5.3 Two phase flow results
5.3.4 Condensation heat transfer - Ethane-10
―Sete de outubro de 2003 será sempre o dia que divide minha vida. Antes que o dia terminasse, meu filho Ryan estava vivo. Um menino doce, suave e magro que, aos treze anos, tateava seu caminho através do início da adolescência, tentando estabelecer seu lugar em um mundo muitas vezes confuso e socialmente difícil. Depois daquele dia, meu filho teria ido para sempre, uma morte por suicídio. Alguns chamam sua atitude de bullycide. Eu prefiro chamá-la de um buraco enorme no meu coração que nunca vai cicatrizar1‖.
Esse é o desabafo que John Halligan postou em uma página da internet, logo após seu filho cometer suicídio em decorrência das frustrações sofridas pelo bullying e da incapacidade de, sozinho, conseguir sobreviver a esta violência. O jovem em questão se chamava Ryan Halligan, um garoto nova-iorquino que teve, em suas fraquezas acadêmicas e em sua má coordenação física, fatores que despertaram em bullies a perversidade e o desejo de humilhação. Seus pais, apostando na crença convencional dos adultos de que se trata apenas de crianças sendo crianças em suas brincadeiras e ainda, como não constataram ameaças físicas pelos rapazes a seu filho, ―apenas palavras‖, como diriam posteriormente, o aconselharam a apenas ignorá-los. Por anos os insultos e as provocações permaneceram presentes na vida do jovem que, ao pedir que lhes mudassem de escola, obteve como reposta o pedido para que tivesse um pouco mais de paciência, já que uma alteração entre instituições
educacionais poderia lhe trazer prejuízos pedagógicos futuros. Pediu então ao pai que lhe ensinasse a lutar para poder se defender. Recebera como presente, a inspiração do filme Karatê Kid – a hora da verdade, acompanhada de um par de luvas de boxe e um saco de pancadas. Treinando o suficiente para se garantir, Ryan enfrentou de igual para igual o seu algoz que, não conseguindo derrotá-lo, sugeriu amizade. Da falsa aproximação ao início de
ciberbullying, contendo insinuações inclusive sobre a não masculinidade de Ryan, pouco
tempo se deu até que o jovem, exaurido de humilhações e intimidações, atentasse sobre a própria vida, transformando-se assim, em mais uma vítima das centenas que veem no suicídio, o fim para seus tormentos.
Criadores do termo bullycide, Neil Marr e Tim Field lançaram no início de 2001, nos Estados Unidos, o livro ―Bullycide Death at playtime‖, sem tradução para o português, onde fizeram constar pela primeira vez essa denominação que representa o suicídio causado a partir dos traumas decorrentes da prática de bullying, ocorrências mais comuns do que muitos possam imaginar.
Considerado brilhante, o estudante Vijay Singh também passou a figurar o rol das vítimas do bullycide, ao tirar a própria vida em 1997, aos treze anos de idade, deixando anotado em seu diário:
―Eu vou lembrar disso por toda a eternidade e nunca vou esquecer. Segunda-feira: meu dinheiro foi levado. Terça-feira: nomes chamados. Quarta-feira: meu uniforme foi rasgado. Quinta-feira: meu corpo derrama em sangue. Sexta-feira: acabou. Sábado: a liberdade‖.
Vijay se matou no domingo. Por ser praticante do Sikhismo, religião monoteísta fundada no final do século XV no Punjab - região dividida entre o Paquistão e a Índia - tinha cabelos sem corte amarrados ao topo da cabeça e cobertos por um turbante, o que lhe rendeu perseguição motivada por intolerância e racismo.
Crianças e adolescentes que são constantemente maltratados por iguais, vivem em um incessante estado de medo e confusão em suas vidas. Muitos concluem que a única maneira de escapar dos boatos, insultos, agressões verbais e terror é tirar a própria vida. Estudos sobre esta prática ainda são muito poucos no mundo, no Brasil são inexistentes. Porém a ação é comum, desde épocas passadas. No site de divulgação de sua obra1, Marr e Field apontam como dados mundiais, que cerca de dezenove mil crianças tentam o suicídio por ano, uma a cada meia hora, sendo que cerca de dezesseis adolescentes morrem anualmente no Reino Unido, em decorrência desta prática.
No Brasil, o suicídio decorrente do bullying passou a ser visto não mais como algo distante, comum somente ao outro lado da linha do Equador. Relatos tristes de jovens que abandonam a existência por não suportarem o peso da indiferença e da depreciação em suas vidas, cada dia mais tomam corpo na realidade de nosso país. Casos como o do menino Roliver de Jesus, morador de Vitória do Espírito Santo que, aos doze anos de idade, cansado de ser humilhado, empurrado e xingado de "gay", "bicha" e "gordinho" pelos colegas de escola, cometeu o suicídio em dezessete de fevereiro de 2012, deixando uma carta com pedido de desculpas pelo ato e dizendo não entender por que era alvo de tantas humilhações. Embora isolados e pouco comentados, casos como o de Roliver tem despertado atenção nos noticiários e na mesa de estudos sobre o bullying, levando-nos a ouvir, mesmo que esporadicamente e de maneira prematura, o emprego do termo ―bullycídio‖ para relatar ocorrência de atentado à própria vida em nosso país.
