5.3 Two phase flow results
5.3.7 Effects from temperature glide
Fundada oficialmente em 1924, juntamente com a criação do Instituto de Pesquisas Sociais, a Escola de Frankfurt, formada por um grupo de pensadores que incluía nomes como Theodor Adorno, Max Horkheimer, Herbert Marcuse e Walter Benjamin, surgiu intencionando promover o livre debate intelectual sem a predominância de qualquer corrente filosófica. O resultado foi uma escola que estendeu suas análises desde os processos civilizatórios modernos e o destino do ser humano na era tecnológica até a política, a arte, o cotidiano, direcionando críticas especiais aos emergentes meios de comunicação.
Considerando o contexto político e social da época, a Escola de Frankfurt analisou a comunicação de forma crítica, caracterizando-a como uma ferramenta de controle de massas através da mídia, levando os indivíduos a pensarem de forma conveniente a classe mais poderosa, deixando a arte de ser comercializada como tal, passando a ser vendida como
1 Paulo Freire denominava o modelo tradicional como prática pedagógica de ―educação bancária‖, pois entendia que ela visava à mera transmissão passiva de conteúdos do professor, assumido como aquele que supostamente tudo sabe, para o aluno, que era assumido como aquele que nada sabe. Era como se o professor fosse preenchendo com seu saber a cabeça vazia de seus alunos, depositando conteúdos, como alguém deposita dinheiro em um banco.
produto, deixando a comunicação imparcial de lado e criando o que Adorno e Horkheimer classificaram como Indústria Cultural:
Adorno e Horkheimer (os primeiros, na década de 1940, a utilizar a expressão "indústria cultural" tal como hoje a entendemos), [acreditam] que essa indústria desempenha as mesmas funções de um Estado fascista e que ela está, assim, na base do totalitarismo moderno ao promover a alienação do homem, entendida como um processo no qual o indivíduo é levado a não meditar sobre si mesmo e sobre a totalidade do meio social circundante, transformando-se com isso em mero joguete e, afinal, em simples produto alimentador do sistema que o envolve. (COELHO, 1993, p.14).
Os receptores das mensagens dos meios de comunicação seriam, portanto, vítimas dessa indústria cultural que padronizaria seus gostos e os induziriam a consumir. Adorno e Horkheimer sugeriram, portanto, a substituição do termo cultura de massa, por indústria cultural, uma vez que se trata de uma ideologia e não de uma representação cultural imposta.
Horkheimer, Adorno, Marcuse e outros referiram-se com o termo indústria cultural à conversão da cultura em mercadoria, ao processo de subordinação da consciência à racionalidade capitalista, ocorrido nas primeiras décadas do século XX. Em essência, o conceito não se refere pois às empresas produtoras, nem às técnicas de comunicação. A televisão, a imprensa, os computadores etc. em si mesmos não são a indústria cultural: essa é, sobretudo, um certo uso dessas tecnologias. Noutras palavras, a expressão designa uma prática social, através da qual a produção cultural e intelectual passa a ser orientada em função de sua possibilidade de consumo no mercado. (RÜDIGER, 2005, P.138).
Na década de 1960, Umberto Eco publica o livro ―Apocalípticos e Integrados‖, onde se refere a duas maneiras de ver os meios de comunicação de massa: a dos integrados, que acreditam nos meios de comunicação como sendo essencialmente positivos, pois estariam contribuindo para democratizar a cultura e as informações, tendo os cidadãos participando com igualdade de direitos na vida pública e no consumo; e os apocalípticos, que defendiam que os meios massivos dão ao público unicamente o que desejam, seguindo as leis fundadas no consumismo e na arte como produto feito unicamente para ser vendido, uma referência à Escola de Frankfurt.
Eco aponta pontos positivos e negativos destas duas correntes, mas enfatiza que o cerne da questão não é qual posicionamento seguir, mas sim qual visão assumir diante esse fenômeno social:
Focar a discussão a saber se é bom ou se é mau a existência dos meios de comunicação de massa, é uma problemática mal formulada, que limita o caminhar efetivo a intervenção crítica. Nessa perspectiva, defende a cultura da proposta crítica, reflexiva, contra a cultura do entretenimento, visando possibilidades de intervenção. (BARBOSA, 2009, p. 104-105).
De acordo com Eco, a cultura de massa é a cultura do homem contemporâneo e, independente da qualidade do seu conteúdo, esta forma de cultura é um fenômeno legítimo de um momento histórico. O autor propõe trocar o termo Cultura de Massa por Comunicação de Massa, valorizando o texto para o entendimento das mensagens e do conteúdo transmitido através de signos linguísticos particulares cobertos de simbolismo, levando assim em consideração, também o tempo e o espaço para entender a comunicação.
Anos mais tarde, em sua obra ―Meios e Mediações‖, o filósofo espanhol Jesús Martin- Barbero empregou de forma particular o termo mediações, referindo-se às construções culturais e simbólicas, as ressignificações, reelaborações e ressemantizações dos conteúdos massivos, conforme a experiência cultural de um sujeito inserido em um contexto de multiculturalismo e de intertextualidade.
―Mediação, enquanto conceito, antecede a própria presença das mídias eletrônicas em nossas sociedades e trata da ação e intervenção humanas em processos de produção e circulação de formas simbólicas.‖ (OROFINO, 2005, p.56).
