A presente pesquisa teve como foco analisar o investimento direto externo recente de regiões mundiais e do Brasil. O objetivo principal do estudo foi caracterizar o investimento direto brasileiro no exterior na última década, com o propósito de contribuir para os estudos sobre a participação de empresas nacionais em uma economia globalizada.
Na discussão a respeito da globalização econômica evidenciou-se que este processo tem ocorrido ao longo das ultimas três décadas, e está alterando o cenário macroeconômico das nações. Nesta perspectiva, o campo das relações econômicas internacionais tornou-se mais abrangente devido ao maior número de atuações que a globalização possibilita. A acumulação capitalista está em um momento de transformação que pode ser observado pelo aumento constante da internacionalização de bens e serviços, o crescimento do fluxo de investimento externo e a integração dos mercados produtivos.
Foram adotados como principal base teórica os trabalhos de Dunning e de Johanson e Vahlne. No tocante as contribuições das diversas abordagens para a teoria do IDE evidenciou- se que estas estão focadas nos comportamentos e estratégias seguidas pelas ETNs. Nesse sentido a teoria do Paradigma Eclético de Dunning afirma que existe um conjunto de vantagens que são decisivos na atuação das ETNs. O primeiro conjunto são as Vantagens de
Propriedade, isto é, a existência de vantagens competitivas específicas da empresa que são de
natureza estrutural ou transnacional. O segundo conjunto são as Vantagens de Localização que se referem às vantagens que certos países e regiões possuem para atrair o IDE. Algumas localidades apresentam uma série de fatores inertes, naturais ou criados pelo país ou região, que podem ser definitivos na decisão de investir. O último sub-paradigma é o das Vantagens
de Internalização que se refere à propensão da empresa combinar suas vantagens de
propriedade e de localização para se firmar no mercado externo. Nesse ínterim, as estratégias seguidas pelas ETNs têm como foco a busca por recursos (resource seeking), a busca por mercados (market seeking), a busca de eficiência (efficiency seeking) e a busca de ativos estratégicos (strategic asset seeking).
Ainda observou-se o desempenho das ETNs com base na teoria do Modelo Uppsala, a qual afirma que a internacionalização da empresa, que tem sua base fundamentada no comportamento e no crescimento da mesma, é vista como um processo em que a empresa aumenta gradualmente sua participação internacional. Esta evolui para um processo de
interação entre o desenvolvimento do conhecimento sobre mercados estrangeiros e um esforço crescente de recursos para esses mercados. Os aspectos do estado de internacionalização são o compromisso de mercado e conhecimento de mercado, os aspectos de mudança são atividades atuais e compromisso de decisões. Conhecimento de mercado e compromisso de mercado são assumidos para afetar decisões relativas à liberação dos recursos para os mercados externos e da forma como as atividades em curso são realizadas.
Outro padrão observado foi de que as empresas davam preferência para internacionalizar-se nos países os quais possuíssem menor distância psíquica, definida por fatores que perturbam o fluxo de informações entre a empresa e o mercado, tais como as diferenças de língua, cultura, sistemas políticos e etc. Desta forma, as empresas investiam primeiramente no país com menor distância psíquica, e assim por diante.
Sendo assim, a internacionalização empresarial é, comumente, realizada de forma gradual passando por quatro etapas. Em um primeiro momento a empresa realiza atividades de exportação, em seguida, parte para a exportação via representantes estrangeiros. O terceiro passo é o estabelecimento de subsidiária de vendas e, por fim, a instalação de unidade de fabricação/produção no exterior, cujos determinantes são múltiplos, institucionais e até tácitos. Contudo, ressaltou a importância das informações sobre o mercado que cada empresa possuiu e que com esta pode modificar seu processo de internacionalização.
O processo de internacionalização tem por pressuposto a incerteza e a racionalidade limitada e admite que a empresa pode transformar-se conforme suas experiências anteriores e suas decisões de compromisso para o fortalecimento no mercado externo. A experiência constrói o conhecimento de uma empresa no mercado, e o conjunto de conhecimento influencia as decisões sobre o nível de compromisso e as atividades que posteriormente crescem para fora, o que leva ao próximo nível de compromisso e que gera mais aprendizagem. Sendo assim, o processo de internacionalização continua enquanto as perspectivas e o desempenho da empresa são favoráveis. Não obstante, é intrínseco que a aprendizagem e a construção do compromisso demandam tempo e que, por isso, as atividades com maior distância psíquica são realizadas com a trajetória de desenvolvimento da empresa.
Ainda é importante destacar que as redes de negócios acumulam conhecimento e constroem confiança que pode transformar laços fracos e dependência unilateral em relações bilaterais e interdependência e, assim, aumentar a produtividade conjunta.
