Chapter 4 Design construction
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Discurso é conversa escrita e falada e o pensamento que lhe serve de base. De acordo com Michel Foucault, o discurso é sociologicamente importante porque a
maneira como falamos e pensamos sobre o mundo modela o modo como nos comportamos e o tipo de mundo que, como resultado, ajudamos a criar. É através do discurso que construímos o que experimentamos como realidade e, logo que aprendemos a pensar e a falar sobre a realidade de uma maneira particular, não podemos deixar de desligar nossa capacidade de nela pensar em um incontável número de outras maneiras. (JOHNSON, 1995, p. 74).
Discurso, para uma compreensão teórica nesta pesquisa, “[...] não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar.” (FOUCAULT, 2005, p. 10). Neste sentido, acompanhando Michel Foucault, Discurso é uma interdição, dos sujeitos individuais em seus grupos sociais, do “desejo/poder” de ocupar um lugar de ação face ao grupo. Mesmo uma reflexão do sujeito para com a sua própria subjetividade (como se olhasse e falasse com o espelho) é o Discurso uma ação de coletividade, pois, coloca o sujeito em posição de “poder” sobre si, movendo a ação, obrigando-o a uma conseqüência frente ao seu “estado” de coletividade.
O Discurso ocorre quando não podemos dizer “o tudo”, encerrar em profundidade absoluta uma questão, assim como, quando não podemos calar “o tudo”, quando precisamos falar algo em circunstância, ou seja, algo que seja significante para o coletivo, quando se necessita ocupar, com a fala, um lugar de poder sobre a realidade, ou seja, quando necessitamos promover uma interdição pela fala.
Para Foucault, esta interdição acontece em três formatos discursivos claros: 1) o Tabu do objeto; 2) o Ritual da circunstância; e 3) o Direito privilegiado ou exclusivo do sujeito que fala. Este jogo dos três tipos de interdição é dinâmico, e ocorre em complexidade, não possibilitando hierarquias de valor entre os motivos de interdição, mas um cruzamento necessário à instituição de um poder de fala, de Discurso. Neste cruzamento, os tipos de interdição se reforçam ou se compensam, formando uma grade complexa que não cessa de se modificar. Esta estrutura será utilizada, a seguir, quando discutiremos a escolha das Velhas Mulheres de Diogo Lopes como informantes primárias desta dissertação.
Foucault, em sua obra, esteve interessado na formação do discurso, especialmente, de que forma as maneiras de pensar e conversar surgiu na sociedade e como afetam a vida social. Seu interesse especial concentrava-se em duas áreas: a loucura e a sexualidade, as quais considerava socialmente construídas. Para ele, não há loucura e sexualidade, exceto na medida em que seres humanos criam idéias sobre elas através da conversa e de outras formas de discurso.
Da mesma forma, compreendemos que o uso do Discurso, portanto, constrói o perfil de sujeito, de sua constituição, ao denunciar seus interesses e suas necessidades, sua filiação e sua prática social e política. No âmbito do conceito de Discurso que nos interessa para a composição do corpo de referência desta pesquisa, ainda seguindo o quadro conceitual foucaultiano, não há separação entre discurso verdadeiro e discurso falso. A separação que se reconhece neste tema é historicamente constituída.
Para os antigos, por exemplo, o Discurso que profetizava o futuro não só anunciava o que ia se passar, mas contribuía para a sua realização, suscitava a adesão dos homens e se tramava assim com o destino. Com o passar dos séculos em que o mundo Ocidental se constituiu, o conceito de Discurso falso e verdadeiro se modificou até o ponto em que, nos nossos dias, mesmo quando nos deparamos com uma adição à produção dos Discursos do valor de “saber” e de “poder”, esses discursos ainda são tomados como verdades absolutas.
Para Foucault, “a verdade se deslocou do ato ritualizado, eficaz e justo, da enunciação, para o próprio enunciado: para o seu sentido, sua forma, seu objeto, sua relação e sua referência.”. (FOUCAULT, 2005, pp. 14-15). Desta maneira, a verdade de saber, enquanto prática socialmente divulgada, no mundo Moderno e nos dias atuais, condicionou um valor hierárquico de poder aos sujeitos dos Discursos, bem como aos lugares de onde estes sujeitos os enunciavam.
