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Singular para Vicente Salles, o ano de 1954. Em janeiro, ele se lançou à primeira de pesquisa de campo no interior do Pará. Investigava o carimbó, música e dança paraenses de forte acento negro, e as bandas de música do Salgado, região banhada pelas águas do Atlântico, no nordeste do Pará. Foi, inicialmente, para a ilha de Algodoal, ou Maiandeua para a população local, em busca das encantarias do lugar, das quais Maria Pretinha tanto falava em suas histórias de assombração e visagem.

Andando pela ilha, conheceu o menino Caroço, filho de pescador que o convenceu a conhecer o pajé local, Atanásio, um que recebia os caruanas, seres encantados. Chegando à tapera, que ficava entre dunas, o pajé resolveu fazer uma sessão reservada de cura espiritual. Munido de cachimbo de tauari e maracá, foi entoando seu canto. Em dado momento, a mulher de Atanásio, Dona Chiquinha, entrava e cantava com voz infantil estes versos, que Salles anotou rapidamente:

Abre-te, mesa! Abre-te, ajucá! Abre-te, cortina, Cortina reá! Tontom é bela

Cortei o pau, fiz a gamela, E depois vendi,

Fiquei sem ela.

Santo Antônio de Lisboa Morador em Portugal. Ai, depois vendi, Fiquei sem ela. Que dê cachimbo? Que dê tabaco

Que dê cachimbo para fumá... Que dê cachimbo para fumá... Chiquinha, dona Chiquinha, Chiquinha do mangabal, Apanha sua mangaba, Dentro do seu joamaral. (SALLES, 2007, p. 15–16)

De acordo com Salles (2007, p. 16), neste ponto, Dona Chiquinha, cantava uma espécie de “recitativo lento”:

Minha morada é longe... É... longe ninguém vai lá... á... Meu cavalo é russo pardo. Oh dona!

A história do pajé Atanásio e de Dona Chiquinha tornou-se uma “memória enquadrada” na família de Salles. Não há quem não saiba narrar, de alguma forma, a história do corpo fechado de Vicente contra os males do mundo. E por que não de abertura para novas experiências, como aconteceu em junho daquele ano.

Na quadra junina, quando Belém ferve com as quadrilhas e bois-bumbás nos terreiros, e os cordões de pássaros juninos se apresentam nos teatros, Bruno de Menezes, membro da Comissão Paraense de Folclore, afiliada à Comissão Nacional de Folclore, hospedou o antropólogo baiano Edison Carneiro. Autor de Antologia do negro brasileiro, Candomblés da Bahia, Ladinos e crioulos, entre outras obras, Carneiro estava a serviço da então Campanha de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Nessa ocasião, iniciou estudos de “localização conveniente para novas colônias no grande vale”, conforme escreveu na apresentação de A conquista da Amazônia (1956), livro resultante das três viagens que empreendeu à região – outras foram em 1955, como funcionário da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPEVEA) e do Instituto Nacional de Imigração e Colonização (INIC).

Salles foi convidado a acompanhar os dois numa visitação a um terreiro de boi- bumbá no Morro da Matinha, onde também havia batuques e quadrilhas – uma área outrora periferia de Belém, hoje bairro de classe média. Edison Carneiro surpreendeu-se quando viu a blusa estampada, típica de quadrilha junina, que Bruno de Menezes vestia para a ocasião. “Mas você vai sair com essa blusa?”, perguntou. E ele foi e “dançou a quadrilha sob a graça pitoresca das ‘marcações’ jocosamente afrancesadas” (SALLES, 1993, p. 15).

Foram aos redutos do velho poeta. Andaram pelos terreiros de bois-bumbás, de umbanda e de pajelanças, foram ao Ver-o-Peso e a todos os lugares que poderiam interessá-lo, tanto no centro quanto na periferia da cidade. As impressões mais vivas daquela viagem ele faria no livro A sabedoria popular no Brasil (1968), mas já em A conquista da Amazônia percebem-se as anotações dos vestígios daqueles dias:

[...] Um estilo de vida especial desenvolveu-se na cidade.

As ruas com indicação do distrito e da quadra... Os bairros, Sacramenta, Pedreira, Telégrafo sem Fio, Cremação, Condor, com a sua sistematização de ruas: nos dos Jurunas, tribos indígenas, Tupinambás, timbiras, Parecis, Mundurucus; no do Marco (da Légua), as vitórias brasileiras na guerra do Paraguai, Lomas Valentinas, Humaytá, Peribebuí, Chaco; no de Nazaré, figuras da República, Deodoro, Ruy Barbosa, Quintino Bocayuva, Benjamin Constant... A Praça Batista Campos, em que a Prefeitura transformou o antigo parque; a “vila” da Barca, pescadores e marítimos vivendo sôbre a água em casas de madeira arrancada a navios encalhados; a miniatura da

floresta amazônica no Bosque Rodrigues Alves... A arborização de mangueiras... Travessas, alamedas, passagens, como a da Volta da Tripa... As coisas do govêrno em amarelo, as da Prefeitura em azul... O horário funcional das 7 às 12...

Açaí, tacacá, pato no tucupi, muçuã, bife à Carlos Gomes... A bandeira vermelha à porta, anunciando o açaí... Bacaba, pupunha, cupuaçu, taperebá... As tacacàzeiras, às primeiras horas da tarde, vendendo nas esquinas... Cachaça servida em cuia...

