• No results found

Chapter 2: Literature study

2.2 Drilling problems

A partir da necessidade de atualização de seus saberes e discursos, vários moradores da RDSE – Ponta do Tubarão buscaram apoio em entidades e instituições do Rio Grande do Norte, como as universidades da região, os centros de ciência, alguns organismos sociais, para que, através dos diversos conhecimentos provindos destas fontes, especialmente o conhecimento acadêmico, pudessem compreender o que ocorria em suas localidades, mais que isso, pudessem ter este apoio para construir seu caminho de luta.

Quando observamos os discursos de alguns destes moradores, compreendemos que este tipo de estratégia de diálogo externo não parece ter sido encomendado de modo sistemático e consciente, mas, ao contrário, de modo espontâneo e fortuito. Podemos mesmo crer que foi na tomada de consciência de sua realidade social e ambiental, da beleza de seu

“canto”, que estes moradores se organizaram em um modelo dialógico de grupo social. Esse grupo tem como grande força motivadora os Encontros Ecológicos que aproximam às lutas de Diogo Lopes e, com elas colaboram, muitos outros atores sociais.

Fomos convidados e levados a participar destes Encontros Ecológicos da RDSE - Ponta do Tubarão, por acreditar na urgência da preservação e sustentabilidade ecológico- econômica, por acompanhar os esforços daqueles moradores e por tentar compreender como tratam os problemas ambientais, sem os deslocar de suas dimensões sociais e históricas. Na qualidade de pesquisadora, tivemos a oportunidade de realizar a observação participante.

O encontro entre nossas crenças pessoais e as diversas formas como os moradores de Diogo Lopes organizam seus discursos motivou-nos a esta pesquisa. Essa discussão em torno de saberes e de transmissão de saberes de gente de mais idade, de gente que não tem formação científica, de gente que tem respeito pelos modos díspares, paradoxais, mesmo, com que a vida nos desafia, é o que queremos promover aqui. Por isso, esta aproximação com as Velhas Mulheres.

Este valor de reflexividade é o que tem nos movido, ou seja, este diálogo sem fim, frutífero e desafiador, construído: de um lado – entre os urgentes desafios de Diogo Lopes e, do outro – dos nossos interesses cidadãos; entre nossas condições de mulher, de aprendiz e a forma de viver e ver o mundo das Velhas Mulheres da RDSE – Ponta do Tubarão. Vendo de outra maneira um diálogo elaborado entre as crenças dessas senhoras, suas causas e lutas, e nossas próprias crenças, culturais e femininas. É neste tipo de reflexividade, bem aos moldes de como BOURDIEU (2006 p. 50) nos propõe, ou seja, compreender porque se compreende e como se compreende, que nos situamos.

Por estas razões, optamos por ancorar esta pesquisa em uma abordagem reflexiva que também se faz desenvolver a partir de uma metodologia dupla que confronta, em diálogo, processos de abordagem distintos, para garantir resultados coerentes, ainda que amplos. Ou

seja, uma abordagem de trabalho circunstancial – apoiada na descrição e na análise etnográfica – com objetivo – quanti-qualitativo – fundado na Análise do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC).

Estamos tranqüilas em admitir nossa identificação com as Velhas Mulheres, sem negar nossa parcialidade em relação ao modo como são tão sábias em suas vidas, sem no entanto perder o poder de verificação, de cientificidade. Assim, a um só tempo, abordamos o objeto de estudo desta pesquisa com criticidade, de historicização, de análise e de afeto, de reflexibilidade.

Nosso primeiro contato com a comunidade pesqueira da Ponta do Tubarão foi avassalador, comovente e mostrou-nos o caminho para realizar esta pesquisa de mestrado. Tudo aconteceu em 2001, quando fomos convidadas pela senhora Marlúcia Elias de Farias, para a organização e viabilização do I Encontro Ecológico de Diogo Lopes e Barreiras. Dessa época para cá, essas mulheres têm ocupado um lugar de profunda significação em nossa vida.

E é do modo como os discursos dessas Velhas Mulheres são eficazes na sua comunidade, especialmente na formação de uma consciência coletiva e comunitária da gestão ambiental de sua aldeia, de que trata esta pesquisa.

Chegamos a Diogo Lopes em uma quinta-feira, ao final da tarde, a fim de participar de uma reunião para efetivar as idéias de realização do Encontro. À noite, fomos apresentadas aos moradores da comunidade. Fomos recebidas com carinho e expectativa.

Em reunião no Centro Comunitário Augusto Ribeiro, os moradores discutiam com a Sra. Marlúcia os últimos detalhes da organização do Encontro. As tarefas infra-estruturais eram distribuídas para todos os presentes. O grupo era constituído por mais ou menos vinte pessoas. Havia um conflito gerado entre a linguagem técnica, abordada pelos palestrantes, e a linguagem simples dos pescadores. O que os pescadores chamavam de rio, os técnicos

chamavam estuário. A Sra. Marlúcia explicava com paciência cada detalhe a fim de aproximar esses saberes.

BOSI (2003, p. 158) pensa que, “se existem duas culturas, a erudita terá que aprender muito da popular: a consciência do grupo e a responsabilidade que advém dela, a referência constante à práxis e, afinal, a universalidade”. Creio que os moradores estavam abertos ao diálogo com os técnicos que, por sua vez, tiveram desde o início dos contatos a preocupação de não impingir nenhuma verdade absoluta, não atropelar sequer, pela linguagem, os saberes da comunidade. O aprendizado mútuo, entre moradores e técnicos, resultou no sucesso deste Encontro.

Figuras 39 e 40 – Procissão do Padroeiro em Diogo Lopes.