―O eixo do debate deve se deslocar dos meios para as mediações, isto é, para as articulações entre práticas de comunicação e movimentos sociais, para as diferentes temporalidades e para a pluralidade de matrizes culturais.‖ (MARTIN-BARBERO, 2009, p.261).
Assim, Martin-Barbero procurou compreender o processo comunicacional a partir dos dispositivos socioculturais que compreendem a emissão e recepção das mensagens.
Em primeira instância, ele observou que os meios de comunicação não configuram o ser humano num receptor passivo e alheio à sua própria realidade, ou seja, a mídia não institui e delimita uma relação unilateral entre um emissor dominante e um receptor dominado, pois entre esses dois pólos há uma intensa troca de intensões na cadeia comunicacional, isto é, os conteúdos culturais são responsáveis, juntamente com a vivência individual, pelos repertórios que cada sujeito possui para interpretar a realidade. (DANTAS, 2008, p.2).
O preceito de Martin-Barbero constitui a recepção midiática como um processo de interação existindo, entre o emissor e o receptor, um espaço figurativo preenchido pela mensagem, complexa de fatores, que muitas vezes faz com que a intenção inicial emitida possa não vir a ser a mesma percebida pelo receptor.
―Tanto quanto a perspectiva dos usos e gratificações, a análise de recepção entende os receptores como indivíduos ativos, os quais podem fazer muitas coisas com os meios de comunicação – do simples consumo a um uso social mais relevante.‖ (ESCOSTEGUY; JACKS, 2005, p. 42).
Sobre essa ideia, o educador brasileiro Paulo Freire acrescenta:
Todo ato de pensar exige um sujeito que pensa, um objeto pensado, que mediatiza o primeiro sujeito do segundo, e a comunicação entre ambos, que se dá através de signos linguísticos. O mundo humano é, desta forma, um mundo de comunicação. Corpo consciente (consciência intencionada ao mundo, à realidade), o homem atua, pensa e fala sobre esta realidade, que é a mediação entre ele e outros homens, que também atuam, pensam e falam. (FREIRE, 1983, p. 44).
Guillermo Orozco (2005), afirma que no processo de recepção, o telespectador não assume necessariamente um papel de passividade, uma vez que frente ao meio de comunicação, ele se vê participando de uma sequência interativa que ―começa com a atenção, passa pela compreensão, seleção, valoração do que foi percebido, seu armazenamento e integração com informações anteriores, e finalmente se realiza uma apropriação e produção de sentido [sendo que] a sequência pode também se realizar de maneira e ritmos diferentes.‖ (OROZCO, 2005, p.31).
Ainda, segundo Orozco, os meios tecnológicos de reprodução da realidade, também produzem essa realidade provocando reações racionais e emocionais nos receptores que, por sua vez, realizam mediações de caráter psicológico determinado pelas de caráter socioculturais. Orozco as chama de mediações individuais cognitiva e estrutural:
A cognitiva é um conjunto de fatores que influem na percepção, processamento e apropriação de elementos/acontecimentos que estão diretamente relacionados com a aquisição de conhecimento (informações, valores, crenças, emoções, etc.). A estrutural é constituída por idade, sexo, religião, escolaridade, estrato socioeconômico, etnia, etc. São elementos identitários que servem de referência ao receptor, conformando sua maneira de pensar e agir. (ESCOSTEGUY; JACKS, 2005, p.69).
Orozco ainda afirma que atua no momento da recepção: a mediação situacional, que caracteriza a situação da recepção, seu espaço físico, a companhia; a mediação institucional, analisando a interação do sujeito receptor com as várias organizações sociais a que pertence: família, escola, igreja; a mediação videotecnológica, referente às características específicas da televisão (e dos meios de recepção); e a mediação cultural, considerada fundamental ―por ser onde as demais mediações tomam seu lugar e onde se configuram, pois aí todas as informações se originam, o consumo se efetiva, o sentido é produzido e a identidade se constrói. Aí também se elabora o processo cognitivo, cujo mecanismo não funciona independentemente do contexto cultural, que, em boa medida, o condiciona.‖ (ESCOSTEGUY; JACKS, 2005, p.70).
O campo escolar representa o encontro de diferentes culturas, realidades, gêneros. Por meio de trocas perceptivas entre sua comunidade, mediações se fazem presente, seja a
institucional, situacional ou individual, proporcionando ao seu público, a atuação em um papel de receptor ativo e criticamente produtor de novos sentidos sobre os produtos midiáticos que consomem dia a dia.
O que nós precisamos enquanto educadores críticos, é assumir a responsabilidade institucional da escola nestas mediações, isto é: intensificando as possibilidades de ressemantização, diálogo, debate e resposta sobre o que os alunos e alunas recebem na mídia nossa de todo dia. E, ao propor modos de resposta, estar assumindo também o seu papel na produção de conhecimento sobre a mediação tecnológica [...] para que isso aconteça, não existem fórmulas e receitas prontas, o que é necessário [...] é a abertura e vontade política de experimentar e também correr os eventuais riscos que se revelem ao longo dos processos de criação de novos caminhos. (OROFINO, 2005, p.65-66).