Em relação à análise dos fluxos de IDE evidenciou-se uma extraordinária evolução a partir da metade da década de 1990, que foi conseqüência das estratégias adotadas pelas ETNs, da maior liquidez do mercado internacional e, também, das poucas regulamentações
que este possui. Assim, observou-se que a emissão mundial de IDE tem se concentrado em países desenvolvidos, sobretudo, nos que compõem a Tríade. Contudo, comprovou-se uma maior participação dos países em desenvolvimento no período pós-2000.
Referente aos IDEs da ALC notou-se que estes possuem uma importante participação dentre os países em desenvolvimento, contrapondo sua participação perante ao total dos IDEs do mundo. Ficou claro que os centros financeiros, as Ilhas Virgens Britânicas e as Ilhas Cayman, foram as principais emissoras de IDE. Em segundo lugar ficou a América do Sul como maior emissora, liderada pelo Brasil, Chile, Venezuela, Colômbia, Panamá, Argentina e Peru. A América Central e Caribe com a exclusão dos centros financeiros permaneceu na terceira posição dentre os emissores de IDE, sendo que o México foi o principal país responsável pela emissão desses recursos. Observou-se também que, excluindo os centros financeiros da ALC, o Brasil apareceu como maior emissor de IDE, tanto para os fluxos quanto para o estoque. Contudo, quando analisado a participação do IDE no PIB e na FBCF, o destaque ficou com o Chile.
A pesquisa realizada sobre os países do BRIC mostrou que a China possuiu fluxos intensos de emissão de IDE desde 1995, mostrando uma grande diferença com os demais países. Porém, nos últimos anos de análise, semelhante magnitude foi acompanhada pela Rússia. E, no contexto da avaliação dos países em relação aos seus Índices de Performance de IDE, alguns países com IDE relativamente amplo em termos absolutos, como o Brasil, a China, a Índia e o México, não apresentaram um forte indicador devido a proporção que os mesmos abrangem do PIB mundial, sugerindo considerável potencial para uma futura expansão do IDE.
No sentido de responder as indagações do início da pesquisa foi caracterizado a internacionalização das empresas brasileiras através do processo de investimentos no exterior. Ficou claro que as empresas brasileiras sofreram uma forte pressão competitiva por meio da liberalização das importações e dos intensos fluxos de entrada de IDE. A importância dos investimentos brasileiros diretos no exterior surgiu como uma alternativa estratégica imprescindível ao ingresso em novos mercados e novos recursos, tais como recursos naturais e tecnologia. Sendo assim, a internacionalização foi avaliada como um instrumento essencial para aumentar a capacidade e potencialidade da empresa responder às mudanças que ocorrem no mercado interno. Pois, um país que não contém empresas fortalecidas em nível internacional, suas empresas acabam sendo compradas por ETNs de outros países. Ainda foi observado que políticas de incentivo à internacionalização, assim como acordos bilaterais e
multilaterais decorrentes da maior liberalização da economia mundial e apoio financeiro, são fundamentais para estimular a inserção das empresas brasileiras no cenário internacional.
Quando analisado lado a lado os IDEs brasileiros com os IDEs provenientes de outras economias emergentes, concluiu-se que apesar, de as empresas brasileiras terem iniciado seus processos de internacionalização tardiamente, no período pós-2000 obtiveram uma boa recuperação alocando o Brasil entre os principais emissores de IDE da ALC. Porém, se comparado às economias do BRIC, identificou-se que o Brasil carece de maiores incentivos no tocante á internacionalização empresarial.
Também foi observado que os IDEs brasileiros possuem como destino principal a ALC. Sem considerar os centros financeiros, a Argentina, o Uruguai e o Panamá receberam destaque por receberem grande parte dos recursos financeiros. Ainda segundo o Índice de Potencial, foi avaliado que a capacidade de atrair IDE dos países latino-americanos ficou aquém quando comparada com a atratividade de países desenvolvidos, indicando, então, que outros fatores influenciam a decisão de internacionalização das ETNs brasileiras. Conforme apresentado pelo Modelo Uppsala, estes fatores podem ser resultado da experiência e do conhecimento adquirido pela organização ao longo do tempo em território estrangeiro. Embora igualmente seja importante ressaltar o fator distância psíquica entre os investidores brasileiros e o destino dos recursos, uma vez que são países com semelhanças culturais, históricas e políticas.