Buscando serem ouvidos em suas dores, sete pais de estudantes vítimas de bullycide, uniram-se para publicar seus relatos, suas dores e orientações para que pais e professores possam fazer-se atentos para que a incidência deste tipo de desfecho diminua e, quem sabe, até se extinga. Organizado por Brenda High, mãe do jovem Jared High que, aos doze anos, em 1998, cometeu suicídio por não aguentar ser espancado e ameaçado por um valentão na
escola McLoughlin Middle School, em Pasco, Washington, nos Estados Unidos, o livro
―Bullyicide in America: Moms speak out about the bullying/suicide connection‖, contendo esses relatos, foi lançado em 2007, em publicação que se restringiu apenas aos Estados Unidos.
O psicólogo americano Izzy Kalman (2012), em artigo crítico e forte postado na página virtual do Psychology Today, afirma seu ponto de vista sobre duas razões apontadas por ele como motivos para que tantas crianças passem a cometer suicídios em decorrência da frágil capacidade em lhe dar com agressões como o bullying:
Uma [... é quando] o comportamento assume o status de moda, a coisa legal para se fazer. O tiroteio em Columbine foi seguido por vários outros tiroteios ou ameaças de tiroteios. A mídia estava relatando sobre esses eventos tão intensamente que algumas crianças perversas viriam atirar em suas escolas como uma ótima maneira de obter publicidade para seu sofrimento. Mas especialistas em violência advertiram que a mídia estava involuntariamente incentivando ações do tipo, de modo que esta sabiamente atenuou seus relatórios e a moda dos tiroteios em escolas gradualmente fracassou. A mais popular moda agora é a autolesão. A autolesão [...] poupa um escárnio público [...] o último ato de autolesão é o suicídio, e ele ganha simpatia em vez de desprezo. Há uma segunda razão que não está sendo reconhecida e pode ser ainda mais consequente. E essa é a nossa educação antibullying. Considere o que as crianças aprenderam sobre o bullying por mais de uma década [...] Eles foram apresentados ao bullying escolar delineando políticas
de todos os tipos de bullying que eles não devem tolerar. Eles foram informados de que as palavras podem ferir para sempre ou até mesmo matá- los. Eles assistiram a filmes e leram livros sobre a dor de ser vítima de bullying [...] Eles foram informados de que não são capazes de lidar com valentões por conta própria, porque os bullies são muito fortes, e que seus colegas de classe e professores devem defendê-los [...] Eles têm a promessa de que as novas e duras leis os protegerão do assédio moral. Agora eles são confrontados com a realidade. Apesar das promessas de proteção por parte da sociedade, eles continuam a ser intimidados e isso só piora [...] aborrecidos, eles apanham ainda mais, porque distúrbio emocional é o que alimenta o bullying. Assim o bullying fica pior, suas vítimas tornam-se mais desesperadas e mais propensas a sentir que a única maneira de acabar com a miséria é acabar com a própria vida. (KALMAN, 2012).
Entendemos que as crianças não são heróis e nem podemos cobrar atitudes fortes e decididas da parte delas, assim como também sabemos da fraqueza, muitas vezes presente, de suas capacidades de resistência e sabedoria para lidar com problemas. A fragilidade da adolescência, em formação e em necessidade de autoafirmação, quando confrontada com situações que lhe foge o controle, que lhe envergonha, que lhe dilacera as esperanças, desestrutura, desmorona em incertezas e desespero. Mas não podemos desconsiderar as campanhas preventivas a este tipo de violência, ao contrário, devemos revê-las em seus objetivos, suas intenções. Projetos temporais são passageiros, inserções de conhecimentos são ilusão. A participação de toda a comunidade escolar na elaboração de um Projeto Político-Pedagógico de duração infinita é a chave para que todos participem, colaborem e entendam seus papéis nesta situação que, mais do que combate ao bullying e as violências em geral, deve girar em torno das conscientizações morais, de virtudes positivas que, independente da situação em que o estudante se encontre, na fase de vida em que for preciso, saberá discernir situações, se posicionar de maneira consciente e resistir diante suas certezas de vida. Mais do que utopicamente disseminar a ideia de uma marcha Stop Bullying, é preciso plantar a ciência de um desejo particular de vencer o bullying, cada um fazendo sua parte em prol de si mesmo. Almejar o fim do bullying é desejar o fim da violência, um sonho de vida, mas uma realidade longínqua em um mundo que desde sempre teve o poder e a força como molas propulsoras. Agora vencer seus medos, entender o poder de suas ideias, a força de suas ações, é lutar pela vitória deste mal, não somente contra o agressor desumano, mas acima disso, contra seus próprios medos e suas próprias incertezas. A conquista da liberdade se dá internamente e, se entendido isso, tudo poderá ser enfrentado, não na força bruta, se igualando a quem se repudia, mas na sabedoria do entendimento da importância de sua direção, em um mundo de tortuosos caminhos.