Os processos de análises de discursos tornaram-se, na atualidade, práticas de profundas contribuições para o entendimento do mundo, de sua diversidade e de suas realidades. Nesta perspectiva, a escolha de um mecanismo de verificação da influência e da ingerência do discurso oral das Velhas Mulheres de Diogo Lopes na criação, fundação e manutenção da RDSE – Ponta do Tubarão, como propomos nesta pesquisa, parece-nos necessária.
No entanto, esta verificação científica só é possível se considerarmos o composto coletivo destes discursos, se compreendermos a presença unitária dos indivíduos informantes, mais que isso, a presença destes discursos individuais no coletivo. A distinção arbitrária, ou seja, teórico-metodológica, entre sujeito e coletivo, tem neste trabalho o objetivo de fomentar entendimentos possíveis dos sentidos de desejo e poder, na prática dos indivíduos e suas ações comunitárias.
Sendo assim, tornou-se absolutamente necessária a construção de um corpo textual que significasse pontos de convergência e de divergência sociais entre os informantes desta pesquisa, isto é, traços de coletividade discursiva, relevantes ao entendimento quanti- qualitativo das práticas sociais da comunidade estudada.
Por Sujeito, compreendemos aqui o sujeito do discurso, “uma noção necessária para precisar o estatuto, o lugar e a posição do sujeito falante (ou do locutor) com relação a sua atividade linguageira.” (PATRICK; MAINGUENEAU, 2004, p. 457).
Para os autores Charaudeau Patrick e Dominique Maingueneau (2004), esta noção de ser falante leva a considerar as relações que o sujeito mantém com os dados da situação de comunicação na qual se encontra. Nesta situação, ainda se encontram os procedimentos de discursivização, os saberes, as opiniões e crenças que este sujeito possui e que supõe serem compartilhados com seus interlocutores no coletivo.
Essa noção foi objeto de diferentes definições no transcurso da história da Lingüística e das Ciências Sociais. E cada uma destas definições aparece, ao longo dos últimos séculos, testemunhando a posição teórica de seus autores.
Para Pêcheux, o sujeito do discurso [grifo nosso] não se pertence, ele se constitui pelo ‘esquecimento’ daquilo que o determina” (1975:228). Trata-se do fenômeno da interpelação do individuo em sujeito do seu discurso [...] pela identificação (do sujeito) com a formação discursiva que o domina”, porque o sujeito é sobredeterminado por pré-construídos ideológicos (“efeito Munshausen”, ibid: 223). Para Ducrot, no quadro daquilo que ele determina pragmática integrada, devemos distinguir, no sujeito que produz o ato da linguagem, um ser empírico exterior a todo ato de linguagem, um ser de discurso (o locutor), responsável pelo enunciado, um ser de pura enunciação (o enunciador) que determina o ponto de vista do enunciado (1984).
Para Charaudeau, no quadro de uma problemática da alteridade, o sujeito do discurso é, ao mesmo tempo, sobredeterminado – mas somente em partes – pelos condicionamentos de ordens diversas, e livre para operar suas escolhas no momento de focalizar seu discurso. Ele é, ao mesmo tempo, coagido pelos dados da situação de comunicação (contrato) que o conduzem a se comportar discursivamente de uma certa maneira, e livre de se individuar, o que o leva a usar estratégias. Para tratar desse mecanismo complexo da discursivização, esse autor propõe distinguir um sujeito comunicante de um sujeito interpretante externos ao dito (nível situacional), um sujeito enunciador e um sujeito destinatário interno ao dito (nível discursivo). (Charaudeau, 1988e). (PATRICK; MAINGUENEAU, 2004, p. 457).
Desta forma, é conveniente considerar que o sujeito do discurso é um sujeito composto de várias denominações, como indica PATRICK; MAINGUENEAU (2004, p. 457). Ele é polifônico, uma vez que é portador de várias vozes enunciativas, ou seja, de polifonia. Ele é dividido, pois carrega consigo vários tipos de saberes, dos quais uns são conscientes, outros são não-conscientes, outros ainda, inconscientes. Enfim, ele se desdobra na medida em que é levado a desempenhar alternativamente dois papéis de bases diferentes: papel de sujeito que produz um ato de linguagem e o coloca em cena, imaginando como poderia ser a reação de seu interlocutor; e, papel de sujeito que recebe e deve interpretar um ato de linguagem em função do que ele pensa a respeito do sujeito que produziu esse ato. Cada um desses papéis conduz o sujeito do discurso a se lançar em operações diferentes. No primeiro caso, ele exerce o papel de codificador; no segundo, o papel de decodificador, sendo, em ambos os casos, produtos de inferências que não são exatamente idênticas.