8. Forslag til mulig videre utvikling i NIFS
8.2 Dreietrykk-/totalsondering – aktuelle utviklingsoppgaver
O luto público desempenha várias funções sociais identificadas por historiadores e antropólogos, os rituais expressos nesse espaço permitem a afirmação dos valores da sociedade, a legitimidade da religião e o fortalecimento das relações familiares ou culturais (Morin, 1976).
Walter (2008) ao citar Holst-Warhaft (2000), mostra como a paixão do luto pode ser uma força transformadora da sociedade, uma vez que é uma das mais poderosas emoções que os seres humanos sentem. Em muitas sociedades foi permitido, representado e modelado na forma de canção e lamentação. No entanto, ao longo da história, autoridades da Igreja e do Estado temeram as paixões do luto proibindo canções, lamentos e velórios, convertendo o luto em um sentimento monótono, transformando a paixão do luto em depressão (Walter, idem).
No século XX, o despertar do luto privado surgiu concomitante ao controle do luto público. A aceitação das regras surgidas sobre como se comportar em público e quais rituais seriam adequados ao enlutamento foram apenas parcialmente aceitas. Soma-se a estes fatores o direito à liberdade de expressão e liberdade de sentimentos, cada vez mais presente e conquistado por meio das lutas de classes. As pessoas buscaram a liberdade passando a entrar em luto de maneira mais profunda e por um tempo autodefinido e não somente pelo período ditado pela convenção social.
Por fim, a construção do amor romântico, que favoreceu o amor conjugal e paternal, influenciou diretamente a maneira de lidarmos com o luto, pois, se o luto é o preço que pagamos pelo amor, então uma cultura que celebra o amor em detrimento de propriedades e do patriarcado caminha para um lidar com as dores de maneira também privada. A partir do momento em que as pessoas começaram a se casar e ter filhos por amor, elas inevitavelmente também se enlutavam por amor.
Portanto, a noção de luto enquanto dor privada desenvolveu-se no século XX. O lado negativo desta questão é que se tornou um processo emocional interno mais difícil de ser deduzido ou expresso em comportamento exteriorizado. As pessoas enlutadas das sociedades ocidentais, principalmente as mais afetadas pelo individualismo, passaram a se guiar não mais
pelo compartilhamento e envolvimento social, mas por um processo no qual o luto reflete um apego exclusivo para com o falecido (Walter, 2008).
É evidente que esta realidade muda de país para país, mas é importante refletirmos sobre aspectos que impactam no processo do luto, tais como expressão de dor, rituais, apoio social e direito individual e, principalmente, sobre a diferença das concepções de individualidade, no que diz respeito aos direitos de livre expressão e critério de humanização da criatura (Morin, 1976) ou, em contrapartida, a tendência contemporânea de individualismo, no que diz respeito aos conceitos de solidão e egocentrismo.
Para Walter (1999), a possibilidade de expressão do luto no espaço público se dá quando é garantida a extensão da presença da pessoa falecida nas conversas diárias, ocupando a mente das pessoas que sofrem a sua morte e em como a sociedade pode contribuir para o alívio da tristeza consequente dessa perda.
As pessoas enlutadas carregam o morto através do sofrimento e dividem (ou tentam dividir) com outros de sua convivência. Essa partilha acontece pelos diálogos com pessoas da família, amigos, colegas de trabalho e outros mais ou menos ligados por laços familiares, afetivos ou profissionais.
É importante considerar que cada pessoa enlutada constrói a sua história a respeito do morto e, mesmo que não represente a realidade, na sua mente é isso que conta como sendo a sua verdade. Muitas vezes, essas histórias entram em choque com outras que diferem à medida que os sentimentos dos narradores para com o morto são também diferentes. As narrativas das histórias são formas que as pessoas encontram para aliviar a sua dor do luto e, por isso, necessitam expor isso a quem esteja disponível, ou mesmo interessado em ouvir. O fato é que nem sempre há pessoas assim, pois nem todas se dispõem a tal propósito. Daí a importância de pessoas próximas tais como amigos e familiares, o estabelecimento de grupos de ajuda mútua, ou quando se faz necessário, serviços de profissionais ligados à saúde, tais como os psicoterapeutas. Dessa forma, o grupo auxilia o indivíduo, assim como o indivíduo ajuda o grupo que divide emoções semelhantes.
