicatória. Ela diz: “Nossas vidas se uniram num ideal de amor e respeito, lutando pela igualdade social através da pesquisa da história e outros assuntos do nosso país, que, dentro dos meus limites, o ajudo” (ISDEBSKI SALLES, 2008, p. 9).

É muito provável que Livro de Marena tenha sido a última investida de Vicente como poeta. Ele, que passara a juventude a escrever poesias, dedicá-las a amores platônicos, a participar de concursos de poesia,60 encerrou a fase poeta de forma prosaica.

Foi assim: quando ainda solteiro, comprou a máquina de datilografar do amigo Bráulio do Nascimento e andava com ela para todos os lados. “Sabe o que aconteceu com ela? Esqueci no lotação. Sentei, botei do lado, devia estar cansado, desci, fui embora e a máquina ficou. Desapareceu da minha vida”, narra. E prossegue: “Eu acho que foi com isso encerrei uma fase da minha vida, uma fase poética. Basicamente deixei de escrever poesia depois dessa máquina”. Foi mais uma nota no seu inventário de perdas e passagens. Haveria outras.

A amiga Eneida de Moraes ficou enciumada com aquele namoro-noivado- casamento. “Não aceito teu casamento!”, teria dito a ele. Mas acabou se rendendo ao casal. Escreveu sobre o trabalho de pesquisa deles na coluna “Encontro matinal”, no Diário de Notícias,61 e Marena guarda de Eneida a lembrança de uma mulher que, de certa forma, inspirou-a a lutar por seus direitos.

Com essa cumplicidade encararam os fatos que se seguiram após abril de 1964. A campanha passou a ser coordenada por ninguém menos que o folclorista e diplomata Renato Almeida, que, bem articulado politicamente, conseguiu assegurar a manutenção dos trabalhos. Salles, livre do fantasma dos inquéritos, voltou a receber seu salário, mas foi impedido de concluir o curso de Antropologia. Ficou devendo uma prova de Matemática, e não abriam a segunda chamada. Ele entendeu aquela recusa como retaliação e teve de esperar dois anos para fazer a tal prova.

Dentro da campanha, com a saída de Bráulio, assumiu a editoria da Revista Brasileira de Folclore.62 “O primeiro ano foi horrível, olha. A revista nem circulou. Circulou um volumezinho mixuruca assim. No segundo ano da minha administração, reuni todo um ano num só, um número único”, relembra. A circulação foi normalizada depois de alguns números, e ele foi responsável por todo o processo editorial até o número 34 (setembro/dezembro, 1972).

Bráulio do Nascimento conta que, ao assumir a direção da Campanha, Renato Almeida acabou unindo-a à Comissão Nacional de Folclore, pois era presidente deste

60 Chegou a receber uma premiação do (hoje extinto) Instituto de Pensões e Assistência aos Servidores do

Estado (IPASE), com o poema “Canções de Frederico”, inspirado em Garcia Lorca.

61 Cf. MORAES, 1968.

62 Na Revista Brasileira de Folclore, Vicente Salles ocupou os cargos de secretário (1964–1965), diretor (1965),

órgão. Lembra que Salles tornou-se “o braço direito [de Renato Almeida] e praticamente quase que assumia a direção da Campanha. Ele desenvolveu a revista [Revista Brasileira de Folclore], que havia sido criada na gestão do Edison Carneiro”, relembra.63

Em 1966, pôde, finalmente, concluir o curso de Ciências Sociais, com habilitação em Antropologia. Ele e outros dois colegas fizeram uma prova de Matemática sobre Teoria dos Conjuntos, eliminando a pendência. O diploma de bacharelado foi-lhes entregue pela professora Marina de Vasconcellos, em cerimônia simples no gabinete da diretoria da FNFi, fechando assim aquele ciclo da vida estudantil, não a militância. Sua pesquisa sobre o negro no Pará, que deveria ser o trabalho de conclusão de curso, não foi apresentada, mas ele pôde ampliá-la ao longo dos anos, divulgando os primeiros resultados através de artigos, ainda naquela década.

Por conta própria, entre 1965 e 1970, Vicente e Marena empreenderam pesquisas de campo. Ela, por sinal, estivera em Belém em 1965, um pouco antes do casamento, como membro de uma orquestra que se apresentou no Teatro da Paz. Hospedou-se na casa da família dele e então pôde conhecer Belém. No mesmo discurso de novembro de 2011, ela conta uma pequena história:

Vejam uma curiosidade: eu já estava noiva de Vicente e meu pai me disse: “Quando estiveres em Belém, não aceite nenhuma bebida ou doce que te servirem sem saberes a pessoa que está te servindo, pois lá existe uma série de poções que podem te fazer afastar de Vicente. Muito cuidado! É a magia do ‘mundo encantado’ da Amazônia.”