(Imagens: Diogo Moreno)

Estando em Diogo Lopes tivemos a oportunidade de participar de vários ritos de passagens e realizar a observação participante durante as festas religiosas, tanto na festa de São Francisco, Padroeiro da comunidade, como na Coroação de Nossa Senhora. Observamos que na celebração e nos cânticos, além da afirmação dos preceitos, há uma ordem invisível na qual se reafirmam os valores de fé, conformação, devoção e de manutenção das “virtudes” das mulheres a exemplo de Nossa Senhora. Valores como virgindade, pureza, mãe protetora.

Figuras 41 e 42 – Festa da Coroação de Nossa Senhora.

(Imagens: Elisa Paiva)

Nos ritos de passagem, assim como nos Encontros Ecológicos, percebemos que esta comunidade confia em si mesma, não “aceita” fatalisticamente a exploração assume posições ativas com relação à necessidade de sua própria luta, pela conquista de liberdade e de sua afirmação no mundo. Pauta-se em princípios de Paulo Freire, quando ele afirma que “ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão. É preciso um permanente esforço de reflexão sobre suas condições concretas, a reflexão conduz à prática”. (FREIRE, 2004, p. 52). Encontramos esse pensamento em vários cartazes afixados em diferentes ambientes dessa comunidade.

Percebemos, portanto, a partir do rito da criação da RDSE – Ponta do Tubarão, que a comunidade está comprometida com a libertação, não se deixando alienar, impõe-se a uma educação problematizadora; busca a libertação autêntica que é a humanização em processo. (FREIRE, 2004, p.66).

O que chamava a nossa atenção nesses diálogos didáticos era o poder de mobilização da população pesqueira. Percebemos também que os grupos de trabalho eram, na maioria, coordenados por mulheres da comunidade e que estas mulheres demonstravam mais interesse pelos temas abordados, discutiam mais e traziam exemplos concretos para ilustrar os assuntos. O representante geral da comunidade era o Sr. Luis Ribeiro da Silva, um pescador conhecido por Itá, além de alguns casais e de um grupo de jovens adolescentes.

Durante esse Encontro Ecológico, os pescadores cederam gentilmente suas casas, mudando-se para as casas de seus parentes, a fim de acomodar os palestrantes e convidados, uma vez que nestas comunidades ainda não existiam pousadas nem hotéis. Ficamos hospedados na casa do casal, Arlete e Dário, uma professora e um pescador da comunidade de Diogo Lopes. Ao chegarmos a sua casa, tivemos a surpresa de ter nosso nome e dos demais hóspedes afixados às portas dos quartos, onde nos hospedaríamos durante os três dias daquele Encontro Ecológico. Esta era uma demonstração do nível de organização do evento, em grande parte, por iniciativa dos próprios moradores.

Figuras 43 e 44 – Mãezinha e Dona Lelé – Velhas Mulheres trabalhando nos Encontros Ecológicos.

(Imagens: Diogo Moreno)

As refeições eram oferecidas em uma residência que fora desocupada exclusivamente para transformar-se em refeitório. A mesa era farta com uma variedade de pratos, à base de peixes e frutos do mar. Ao escrever essas lembranças, recordamos o gosto do búzio e da sardinha. A alegria das cozinheiras era contagiante. Se por algum motivo atrasávamos para a refeição, nossa comida estava cuidadosamente guardada. Não faltava nada para os convidado. Mais tarde, descobrimos que as cozinheiras eram diretoras de escolas do povoado e representantes da comunidade. Começamos a perceber que havia uma forte influência das

mulheres na construção desta dinâmica social, e, que elas possuíam um grande poder de decisão.

Ao nos aproximarmos mais dessas mulheres, oferecemo-nos para ajudá-las na cozinha. Pediram-nos para ir ao mercadinho local comprar algumas verduras que faltavam para o almoço. Depois, prontificamo-nos a buscar as sardinhas. Notamos certo estranhamento nas pessoas, pois não sabiam que conhecíamos o local onde estavam as sardinhas. Tranqüilizamos a todos, conhecíamos o caminho, pois acabáramos de chegar do mercadinho. Todos se olharam e ninguém entendia o que dizíamos. Foi quando esclarecemos que poderíamos voltar ao mercadinho e ali comprar as latas de sardinha. Todos começaram a rir. Agora, éramos nós que não entendíamos nada. Por que riam? Era simples: nós pensamos em sardinhas em lata, portanto, acreditávamos poder comprá-las no mercadinho. Elas falavam em sardinha fresca, portanto, só as acharíamos no mar. Rimos bastante e, sem graça, descobrimos que Macau é o maior produtor deste tipo de pescado do Brasil.

Fomos designadas pela coordenação do evento para trabalhar com uma equipe de jovens moradores, a fim de recepcionar os palestrantes e convidados, direcioná-los para seus alojamentos, distribuir fichas das refeições, preparar e distribuir kits contendo: material de divulgação, camisetas e bonés. Também era da nossa responsabilidade distribuir kits para os pescadores e demais participantes dos eventos.

Nesse primeiro contato foi muito rico o diálogo entre a comunidade local e a comunidade científica, assim pudemos perceber que o sentimento preservacionista era compartilhado por todos.

Foi quando ouvimos o canto da vida que ecoava no cotidiano daquela gente, canto este soado a partir dos saberes e dos quereres de um grupo de Velhas Mulheres que, como todos daquela jornada, interessava-se por preservação, cuidado, educação, melhoria de vida,

respeito às tradições populares, especialmente religiosas, e produção de qualidade de vida pelo cuidado com o patrimônio natural que ali existe.