Também, nos rituais funerários religiosos ou culturais, é comum uma pessoa discorrer sobre o falecido (feitos, caráter, laços, etc.), estando aí inserida a sua impressão, ou colhida de parentes, especialmente para essa ocasião. Falar torna-se necessário, como parte do processo de alívio da tristeza provocada pelo luto. Para falar é preciso criar o tema que surge por meio de história sobre o que aquela pessoa, agora falecida, representa na vida do enlutado. Cada história reflete a interação emocional vivenciada pelo narrador com o falecido, portanto, é
natural que contenha diferenças significativas entre cada uma e mesmo da realidade da vida do morto.
O luto público que se apresenta nesse formato, na contemporaneidade é denominado por Walter (2008) de Novo Luto Público (NLP), denota características próprias e vem sendo reavivado após a opressão sofrida no século passado. Concomitantemente a esse reavivamento, dois tipos de luto perderam legitimidade na sociedade contemporânea. O primeiro se refere ao luto por perda de um ser querido que era legítimo no espaço privado, mas a sua expressão social era severamente restrita e o segundo, o luto público sentido e expresso por pessoas desconhecidas, que era legítimo apenas quando sancionado pelo Estado (como as vítimas de guerras, os astronautas mortos ou vítimas do ataque terrorista às torres gêmeas de Nova Iorque), passou a ser visto como não autêntico. O autor refere-se aos rituais públicos e bastantes formais dos casos de luto público permitido, como o rigor do hasteamento das bandeiras a meio mastro que hoje pode ser visto como uma expressão de luto privado — logo após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, os jardins das residências dos americanos tinham bandeiras hasteadas.
Este NLP foi caracterizado tanto em seu sentido temporal quanto em seu formato. No que diz respeito à temporalidade, temos NLP`s que duram pouco, geralmente do período da morte até o enterro, tais quais os santuários públicos espontâneos, que incluem itens como flores, bilhetes, bichinhos de pelúcia e outros mais permanentes, como os memoriais, monumentos ou as comemorações sistematizadas anualmente. Com relação ao formato, é descrito por duas sistemáticas: a primeira vivida por pessoas que conheciam pessoalmente os mortos e tornam públicas suas próprias dores por meio de manifestações que envolvem a coletividade (construção de capelas à beira da rodovia onde muitos morreram atropelados; campanhas contra o dirigir alcoolizado; associações de enlutados de desastres; postagem em blogs e sites da internet e etc.) e, a segunda, quando pessoas que não se conhecem e nem tampouco conheciam o falecido e mesmo assim tornaram-se enlutadas em comum (morte de celebridades, atletas profissionais, e as vítimas de grandes tragédias que atraíram grande atenção e publicidade).
Uma das causas relevantes para essa mudança e nova visão relativa ao processo do luto na atualidade relaciona-se ao fato de que, após a morte de pessoas públicas ou mortes de pessoas desconhecidas que chamam atenção do público pela característica de horror, as respostas sociais são cada vez mais influenciadas pelos meios de comunicação.
Em setembro de 2007 um site de noticiário da Internet (InfoPlantão, 2007) chamou a atenção para a popularidade que as mortes passaram a ganhar com as facilidades da internet. Fundamentam seu argumento com um caso de uma mãe de adolescente suicida que percebeu seu conhecido mundo de condolências e cartões de solidariedade como um espaço muito limitado para sua dor. Então, recorreu ao filho mais novo, pela facilidade que tinha com a internet, e ocupou um espaço no mundo dos memoriais online, com o objetivo de criar um tributo mais adequado para a filha.
Este não é um caso isolado, muito pelo contrário, países como os EUA e a Inglaterra demonstram, há alguns anos, uma nova tendência, a dos sites desenvolvidos com ferramentas próprias que oferecem às pessoas que perderam alguém uma forma de homenagear os mortos (InfoPlantão, idem). Os usuários criam uma página com fotos, poemas e tributos, a qual pode ser visitada, vista e acrescentada como link por todos os interessados.
Um exemplo desses espaços é o site inglês, administrado por Nicola Davis, www.gonetoosoon.co.uk, um dos maiores sites britânicos de tributos aos mortos. Iniciado como site pessoal, cresceu imensamente desde que começou a operar, em novembro de 2005. Agora, o site traz tributos a mais de 13 mil pessoas e o número de novas homenagens aumenta em 100 ao dia. O fundador, Terry George, diz que os memoriais de pessoas não públicas, como a princesa Diana ou Elvis Presley e etc., também atraem as multidões, que deixam postadas milhares de mensagens para os mortos desconhecidos. O site Youtube, cujo propósito é o de armazenar vídeos postados por usuários, é palco para muitos assuntos diversificados e, entre eles, vemos incluídas também as questões ligadas à morte.