Com Vicente conheci de verdade o Pará. Participei de suas pesquisas, tanto em campo como em arquivos. Embarquei na emocionante trilha de pesquisa que Vicente passou a desbravar.

Em 1968 viajaram pelo interior do Pará, a fim de registrar em áudio o carimbó do município da Vigia, e os antigos engenhos de cana-de-açúcar da cidade de Abaetetuba, famosa pela produção da caninha de Abaeté. Em Belém, tiveram a oportunidade de gravar o violonista e compositor Tó Teixeira executando algumas de suas composições, ele que se tornaria um personagem fundamental na elaboração de parte da obra de Vicente Salles sobre o negro no Pará depois da República, o que será visto em outro capítulo deste trabalho.

Marena documentou o toque dos tambores do carimbó e os falares dos caboclos, e fez a compilação de músicas para posterior análise. “Eu digo que a gente embarcou numa canoa, desbravando a Amazônia e o Brasil, né? Eu, dentro da minha pesquisa ligada ao violino e à música, e ele com a pesquisa dele ligada à Amazônia”, comenta a

pesquisadora. E iam pelo interior do Pará, com a ajuda de amigos que tinham carro, entrevistando tocadores de carimbó, vendedores de farinha na feira, vendedores de comida, e por aí seguiam.

Uma parte da família dela, no Rio, não entendia o porquê daquele trabalho. O motivo, ela explica:

Achavam que era inútil, que era uma coisa inútil. Para que pesquisar essas coisas? Não interessa. Vamos viver a vida [Vicente Salles fala ao fundo: “Era preconceito contra a cultura popular”]. Preconceito contra a cultura popular e várias outras coisas. Ele me ajudou inclusive no término dos trabalhos da graduação de violino, nos trabalhos escritos sobre vários assuntos dentro do pedido do currículo e, depois, quando eu fiz a Especialização, ele me ajudou a organizar a monografia. Inclusive trazia dados históricos que eu desconhecia para complementar e basear mais esse meu trabalho sobre a história do violino.

De outro, aquele trabalho desenvolvido por eles recebia a aprovação e a acolhida de um nome de peso: Eneida, sempre ela.

ENEIDA

Encontro Matinal: Viva o Pará

Antes de mais nada: quem ainda não leu – claro que me refiro a brasileiros que amem sua pátria – leia depressa “A ocupação da Amazônia”, de Genival Rabelo. Depois falo dele, porque hoje estou aqui para louvar e agradecer ao meu conterrâneo Vicente Sales a alegria que me deu domingo último. Vicente Sales é um moço paraense desses que amam realmente a sua terra; estudioso, desconfiado como todo caboclo amazônico, estuda folclore, trabalha na Comissão Nacional de Folclore, e redator-chefe da “Revista do Folclore” e vai calado e sério construindo a sua obra. Casou (e casou bem: a moça é musicista, violinista da Orquestra Sinfônica e se chama Marena) e foi a Belém apresentar a esposa aos pais. Mas como não sabe ficar quieto resolveu entrar pelo Pará adentro levando Marena e um gravador. E trouxe- nos delícias: primeiro as músicas de Tó Teixeira, de Belém, operário encadernador, que hoje com setenta e três anos, continua tocando violão para valer, compondo choros, valsas, marchas e mesmo “schottisches”. Tó Teixeira é tão consciente de sua música que hoje paga (paga, vejam bem) um rapaz para estudar com ele e continuar a compor quando ele morrer. Mas, além disso, Vicente trouxe-nos o Carimbó, um folguedo paraense quase desaparecido e cuja música é uma delícia. Todas elas são canções de trabalho, vamos colher açaí, vamos pescar, vamos fazer isso e aquilo. Há uma que tem um verso que diz: “Meu papagaio é um bicho inteligente/Ele fala, ele canta, tem a língua paraense”. Vicente Sales fez tudo isso por conta própria e quer fazer mais, muito mais, pelo que aqui mando um bilhete ao governador do Pará: Alacid Nunes, vocês bem que podiam financiar Vicente Sales nessas pesquisas. É preciso que nossos folguedos, nossa música, nosso folclore não morra. Não é justo que Vicente Sales trabalhe sozinho. Vamos ajudá-lo? Como é bonito o carimbó! (MORAES, 1968b).

A década de 1970 se abriu para Vicente e Marena com a chegada do primeiro filho, Marcelo, a 7 de janeiro. Em carta enviada ao amigo Tó Teixeira, em 11 de agosto, ele menciona o nascimento: “Quero também comunicar-lhe que temos agora um menino e que seu nome é Marcelo. Está uma gracinha e parece que vai gostar muito de música”. De

fato, o filho estudou violoncelo, tornando-se músico profissional. Para Marena, uma fase de recolhimento em relação à parceria nas viagens de pesquisa do marido, mas a continuidade de suas aulas no Liceu de Artes e Ofícios. Para ele, uma série de mudanças profissionais, mas, sobretudo, o lançamento de dois livros em 1971:64 Música e músicos do Pará, pelo Conselho Estadual de Cultura, e O negro no Pará sob o regime da escravidão, em coedição entre Fundação Getúlio Vargas e Universidade Federal do Pará.