Dentre os fatores considerados essências para que uma empresa brasileira estenda seus investimentos para o exterior constatou-se que muitas delas mostraram ter necessidades financeiras, operacionais ou técnicas para expandir suas operações internacionais. Independente do grau de internacionalização o apoio do financeiro do governo foi visto como fundamental. A demanda por financiamento também foi verificada como importante para a criação de bases e plantas industriais no exterior a fim de garantir melhor ascensão e condições competitivas nos mercados consumidores. As empresas possuíam o objetivo principal de aumentar a participação no mercado internacional via IDE ao invés de expandirem suas exportações, contudo, é necessário, por parte das políticas industriais, considerar as particularidades de cada empresa ao apoiar o financiamento das atividades internacionais.
Para responder como as empresas brasileiras se adaptam as exigências do mercado internacional, foi analisado o grau de internacionalização das empresas brasileiras, bem como avaliadas de acordo com indicadores internacionais. A pesquisa mostrou que as empresas brasileiras que permanecem em meio a as líderes mundiais conforme seus ramos de atividade
obtiveram algumas transformações estruturais e comportamentais que possibilitaram a inserção internacional via vantagens específicas abordadas no Paradigma Eclético de Dunning.
Nesse ínterim, ficou evidente o potencial das empresas brasileiras para investirem no exterior. Em um primeiro momento, deve-se destacar que a participação do IDE brasileiro emitido no PIB e na FBCF foi menor do que em outras economias em desenvolvimento, sugerindo, assim, um potencial para aumento dessa participação. Da mesma forma, em relação ao Índice de Performance que indicou que o Brasil está mais presente no total do PIB mundial do que no total do IDE mundial, também indicou que as emissões de investimento direto brasileiro ainda possuem espaço para abranger.
Outro ponto que foi observado é relacionado aos incentivos internos à internacionalização. Notou-se que os apoios financeiros ao investimento direto de empresas brasileiras no exterior são recentes e que a demanda por incentivos está crescendo, ao passo que, novos acordos bilaterais e multilaterais estão sendo negociados. Sendo assim, identifica- se um ambiente favorável à expansão dos IDEs, visto que, o estoque do investimento direto brasileiro no exterior encontrou-se em ascensão durante o período observado, salvo em 2007 que obteve um fluxo atenuado devido ao resultado da finalização de algumas F&As. Além disso, o último ano de análise, 2008, foi marcado pela crise financeira mundial que teve influência sob diversas economias, entretanto, as ETNs brasileiras não mostraram terem sido prejudicadas, uma vez que o estoque de IDE foi recorde no ano.
Portanto, nestes termos, conclui-se que os investimentos diretos brasileiros no exterior estão aumentando e devem seguir a tendência dos fluxos de IDEs mundiais. As recentes medidas adotadas pelo BNDES, no sentido de auxiliar no financiamento do processo de internacionalização das empresas brasileiras, estão se mostrando efetivas na obtenção dos resultados planejados. É preciso ressaltar que a internacionalização produtiva das empresas de capital nacional está vastamente direcionada ao terceiro setor, o que indica a inserção no comércio internacional através de bens de maior valor agregado e maior conteúdo tecnológico.
Além disso, é importante ressaltar as dificuldades encontradas na pesquisa sobre os IDEs brasileiros emitidos, pois o estudo sofreu algumas limitações decorrentes da coleta de dados. O primeiro entrave encontrado foi em relação à disponibilidade dos dados, visto que a divulgação dos capitais brasileiros no exterior provenientes do BACEN e da UNCTAD não possuem informação quanto aos fatores responsáveis pelas oscilações dos dados. Desta forma, recorreu-se a outros estudos, como também, aos relatórios anuais das empresas de maior
destaque conforme a atividade do setor econômico que estão inseridas. Porém, foram encontradas algumas incoerências entre estes e os dados dos órgãos oficiais prejudicando, freqüentemente, a análise. Em conseqüência deste primeiro obstáculo, também foi identificado algumas dificuldades quanto a forma que os IDEs brasileiros assumem, visto de outra forma, o estudo ficou limitado no tocante às características do processo de internacionalização brasileira devido a falta de dados confiáveis sobre o modo de atuação das ETNs brasileiras no exterior.
O estudo realizado sobre o processo de internacionalização de empresas brasileiras através do investimento direto externo permite deixar algumas recomendações de pesquisa para trabalhos posteriores. Uma delas é referente à forma com que as empresas realizam os investimentos internacionais, uma vez que a internacionalização pode ocorrer de muitas maneiras, faz-se necessário uma melhor especificidade sobre as F&As e sobre os projetos de
greenfield das ETNs brasileiras, que possibilitaria uma compreensão mais ampla sobre as
características do IDE aqui estudados. Outra sugestão pode ser apontada no sentido de investigar os alcances dos incentivos financeiros do BNDES às empresas que desejam se internacionalizar e de que forma esses apoios são direcionados ou priorizados.
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