Essa comoção ampla e repetitiva na divulgação de algumas mortes atraem a atenção da opinião pública e chega a provocar em muitas pessoas horas de interrupção do trabalho e o deslocamento físico e geográfico até o local da morte, sepultamento ou resolução do caso, como uma forma de participação do desenrolar dos fatos e do processo do luto.
É importante citarmos que, em grande parte dos casos, segundo Walter (2008), alguns enlutados se questionam pelo fato de terem chorado a morte de alguém que nunca conheceram.
O que é do público e o que é do privado então? Contatar com informações sobre a morte de alguém pode atualizar conteúdos nossos sobre perdas? Ou será um ato de solidariedade e empatia humana?
Como forma de ilustrar esse envolvimento de massa e comoção popular, podemos citar o caso da menina Isabella Nardoni — morta aos cinco anos de idade, jogada do apartamento de seu pai no ano de 2008, em São Paulo (Brasil). Sua história de vida e morte
foi postada em vários sites da internet, como no Youtube e no www.gonetoosoon.co.uk. Ainda sobre esse mesmo caso, o psicanalista Contardo Calligaris (2008), em uma de suas crônicas, refere-se ao fato de que a morte violenta de uma criança fere a todos por arrancar um pedaço de nosso próprio futuro e destruir a fantasia nostálgica da infância.
Ao ser comparado com o luto tradicional, mostram-se mais claras as transformações e mudanças sofridas pelo NLP:
1. Enquanto nas sociedades feudais, patriarcais e totalitárias, os sujeitos têm por obrigação velar seus superiores sociais, no NLP a participação é opcional.
2. Em razão do luto não ser mais obrigatório, no NLP pode-se expressar um sentimento pessoal. O modo de se vestir, assim como o novo luto em si mesmo, expressa sentimentos pessoais e não regras sociais, ou seja, os enlutados não mais necessitam usar preto, as multidões usam o tipo de vestimenta que querem.
3. As pessoas não-enlutadas de hoje podem até ser pressionadas socialmente a manterem suas dúvidas para si mesmo no período inicial antes do enterro, mas depois que o sepultamento for encerrado ficam livres para dar voz às descrenças em relação aos que choraram pelo morto desconhecido.
Uma das explicações possíveis para o surgimento deste novo formato de luto seria o fato deste poder representar, em alguns países, uma nova expressão emocional, na qual se faz possível tanto o comentário dos acontecimentos que levaram à morte como dos sentimentos de enlutamento escapando assim do mutismo existente no período de 1914-1950, no qual as pessoas tinham que prosseguir vivendo, pois tinham uma guerra para lutar e uma pobreza para suportar.
Quando alguém morre, o grupo ao qual o falecido pertence se sente diminuído e, para reagir contra esta perda, as pessoas costumam se reunir e expressar sentimentos comuns. Se este grupo for uma cidade inteira, ou nação, então essa coesão se transforma em algo muito maior (Walter, idem). A sobrevivência de um grupo é um conceito que engloba as reações emocionais e comportamentais de seus integrantes as quais podem aflorar quando mudanças significativas colocam em xeque suas identidade e estrutura.
O NLP é praticado de acordo com as variações étnicas, classes sociais e os aspectos religiosos. Entretanto, muito embora estejamos percebendo a crescente aprovação para a liberdade de expressão também no campo público, a permissão para que se chore por pessoas as quais você nunca conheceu em vida, ainda pode transformar o enlutado em um forte alvo de críticas. Seu comportamento durante o processo de funeral é respeitado, mas, logo que
terminam os rituais e se enterra o morto, seus sentimentos podem ser rejeitados e julgados como não-autênticos, não-genuínos, o que desmonta e rompe o processo do luto público e também privado.
Por fim, Walter (2008) destaca mais um aspecto importante para ser pensado: trata-se do fato de que, apesar de autorizado e reconhecido publicamente, o NLP pode, para alguns, tomar o sentido de status social, sendo em alguns aspectos comparável ao luto público que acontecia logo após a morte de pessoas de alto status ao longo da história humana: um fenômeno social, e algumas vezes político, muito mais do que um fenômeno emocional.