A rua João Alfredo (“rua do comércio”), o Cavador da Vida, o Machado de Aço com um vasto machado (de madeira) do lado de fora, a loja de tecidos que anuncia a sua “sinceridade absoluta” na afirmação de que é a maior da América do Sul... Malas de raspa de couro... Cigarros Terezita... O Buraco Cheiroso vendendo essências da Amazônia...

A Viação Valha-me Deus, empresas de ônibus donas de um único veículo, Circular Interna e Circular Externa, os Dirigíveis (tipo Zeppelin) adorados pelas crianças – Cidade de Belém, Guajará, Brasil, Marajó... Uma corrida de automóvel pelos olhos da cara... Os Clippers de parada de ônibus...

Pará Clube, Assembléa Paraense... Os parques de bairro apresentando pássaros, Coati, Tentém, Periquito, Rouxinol, bichos, Beija-Flor, Corrupião, Cigarra Pintada, Saí Azul, Bentevi, bois bumbás, Onze Bandeirinhas, Flor do Campo, Flor do Lomas, Pai da Malhada, Primoroso, Boi Fôrro, Estrela Brilhante... Um dançaraz em cada bairro... O rancho – uma espécie de escola de samba – Não Quero me Amofiná, multi-campeão do Carnaval, sob o comando do negro Maravilha... Batuques e pajelanças, com espada (lenço mágico) e cigarros de tauari, o Marquês de Pombal como chefe da linha de tambor:

Tu não me chama de pajé Sou o Marquês de Pombal Cadê o barão de Goré?

[...] Uma cidade peculiar, testemunho vivo da riqueza da Amazônia. (CARNEIRO, 1956, p. 41–43, grifos no original).

Conversando a respeito de seu interesse por estudos africanistas, Salles foi incentivado por Edison Carneiro a ir morar no Rio de Janeiro, para estudar antropologia. “Ele era simpático, era professor, então tinha bastante traquejo de lidar com os mais jovens”, comenta sobre a primeira imagem que reteve de seu mentor. E decidiu ir. Antes ainda atendeu a um pedido do antropólogo para realizar um levantamento sobre os terreiros de umbanda em Belém a fim de colaborar com estudos que ele vinha fazendo sobre o negro no Brasil. Sua pesquisa, no entanto, ia até o Maranhão com uma documentação do samba de umbigada, e a apuração feita por Salles confirmava a hipótese de Carneiro sobre a existência dessa manifestação na Região Norte. Estava feito o laço.

Favorecia os novos planos de Salles o fato de ter prestado concurso público para a administração federal, sendo integrado, como datilógrafo, ao Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), a partir do qual os aprovados eram nomeados e lotados. Assim, chegaria à Capital Federal com emprego garantido. Só não sabia onde, mas logo saberia. Além do mais, ele conta, depois daquele encontro com Edison Carneiro,

percebia que precisava de uma formação acadêmica que Belém não poderia ofertar-lhe à época. E, antes disso, precisava terminar o ensino secundário, interrompido quando ele foi obrigado a trabalhar para ajudar a sustentar a família.

Passados alguns dias, amadurecida a ideia, Salles comunicou ao pai sobre a sua decisão de ir embora. Clóvis Salles não fez qualquer comentário, agiu.

Ele me deu uma lição de moral que eu levo até hoje. Não disse nada, foi trabalhar. No dia seguinte, quando ele volta pra hora do almoço, volta com uma passagem comprada, de navio, me entrega a passagem, com data marcada. Quinze dias depois, eu tinha que viajar. [...] Deve ter sido coisa que fizeram com ele, quando jovem, que saiu de Fortaleza para ir ao Pará, mais ou menos na mesma situação. Ele repetiu.

Diante disso, foi só o tempo de se despedir dos amigos. Joel Pereira deu-lhe um presente do qual Salles nunca se desfez: um LP com as Quatro Suítes para Orquestra, de Johann Sebastian Bach, com a Orquestra da RCA-Victor regida pelo húngaro Fritz Reiner. Pereira fez questão de escrever uma “bonita dedicatória, letras enormes, o que conseguia escrever com as poucas luzes de seus olhos” (SALLES In: PEREIRA, 2006) (Figura 12).

No dia 17 de agosto partiu. Duas malas: uma com roupas, outra com livros, o disco, o violino e pertences pessoais. Expectativa, nenhuma. “Para mim, era a estaca zero”. A mãe chorou. Maria Cristina chorou um ano inteiro. E ele ainda deixou para trás uma namorada de quem

gostava muito. Filha de um maestro. Sim, ele tinha uma namorada, cujo nome não revela, mas confessa que ela o fez pensar muito em adiar aquela partida. “A menina foi até se despedir de mim no porto”, relembra.

Ao meio-dia, o apito, a desatracação. Jogou as malas na escada do navio e pulou atrás. “Era ágil, era jovem, podia fazer isso”. Era um Ita, um Itanagé talvez, da Companhia

Figura 12: As Suítes de Bach, presente de Joel Pereira na partida de Vicente: "Ao meu estimado amigo Juarimbu com a sincera afeição que te dedica este amigo de sempre. Joel". Acervo particular de Vicente Salles, Brasília © Rose Silveira.

Nacional de Navegação Costeira, que transportava passageiros e cargas de norte a sul do país. Aos 22 anos, vivia, como tantos, o significado da letra da conhecida música: “Peguei um Ita no Norte e fui pro Rio morar/Adeus, meu pai, minha mãe/Adeus, Belém do Pará”. Começava a segunda de suas grandes travessias.