A publicação de O negro no Pará, com as devidas ampliações de conteúdo, foi possível graças ao apadrinhamento feito pelo historiador Arthur Cezar Ferreira Reis, que lhe pediu os originais para ler e ainda o prefaciou, mesmo com o viés marxista da obra. Arthur Reis, que era professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), tinha influência no governo, tendo sido interventor do Amazonas de 1964 a 1967, e presidente do Conselho Federal de Cultura entre 1969 e 1972.

Autor de inúmeras obras sobre a Amazônia, entre elas A Amazônia e a cobiça internacional, Reis promoveu a articulação entre a FGV e a Universidade Federal do Pará, cujo reitor à época era o advogado Aloysio Chaves, para a publicação, mesmo que o tema fugisse à política editorial da fundação. Para ele, o livro era fundamental nos estudos amazônicos “para que se saiba, com mais segurança, sem hesitações e sem desvirtuamentos, o que representara a contribuição africana na elaboração social, cultural e econômica do gigantesco espaço brasileiro do extremo norte” (REIS, 2005). Com essa chancela, O negro no Pará foi lançado em Belém em meados de outubro de 1971.

Marena teve de desistir da viagem a Belém na véspera. Estava grávida pela segunda vez e contraiu rubéola junto com Marcelo, com um ano e nove meses. Permaneceu no Rio, perdeu a criança, teve de ser internada. Era a segunda vez que a morte rondava a vida deles naquele ano, pois, em 27 de abril, Eneida fora vencida pelo câncer. Os três haviam passado o Ano Novo juntos na praia de Copacabana. Eneida, já doente, queria fazer uma oferenda a Iemanjá: jogar uma moeda no mar. Meses depois, ela foi visitar a família. A última visita, como Marena e Vicente se recordam:

Marena Salles: Ela me deu um livro sobre educação e psicologia infantil. Ela falou muito, conversou e depois, na outra semana, quando a gente ligou pra ela, ela não estava mais. Estava no hospital. A gente foi visitá-la. Ela: “Eu estou driblando a morte. Eu vou vencer. Ela tá me rondando aqui, mas eu vou botar ela pra correr”. Tal a força interior que ela tinha, era uma coisa fantástica nela. Uma força que vinha de dentro, sabe? Aquela ânsia de viver. Vicente Salles: Vontade de viver.

64 A imprenta deste livro aponta o ano de sua publicação como sendo 1970, mas cartas e uma documentação do

MS: Foi a última vez que eu a vi, nesse dia em que estive lá com ela. Depois, ela... E exigia que um cabeleireiro e uma manicure fossem lá visitá-la no hospital. Ainda tinha isso. Era naquele hospital ali perto da Lagoa, como é? Não sei o nome dele. É um que fica ali no Flamengo, no Clube do Flamengo, no final ali da Lagoa.

Na campanha, Salles convenceu Renato Almeida a incorporar ao quadro de funcionários o pianista, compositor e folclorista Aloysio de Alencar Pinto, que trabalhava na Rádio MEC e, de acordo com Vicente, estava tendo problemas com Eremildo Vianna. A ideia, ao convidar Aloysio, era produzir discos com o farto material coletado no projeto Documentário Sonoro do Folclore Brasileiro. E Salles queria fazer compactos à semelhança daqueles de historinhas infantis da Coleção Disquinho, produzida pelo compositor João de Barro, o Braguinha, para a Copacabana Discos. A gravadora ficava no mesmo prédio da campanha, e Salles encontrava por lá, além de Braguinha, o maestro César Guerra-Peixe e o compositor Radamés Gnatalli.

O primeiro disco foi Vitalino e seu zabumba,65 com seis músicas da banda do ceramista e músico Mestre Vitalino de Caruaru (PE) (1908–1963), em gravação realizada pelo próprio Aloysio Pinto, para a Rádio MEC, em 1960, quando da passagem do artista pelo Rio de Janeiro para se apresentar em eventos e programas de televisão.66 Empolgado

e imaginando que iria fazer uma enorme surpresa para Renato Almeida, apresentando-lhe a primeira produção fonográfica daquele projeto, Salles sentiu-se no direito de assinar o texto de apresentação. Mandou prensar o disco e, quando o apresentou ao chefe, este teve uma reação inesperada: “Ele brigou comigo por causa disso. Jogou o disco longe. Fez uma cena. Eu senti, de repente, que foi porque eu não coloquei o nome dele [na apresentação do disco]”, relembra. “Eu era ghost writer do Renato. Na revista, eu fazia tudo aquilo e